"Não por Acaso" traz Rodrigo Santoro em filme bem construído
RICARDO CALIL
do Guia da Folha
Poucos cineastas brasileiros estrearam em longa-metragem tão prontos quanto Philippe Barcinski. Diretor de premiados curtas como "A Escada" (1996) e "Palíndromo" (2001), ele exibe pleno domínio da narrativa e da gramática do cinema em "Não por Acaso".
O filme se alterna entre duas histórias com um ponto de intersecção: um acidente de automóvel em que morrem duas personagens. Uma delas é a ex-mulher de Ênio (Leonardo Medeiros), um engenheiro de trânsito que controla o fluxo de carros em São Paulo. A outra é a namorada de Pedro (Rodrigo Santoro), marceneiro que constrói mesas de sinuca.
| Marcos Camargo/Divulgação |
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| Ator Rodrigo Santoro durante cena do filme "Não por Acaso", de Philippe Barcinski |
O acidente leva os dois protagonistas masculinos primeiro ao luto, depois a novas relações. Ênio é procurado pela filha adolescente que não conhecia (Rita Batata) e se vê obrigado a abrir seu preservado mundo. Pedro visita o antigo apartamento de Teresa e se apaixona pela inquilina Lúcia (Letícia Sabatella). Inconscientemente, reproduz com ela os rituais que tinha com a ex-namorada.
Como Barcinski já definiu, "Não por Acaso" é uma obra sobre o controle (e os limites dele). Em seus trabalhos ou relações, Ênio e Pedro acreditam que podem dominar todos os passos de sua vida -até que o acidente imprevisto prova o contrário. O longa é sobre esse embate entre a vontade e o acaso na determinação de um destino. Barcinski estréia não apenas com um filme muito bem construído mas também com algo a dizer.
Se há um senão no filme, é justamente o fato de ser controlado demais --o que lhe confere uma certa frieza, um distanciamento em relação ao universo que retrata. Diferentemente de seus protagonistas, Barcinski não aceita abrir espaço para o acaso. Mas esse detalhe não impede sua entrada para um seleto grupo de jovens realizadores que pode construir um futuro mais relevante para o cinema brasileiro.


