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17/08/2002 - 02h46

Livros trazem o maior mapeamento já feito da obra de Antonio Candido

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CASSIANO ELEK MACHADO
da Folha de S.Paulo

Uma das trajetórias mais sólidas da história da intelectualidade brasileira está ganhando uma espécie de "Projeto Genoma". Será lançado na próxima semana o maior mapeamento já realizado de cada uma das muitas partículas que compõem a influente obra de Antonio Candido.

Fruto de 19 anos de trabalho do pesquisador Vinicius Dantas, o levantamento da produção intelectual do autor de "Formação da Literatura Brasileira" chega às livrarias de todo o país em uma caixa com dois volumes.

"Bibliografia de Antonio Candido" traz a listagem de cada uma das pegadas que o crítico deixou em livros, jornais, revistas e até discos ao longo de um percurso que começou nos anos 40 e que continua aumentando com os lúcidos 84 anos do intelectual.

O banquete crítico continua no tomo "Textos de Intervenção", no qual estão reunidos 39 trabalhos inéditos em livro -ou de difícil acesso- que ilustram momentos marcantes de cada uma das facetas de Antonio Candido.

A afirmação dessas múltiplas atuações do intelectual, normalmente lembrado apenas como crítico literário, é justamente um dos eixos mais marcantes desse oitavo lançamento da coleção Espírito Crítico, conduzida pelas editoras 34 e Duas Cidades.

"O trabalho oferece o perfil completo do intelectual, não só do crítico literário. Procura articular as posições do crítico com as do educador, militante socialista, professor e teórico da literatura", afirma Vinicius Dantas.

Tradutor, ensaísta e poeta, ele se acercou do trabalho de Candido em 1983 interessado em organizar um livro com os chamados "rodapés literários" do crítico, textos que ele produziu entre 1943 e 1945 na "Folha da Manhã" (um dos embriões da Folha) e entre 1945 e 1947 no "Diário de S. Paulo".

O projeto não vicejou, e a maior parte dos cerca de 170 artigos produzidos semanalmente sob a vinheta "Notas de Crítica Literária" continua inédita. Mas no processo, Dantas foi seduzido de tal forma pela qualidade dos escritos de Candido que não parou de pesquisá-la desde então.

No conjunto de textos e informações articulado no par de livros, o pesquisador diz que pretende expressar alguns aspectos esquecidos que observou no convívio com as marcas de mais de 60 anos de atividades do intelectual.

Uma dessas características seria a força teórica que existe na escrita de Antonio Candido. "A idéia que temos dele é mais a do leitor de textos. Procuro articular essas leituras. Mostrar que toda a análise literária dele está acompanhada de um movimento teórico, que passa pela política, pelo socialismo, pelo engajamento do intelectual que tem uma dimensão existencial também."

"Textos de Intervenção", como o nome já sinaliza, não pára no poder teórico do intelectual. O conjunto de artigos reunidos também sublinha a "vocação pública e polêmica" do autor.

Exemplo da combatividade que acompanharia o intelectual é o pouco conhecido artigo "Alemanha = Nazismo ?" (1944), em que com incompletos 26 anos Candido atacava um dos intelectuais mais prestigiados da época, o antropólogo inglês Radcliffe-Brown.

Ao entrelaçar as forças teórica e prática de Candido, "unidade maciça e secreta" em torno do qual gira a antologia, como Dantas expressa na apresentação do trabalho, o pesquisador deixa à mostra outra das marcas que encontrou no seu mapeamento. Coerência.

"Escritor de vários tempos", como o caracteriza o pesquisador, "capaz de fazer desde intervenções curtas em textos muito ligeiros até trabalhos de longo prazo", Candido teria o que Dantas qualifica em apresentação do livro de "uma coerência tão firme, que é um mistério a se decifrar".

Ou como salienta em uma das orelhas do livro Augusto Massi, professor de literatura da USP e membro do conselho editorial da coleção Espírito Crítico, Dantas "soube perseguir em cada artigo, em cada resenha e depoimento do autor, o cumprimento de todo um programa: através da crítica literária e do uso original dos conceitos de estrutura, função e sistema literário, atualizar a consciência do país".

Não apenas a coerência teórica acompanharia as mais de seis décadas do intelectual. A coesão de Candido seria, aos olhos de Dantas, também estilística. O pesquisador, que trata o crítico como "escritor" nos textos em que apresenta os capítulos dos livros, enfatiza a qualidade literária do ensaísta. "É uma novidade. Antes dele, a crítica era feita por pessoas que escreviam mal, como José Veríssimo ou Silvio Romero."
 

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