Pianista que hoje toca apenas com a mão esquerda lança 3 CDs
PEDRO ALEXANDRE SANCHESda Folha de S. Paulo
O pianista João Carlos Martins se comprova, cada dia mais, um sobrevivente. Há uma epopéia entre a gravação de "João Carlos Martins Interpreta Haydn e Mozart", em 2000, e seu lançamento apenas nesta semana.
Quando gravou, havia acabado de seccionar um nervo da mão direita, para estancar uma dor provocada por espasmos. Em pouco tempo perderia o controle dos movimentos da mão direita. Era a última chance -e ele aproveitou. E se tornou depois um incansável pianista de mão esquerda.
"Falaram tanto de mim quando estive ligado à política, mas sou o único pianista que ficou com a esquerda no Brasil, não é?", declara, ironizando as batalhas judiciais que enfrentou após trocar o piano pela política, com Paulo Maluf, e virar o pivô do caso Paubrasil -empresa acusada de arrecadação irregular para campanhas.
Já em 2002, mais dificuldades: descobriu um tumor na mão esquerda que, benigno, foi retirado.
Em 2003, João Carlos Martins faz o primeiro concerto no Brasil depois de 18 anos, para o Hospital do Câncer Amaral Carvalho, em Jaú (SP). Também realizará, na FMU, trabalho de integração da cultura com o sistema educacional universitário. Abaixo, ele relata o que chama de sua saga.
Folha - Até que ponto é possível ser pianista com uma mão?
João Carlos Martins - A gente tem facilidade de se adaptar. Como já houve casos de pianistas que perderam a mão direita, existe repertório para a esquerda, mas é pequeno. Meu primeiro CD assim saiu em 2001. Mas estou pegando obras famosas e adaptando para a esquerda para gravá-las.
Neste ano, estava num concerto na China e pensei a frase para a minha vida com a mão esquerda quando vi o spalla tocando: tenho que me sentir a pessoa mais feliz do mundo, sou um violinista tocando piano. Violinista toca com uma mão, com a outra movimenta o arco. Saí realizado. Hoje sento ao piano e acho que foi feito para o pianista de uma mão. É o jogo do contente, da Poliana, que acabei fazendo comigo.
Folha - Os CDs que você lança agora são anteriores a isso?
Martins - Sim. Gravei toda a obra de Bach, em 21 CDs. Foi lançada no mundo inteiro, mas não no Brasil. A gravadora começou agora a lançá-los aqui. Paralelamente, outra gravadora lança nesta semana um disco inédito meu, que só sai nos EUA em abril. Fiz após a operação que cortou o nervo. Quando voltei da anestesia, os médicos avisaram que em 30 dias eu estaria liquidado, que a atrofia ia aparecer aos poucos. Gravei antes disso, é o último trabalho que fiz com as duas mãos.
Folha - O que houve com sua mão?
Martins - Costumo me chamar de trem-fantasma, em cada curva é um susto. Em 50 anos me afastei do piano em duas ocasiões. Na primeira, em 67, estava jogando futebol e entrou uma pedra no braço que lesou o nervo cubital. Parei sete anos. Resolvi voltar, treinei até dez horas por dia. E marquei concerto no Carnegie Hall, em Nova York. Passei a fazer menos concertos e comecei a gravar Bach, porque durante as gravações você pode descansar.
Folha - E a segunda interrupção?
Martins - Sem notar eu fui mudando a minha posição natural. Quando vi, estava com LER (lesão por esforço repetitivo). Parei mais sete anos, havia gravado só metade. Fui para o lado oposto, acabei na política. Deu no que deu.
Dentro do meu carma, já havia conseguido recuperar e voltado a Bach quando, em 95, na Bulgária, fui assaltado e levei uma coronhada. Tive uma lesão cerebral, fiquei com o lado direito do corpo imobilizado. Fui recuperando movimentos e um ano depois estava novamente no Carnegie Hall.
Mas cada palavra que falava me provocava um espasmo. Uma dor brutal. Decidi que preferia ficar um ou dois anos deitado, sem contato social com ninguém, mas acabaria a gravação completa da obra de Bach para teclado. Acabei em 98 e aí a junta médica cortou o nervo. Resolvi então dar concertos só com a mão esquerda. Fiz a primeira turnê agora, na China.
Folha - Que avaliação você faz da situação da música erudita no país?
Martins - Ah, existem talentos. O país terá a honra de ver o regente-assistente da Osesp como assistente do titular da Filarmônica de Nova York. É totalmente inédito. O fato de a Osesp ter atingido o nível que atingiu permitiu trazer um regente como Ira Levin para a Orquestra Sinfônica Municipal. Mas, se compararmos a Osesp com a orquestra de Birmingham ou de Chicago, ainda há um longo caminho a percorrer. O Brasil é um país de fenômenos individuais, temos que passar a ter uma mentalidade coletiva.
Folha - É possível esperar isso do governo do PT?
Martins - A esquerda sempre esteve mais envolvida com as coisas da cultura. Na teoria, a esquerda tem as melhores idéias, mas gasta meses de consulta para botá-las em prática. O governo Lula vai ter oportunidade de ser o melhor para a cultura no país, desde que não perca tempo na teoria.
Folha - Em que pé estão os seus processos na Justiça?
Martins - Tive uma vitória em 96 no Supremo, por sete a zero, e todos os processos correlatos ao da Paubrasil foram se extinguindo. Dos US$ 19 milhões arrecadados, apenas US$ 25 mil não foram comprovados como despesas, porque não consegui encontrar os recibos. Se eu pudesse voltar no tempo, não entraria na política. No meio do processo, tinha vergonha de sair para a rua. A única chance que tenho é vencer na música, no meu ofício. Hoje, se perder a mão esquerda, vou ficar na música, em conferências, aulas.
Folha - Perder a mão esquerda?
Martins - Tudo é possível. Para ver minha saga, voltei da China e descobri que tinha um tumor na mão esquerda. Tirei, era benigno.
Folha - Que sequelas a questão política deixou no pianista?
Martins - Quando você vê que seu nome não está na "Ilustrada", mas no outro caderno, é porque alguma coisa está errada na sua vida. No exterior não me afetou, sou respeitado, mas aqui foram anos para voltar a me respeitarem ao menos como artista.
"Bach for Christmas" e "Bach-Chopin" (com Arthur Moreira Lima)
Artista: João Carlos Martins
Lançamentos: Tratore
"João Carlos Martins Interpreta Haydn e Mozart"
Lançamento: Atração
Quanto: R$ 27, em média, cada CD

