12/08/2002
-
03h49
da Folha de S. Paulo
Brasileiros de um lado, latinos de outro. Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Cinema de Gramado -que abre hoje sua 30ª edição- estabelece competições distintas para os filmes nacionais (cinco títulos inéditos concorrem a 14 Kikitos) e estrangeiros (quatro produções realizadas entre 2000 e 2002 na Argentina, no Chile, no México e no Uruguai disputam entre si seis troféus).
O destaque ao cinema nacional, viabilizado pelo recente aumento no volume da produção, não é decisão estética, mas econômica. A organização do festival julga que a mostra "perdeu glamour" quando se voltou à cinematografia dos países vizinhos. Os atores de lá não são conhecidos aqui, e isso solapou o frisson dos turistas que movimentam, durante a semana de realização da mostra, aproximadamente R$ 12 milhões na economia da cidade gaúcha.
O tradicional desfile de estrelas em Gramado, muitas delas forjadas na TV e não no cinema, não é, portanto, acessório na definição do festival. Enoir Zorzanello, seu presidente, diz, na entrevista a seguir, que o festival busca o equilíbrio entre o caráter de festa imodesta (o orçamento deste ano alcança R$ 3 milhões) e a condição de espaço de debate do cinema.
Mais uma vez aderindo à última tendência, Gramado inaugura este ano uma grade competitiva de documentários e escala produções em HD, suporte que dispensa a película cinematográfica, na disputa de longas de ficção. A premiação ocorre no dia 17.
Folha - Assim como a produção do Brasil, a dos demais países latinos vem recuperando fôlego. Por que o festival preferiu dar enfoque ao cinema nacional, deixando os filmes latinos em mostra paralela?
Enoir Zorzanello - Optamos no ano passado por dar espaço maior ao cinema brasileiro. Até 2000, tínhamos uma competição internacional com oito ou nove filmes, sendo seis ou sete estrangeiros e um ou dois brasileiros.
O que a gente viu? O festival foi perdendo seu encanto, seu glamour. Infelizmente, a cinematografia latino-americana não tem a força do cinema norte-americano. Um ator ou um cineasta que é conhecidíssimo no México ou na Argentina, aqui no Brasil não é.
Como a nossa produção foi melhorando, agora temos em competição até cinco filmes brasileiros que concorrem entre si a 14 Kikitos e até cinco filmes estrangeiros concorrendo entre si.
Folha - Quando o sr. cita a celebridade de artistas está, indiretamente, se referindo à movimentação econômica que o festival produz por seu poder de atração turística?
Zorzanello - Também é isso. Mas a própria imprensa questionava essa história de não ter mais o cineasta brasileiro de primeira ponta, o ator, a atriz. Tínhamos muitos atores estrangeiros bons, mas não eram aqueles atores conhecidos como os de Hollywood. Essas pessoas não chamavam tanta atenção. O rádio, a TV e o jornal querem noticiar o que é mais conhecido, mais famoso.
Há jornais que se pautam pela qualidade, pela cultura, pelo que representa a cinematografia, mas nem tudo é assim. Estamos procurando o equilíbrio. Acho que estamos contentando o cinema latino-americano, ao abrir esse espaço, e também estamos conseguindo um certo contentamento com o cinema nacional.
Folha - Por isso Gramado mantém a tradição de convidar rostos famosos não só no cinema como na TV?
Zorzanello - Também é isso, mas não é só festa. Gramado hoje -e sempre primou por isso- é um local de discussões, de debate, de troca de idéias, de fórum durante o festival. Discute-se muito o cinema. Isso nós não perdemos.
O que a gente quer, e aí a palavra festival diz tudo, é que tenha glamour, estrelas, que é o que acontece com o Festival de Cannes. Mas tem que ter oportunidade para quem está iniciando mostrar sua cara. A gente tem essa preocupação. Não é só a questão do rosto bonito, mas pessoas talentosas.
Por exemplo, estamos trazendo como convidados este ano Walmor Chagas, que é um setentão, Lima Duarte, Eva Wilma, quer dizer, nomes que dispensam comentários. Também estamos trazendo outros atores com carinha bonita e tal. Ou tantos outros que têm cara feia. Não se trata disso.
Folha - O sr. disse que o festival procura incentivar o debate. Qual é, na sua opinião, a questão central do cinema brasileiro atual?
Zorzanello - O que se discute muito é a distribuição e a exibição. Esse é um mercado infelizmente muito fechado. Quem manda é o cinema internacional. A classe cinematográfica busca um espaço maior para a exibição.
Folha - Por que o festival abriu competição de documentários?
Zorzanello - Era uma reivindicação antiga desses produtores. Neste ano, o Brasil tem muito mais produção de documentários do que de ficção. É uma categoria que está muito em evidência.
