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11/12/2002 - 02h00

Sarau transforma boteco da periferia de SP em centro cultural

MARCELO RUBENS PAIVA
da Folha de S. Paulo

"O boteco é o centro cultural da periferia", diz o poeta Sérgio Vaz. A bússola aponta para a zona sul.

E é num deles, O Garajão, no Jardim Maria Rosa, que nas noites de quarta juntam-se poetas experientes, iniciantes e uma média de cem pessoas de várias quebradas.

O público senta em torno de mesas regadas à cerveja, para ouvir o grito semântico da perifa: poemas de denúncia social, exaltação à consciência negra e, claro, amor. Mano Brown, dos Racionais, é presença constante. Afro-X e Simony já apareceram por lá.

Organizados por Vaz, da Cooperifa (Cooperativa dos Artistas da Periferia), os saraus atraem expoentes da antiga comunidade e novos poetas, como os adolescentes Kênia e Pelezinho.

Os dois pequenos trutas apareceram como ouvintes, descobriram um dom, e, semanalmente, lêem um novo trabalho, escrito à mão em folhas de caderno. Ambos são tímidos, mas não relutam ao ser chamados para declamar.

"Invadimos o galpão de uma fábrica, mas tomaram ele da gente, e começamos a fazer saraus num boteco lá em cima. Até fizemos uma peça, os caras bebendo cachaça, e a peça rolando", diz Vaz.

"Os artistas da periferia sabem: ou você cava o espaço ou fica sem nada. Já fui em saraus em outras quebradas e saquei que precisávamos fazer o mesmo", explica.

A balada dura até meia-noite. Como os saraus têm atraído muita gente, os organizadores levam poemas de poetas consagrados, de Maiakovsky a Leminsky, para os que aparecem de mãos vazias.

"Isto aqui está virando um aparelho cultural, cada um fala de seu trabalho. Virou um foco de resistência dentro da periferia. Não adianta agitar sexta e sábado e, na segunda, voltar a ser medíocre. Temos que atacar", diz Vaz.

"Aqui, o silêncio é uma prece. No primeiro dia, foi um choque, acharam que era pagodão, mas viram o silêncio. Hoje, há uma repercussão dentro da cidade", diz Bodão, um dos sócios do bar.

Não se trata de mais um braço do movimento hip hop, que faz parte tanto quanto o samba.

"Não queremos o rótulo do hip hop. Isto aqui é uma confraria de artistas. Teve dia em que a entrada era um livro usado. Aqui, somos todos independentes. O boteco dá combustível para a criação", conta Vaz, autor de "Pensamentos Vadios" e criador de uma biblioteca comunitária.

Ao ler um dos manuscritos de Pelezinho, estranho a frase: "Quando um VL aperta o gatilho, o Lúcifer te conduz". Perguntei ao pequeno poeta o que significa "VL". Ele me olha como se eu tivesse perguntado a um playboy o que é açaí. "VL é vida louca", respondeu. E o que é vida louca? Ele não respondeu.

"Tem gente que escreve em casa, para desabafar as mágoas. Viu o espaço aberto, pediu licença, declamou um poema, e, na semana seguinte, foi convocado para vir. Estamos resgatando-os para outro caminho", explica o poeta e artista plástico Binho, que tem um bar em Campo Limpo.

Binho faz intervenções em postes pela cidade, o que chama de "Postesia". São placas com pequenos poemas, como: "O tiro é no nariz, mas é no peito que dói". "Minha idéia era fazer poesia em postes, reciclando material de campanha política. Depois, passei a pintar e colocar nos postes, com tinta doada. Não sei ainda o que é meu trabalho. Vêm idéias na cabeça, a gente põe."

A prefeitura é o principal obstáculo. Ele as coloca à noite, e ela as recolhe de dia. "A revolução tem que começar praticando, exercitando, sem muita conversa", diz.

Ele que abriu o sarau na última quarta, declamando: "No lugar em que nasci, brincava que era tudo nosso, tinham o campinho e os terrenos baldios, era o nosso território. Já foi interior, hoje, periferia, com as casas cruas. A cerca virou muro, óbvio. A cidade cresce, o muro cresce. Vieram os prédios, as delegacias. Hoje, pago imposto dos impostores. Também cresci, fiquei grande, não caibo dentro de mim. E tão solitário, sou meu próprio vizinho".

Elmantos, 37, faz performances, como "Os Milionários Malditos, Fome e os Pobres Mendigos".

"Nasci na Bahia, na Fazenda Cabaceiras, onde nasceu Castro Alves. Tenho trabalho inspirado na cultura afro, na fome, miséria, pobreza. Meus trabalhos são mais ligados à arte social", explica.

"É na periferia que existem os melhores artistas. Não é porque somos pobres, humildes, largados e jogados que somos miseráveis. Aqui tem arte, lazer", conta.

Pezão é fotógrafo do jornal local, "O Independente". Ele cobre futebol de várzea. É poeta há muitos anos, com muita coisa guardada. Não tem livro publicado.

"Gosto de ler outros artistas, como Castro Alves. Não necessariamente tem a ver com os dramas da periferia. Nesta noite, vou ler Solano Trindade, poeta pernambucano que veio morar aqui, em Embu, na década de 60", diz.

Em seguida, ele sobe e declama "Bolinha de Gude", de Trindade. Escrito há mais de três décadas, o poema fala de moleques que viram assaltantes. Hoje, poderiam estar declamando.

SARAU DA COOPERIFA
Onde: O Garajão (estrada de São Francisco, 787, Taboão da Serra, tel. 0/ XX/11/4788-0705) Quando: toda quarta, 20h
Quanto: grátis
 

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