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Ilustrada
26/01/2003 - 19h51

Cineasta quer leis para espaço audiovisual na América Latina

da Folha Online

O cinema do Hemisfério Norte, personalizado na produção cinematográfica de Hollywood, ocupa quase 90% das telas em todo o mundo. O dado, apresentado pelo cineasta argentino Fernando Solanas, em palestra no 3° Fórum Social Mundial, resulta em padronização das imagens recebidas pelos povos e na aculturação desses povos que, por conseqüência, não se vêem nas telas de cinema.

O fenômeno se constitui em autoritarismo destrutivo do que é mais genuíno e belo para os povos de todo o mundo, que é a preservação de suas memórias, de seus gestos, de sua maneira de ver o mundo.

"Por isso, digo que vivemos duas formas de guerra no mundo, uma que sofremos no dia-a-dia é o genocídio de ajustes de mercados neoliberais que produz milhares de mortes silenciosas. Esse genocídio foi precedido por outro tipo de guerra, a homogeneização das comunicações e das imagens", disse.

Solanas é um dos ícones do cinema latino-americano. Ele foi diversas vezes premiado pelo filme "Tangos - o exílio de Gardel" e é presença certa em todos os festivais de cinema que se realizam no Brasil.

É a segunda vez que o cineasta participa do 3° Fórum Social Mundial. Nessa edição, Solanas defendeu a urgente aprovação de leis que regulamentem o espaço audiovisual em toda América Latina.

"O espaço audiovisual não têm que ser propriedade de concessionários privados. Temos que garantir que haja pluralidade de conteúdo nos grandes meios de comunicação e que os espaços cinematográficos tenham espaço para divulgar seu produto", afirmou.

É inaceitável, disse Solanas, exemplificando o Brasil, que o cinema nacional de cada país latino-americano, não tenham seus filmes exibidos em todas as telas de televisão. "A arte é uma lenta construção de identidade cultural e estética. Homogeneizar as linguagens, impondo um só tipo de cinema, significa pasteurizar o talento e a inteligência humana", disse.

Os países latino-americanos, assim como outros também em desenvolvimento, são expulsos de sua própria casa. "Infelizmente, estamos perdendo o direito de divulgar aquilo que é o espelho de nós mesmos, nossas imagens".

Mais uma vez, referindo-se à hegemonia norte-americana nesse campo, Solanas condenou a concentração na mão de poucos a propriedade de grupos midiáticos e defendeu a democratização dos meios de comunicação de massa. Ele criticou a imposição da cultura norte-americana, afirmando que não é maior que nenhuma outra.

"Nenhuma civilização, nação ou cultura é tão importante em comparação com a riqueza e a universalidade de todas as outras culturas do mundo. E nenhuma cultura, nenhuma civilização pode justificar, com argumentos democráticos, o fato de ocupar a quase totalidade dos espaços de comunicação mundiais".

  • Com Agência Brasil

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