Programação:
Festival de Cinema de Gramado
Conheça:
Gramado
Leia mais notícias sobre inverno
Festival de Gramado quer atrair com caras famosas
Publicidade
SILVANA ARANTESda Folha de S. Paulo
Brasileiros de um lado, latinos de outro. Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Cinema de Gramado -que abre hoje sua 30ª edição- estabelece competições distintas para os filmes nacionais (cinco títulos inéditos concorrem a 14 Kikitos) e estrangeiros (quatro produções realizadas entre 2000 e 2002 na Argentina, no Chile, no México e no Uruguai disputam entre si seis troféus).
O destaque ao cinema nacional, viabilizado pelo recente aumento no volume da produção, não é decisão estética, mas econômica. A organização do festival julga que a mostra "perdeu glamour" quando se voltou à cinematografia dos países vizinhos. Os atores de lá não são conhecidos aqui, e isso solapou o frisson dos turistas que movimentam, durante a semana de realização da mostra, aproximadamente R$ 12 milhões na economia da cidade gaúcha.
O tradicional desfile de estrelas em Gramado, muitas delas forjadas na TV e não no cinema, não é, portanto, acessório na definição do festival. Enoir Zorzanello, seu presidente, diz, na entrevista a seguir, que o festival busca o equilíbrio entre o caráter de festa imodesta (o orçamento deste ano alcança R$ 3 milhões) e a condição de espaço de debate do cinema.
Mais uma vez aderindo à última tendência, Gramado inaugura este ano uma grade competitiva de documentários e escala produções em HD, suporte que dispensa a película cinematográfica, na disputa de longas de ficção. A premiação ocorre no dia 17.
Folha - Assim como a produção do Brasil, a dos demais países latinos vem recuperando fôlego. Por que o festival preferiu dar enfoque ao cinema nacional, deixando os filmes latinos em mostra paralela?
Enoir Zorzanello - Optamos no ano passado por dar espaço maior ao cinema brasileiro. Até 2000, tínhamos uma competição internacional com oito ou nove filmes, sendo seis ou sete estrangeiros e um ou dois brasileiros.
O que a gente viu? O festival foi perdendo seu encanto, seu glamour. Infelizmente, a cinematografia latino-americana não tem a força do cinema norte-americano. Um ator ou um cineasta que é conhecidíssimo no México ou na Argentina, aqui no Brasil não é.
Como a nossa produção foi melhorando, agora temos em competição até cinco filmes brasileiros que concorrem entre si a 14 Kikitos e até cinco filmes estrangeiros concorrendo entre si.
Folha - Quando o sr. cita a celebridade de artistas está, indiretamente, se referindo à movimentação econômica que o festival produz por seu poder de atração turística?
Zorzanello - Também é isso. Mas a própria imprensa questionava essa história de não ter mais o cineasta brasileiro de primeira ponta, o ator, a atriz. Tínhamos muitos atores estrangeiros bons, mas não eram aqueles atores conhecidos como os de Hollywood. Essas pessoas não chamavam tanta atenção. O rádio, a TV e o jornal querem noticiar o que é mais conhecido, mais famoso.
Há jornais que se pautam pela qualidade, pela cultura, pelo que representa a cinematografia, mas nem tudo é assim. Estamos procurando o equilíbrio. Acho que estamos contentando o cinema latino-americano, ao abrir esse espaço, e também estamos conseguindo um certo contentamento com o cinema nacional.
Folha - Por isso Gramado mantém a tradição de convidar rostos famosos não só no cinema como na TV?
Zorzanello - Também é isso, mas não é só festa. Gramado hoje -e sempre primou por isso- é um local de discussões, de debate, de troca de idéias, de fórum durante o festival. Discute-se muito o cinema. Isso nós não perdemos.
O que a gente quer, e aí a palavra festival diz tudo, é que tenha glamour, estrelas, que é o que acontece com o Festival de Cannes. Mas tem que ter oportunidade para quem está iniciando mostrar sua cara. A gente tem essa preocupação. Não é só a questão do rosto bonito, mas pessoas talentosas.
Por exemplo, estamos trazendo como convidados este ano Walmor Chagas, que é um setentão, Lima Duarte, Eva Wilma, quer dizer, nomes que dispensam comentários. Também estamos trazendo outros atores com carinha bonita e tal. Ou tantos outros que têm cara feia. Não se trata disso.
Folha - O sr. disse que o festival procura incentivar o debate. Qual é, na sua opinião, a questão central do cinema brasileiro atual?
Zorzanello - O que se discute muito é a distribuição e a exibição. Esse é um mercado infelizmente muito fechado. Quem manda é o cinema internacional. A classe cinematográfica busca um espaço maior para a exibição.
Folha - Por que o festival abriu competição de documentários?
Zorzanello - Era uma reivindicação antiga desses produtores. Neste ano, o Brasil tem muito mais produção de documentários do que de ficção. É uma categoria que está muito em evidência.
Programação:
Conheça:
Leia mais notícias sobre inverno

