Ilustrada
11/06/2007 - 02h01

Comentário: Em festa, verdadeiros "donos" da cidade celebram Parada Gay

FABIO RIGOBELO
da Folha Online

O trajeto é em forma de "L". Do início, nas proximidades do prédio da Gazeta, na av. Paulista, descendo a rua da Consolação e chegando até a praça Roosevelt, já no centro de São Paulo, este "L" foi percorrido por mais de 3 milhões de pessoas (segundo estimativa da organização), quase fazendo parecerem pequenas as duas grandes vias que recebem o evento, o maior do ano em São Paulo.

É estimulante poder ver andando, dançando e "marchando" lado a lado os mais variados tipos de paulistanos (e brasileiros): rapazes (muitos rapazes), famílias com crianças, "tias" e "tios", travestis, drag queens, "coroas" bombados, vovôs e vovós, cachorros, policiais, mendigos. Gente de bairros distantes da cidade, a mesma gente que aproveita os outros domingos de sol pra passear no Ibirapuera, pra assistir aos jogos no Morumbi, pra assistir o show do RBD e da Ivete, em suma: é estimulante a real democracia vivenciada num evento como a Parada Gay de São Paulo.

Daia Oliver/Folha Online
Público da Parada Gay se desloca pela rua da Consolação, no centro de São Paulo
Público da Parada Gay se desloca pela rua da Consolação, no centro de São Paulo

Uma máquina fotográfica é item imprescindível: para mim, que não levei, continua passando na memória a imagem da drag-Ana Maria Braga, alta, super produzida, com uma peruca tão ou mais real que o cabelo tricolor da apresentadora e um simpático Louro José de isopor grudado no ombro. Ou então aquela(e) Branca de Neve, super receptiva, engraçada porque um tanto "trash", com barriga proeminente, saia nas canelas e peruca de cabelos escuros, escorridos, repartidos ao meio.

Ao aceitar posar para uma foto (tirada com o telefone celular), perguntou: "Alguém viu meus anões por aí?". Branca estava acompanhada apenas de uma jovem loira, definida como sua "empregada". Ah, e tinha ainda aquela dupla de "senhorinhas", drags "irmãs", super montadas, com fruteiras de lantejoulas na cabeça e vestidos e luvas pretas, com unhas postiças rosa-shocking por cima. Arrasaram. (Confira galeria de fotos da Parada)

E, mesmo em meio a (segundo os organizadores) 3,5 milhões de pessoas, era possível encontrar, aqui e ali, amigos e conhecidos. Descer a Consolação num fim de tarde de sol, aos sons dos trios que se misturavam --"drag music" com axé, canções da Xuxa com house progressivo, tinha de tudo-- é curioso (e emocionante). O lema da Parada neste ano foi "Por um mundo sem racismo, machismo e homofobia". Nos outros dias do ano eu não sei, mas ontem, pelo menos nas imediações da Paulista, Consolação e República, chegando até o Arouche, deu pra imaginar o planeta assim. E o balanço foi positivo.

Na volta pra casa, fazendo o caminho reverso até a Paulista, o lado ruim: lixo, muito lixo. Milhões de pessoas produzem muito lixo, e São Paulo já não anda tão limpa nos últimos tempos. Os banheiros químicos não eram suficientes: qualquer pedacinho de muro acabou virando banheiro, então. E um monte de "participantes" caindo pelas tabelas, calçadas, sarjetas. Culpa do vinho barato em garrafa de plástico, imagino. E só.

Daia Oliver/Folha Online
Masp lota durante a passada da Parada Gay pela cidade de São Paulo; confira mais fotos
Masp lota durante a passada da Parada Gay pela cidade de São Paulo; confira mais fotos

Não sei como vai ser caso o público continue aumentando nas próximas edições, mas para a Prefeitura da cidade o evento é extremamente interessante, financeiramente. Uma Parada Gay na 23 de maio? Já ouvi essa idéia por aí. Não sei se funcionaria, mas idéias há.

Enfim. A Parada Gay é para todos, comme il faut. A militância pode não ser tão forte, apesar do lema (no sábado, uma caminhada de lésbicas, mais "engajada", na mesma Paulista, reuniu menos da metade do esperado), mas... o Brasil não é o país do Carnaval? A Parada, este "outro Carnaval", confirma a sina para a mistura e o encontro. Algumas vezes por ano, ao menos.

(Para se ter uma idéia, a Parada Gay é o evento que, "disparado", traz mais turistas à cidade [quase 300 mil; ganha, de longe, dos desfiles de carnaval e da corrida de Interlagos]).

Em uma cidade tão grande como São Paulo é de se esperar eventos com esse tanto de gente. A cidade é para todos. O espelho reflete o que "vê": o número de homossexuais "assumidos" é, sim, cada vez maior. E o número de heterossexuais que participam da Parada também. Aproveitemos a festa, então.

 

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