Comentário: Em festa, verdadeiros "donos" da cidade celebram Parada Gay
FABIO RIGOBELO
da Folha Online
O trajeto é em forma de "L". Do início, nas proximidades do prédio da Gazeta, na av. Paulista, descendo a rua da Consolação e chegando até a praça Roosevelt, já no centro de São Paulo, este "L" foi percorrido por mais de 3 milhões de pessoas (segundo estimativa da organização), quase fazendo parecerem pequenas as duas grandes vias que recebem o evento, o maior do ano em São Paulo.
É estimulante poder ver andando, dançando e "marchando" lado a lado os mais variados tipos de paulistanos (e brasileiros): rapazes (muitos rapazes), famílias com crianças, "tias" e "tios", travestis, drag queens, "coroas" bombados, vovôs e vovós, cachorros, policiais, mendigos. Gente de bairros distantes da cidade, a mesma gente que aproveita os outros domingos de sol pra passear no Ibirapuera, pra assistir aos jogos no Morumbi, pra assistir o show do RBD e da Ivete, em suma: é estimulante a real democracia vivenciada num evento como a Parada Gay de São Paulo.
| Daia Oliver/Folha Online |
|
| Público da Parada Gay se desloca pela rua da Consolação, no centro de São Paulo |
Uma máquina fotográfica é item imprescindível: para mim, que não levei, continua passando na memória a imagem da drag-Ana Maria Braga, alta, super produzida, com uma peruca tão ou mais real que o cabelo tricolor da apresentadora e um simpático Louro José de isopor grudado no ombro. Ou então aquela(e) Branca de Neve, super receptiva, engraçada porque um tanto "trash", com barriga proeminente, saia nas canelas e peruca de cabelos escuros, escorridos, repartidos ao meio.
Ao aceitar posar para uma foto (tirada com o telefone celular), perguntou: "Alguém viu meus anões por aí?". Branca estava acompanhada apenas de uma jovem loira, definida como sua "empregada". Ah, e tinha ainda aquela dupla de "senhorinhas", drags "irmãs", super montadas, com fruteiras de lantejoulas na cabeça e vestidos e luvas pretas, com unhas postiças rosa-shocking por cima. Arrasaram. (Confira galeria de fotos da Parada)
E, mesmo em meio a (segundo os organizadores) 3,5 milhões de pessoas, era possível encontrar, aqui e ali, amigos e conhecidos. Descer a Consolação num fim de tarde de sol, aos sons dos trios que se misturavam --"drag music" com axé, canções da Xuxa com house progressivo, tinha de tudo-- é curioso (e emocionante). O lema da Parada neste ano foi "Por um mundo sem racismo, machismo e homofobia". Nos outros dias do ano eu não sei, mas ontem, pelo menos nas imediações da Paulista, Consolação e República, chegando até o Arouche, deu pra imaginar o planeta assim. E o balanço foi positivo.
Na volta pra casa, fazendo o caminho reverso até a Paulista, o lado ruim: lixo, muito lixo. Milhões de pessoas produzem muito lixo, e São Paulo já não anda tão limpa nos últimos tempos. Os banheiros químicos não eram suficientes: qualquer pedacinho de muro acabou virando banheiro, então. E um monte de "participantes" caindo pelas tabelas, calçadas, sarjetas. Culpa do vinho barato em garrafa de plástico, imagino. E só.
| Daia Oliver/Folha Online |
|
| Masp lota durante a passada da Parada Gay pela cidade de São Paulo; confira mais fotos |
Não sei como vai ser caso o público continue aumentando nas próximas edições, mas para a Prefeitura da cidade o evento é extremamente interessante, financeiramente. Uma Parada Gay na 23 de maio? Já ouvi essa idéia por aí. Não sei se funcionaria, mas idéias há.
Enfim. A Parada Gay é para todos, comme il faut. A militância pode não ser tão forte, apesar do lema (no sábado, uma caminhada de lésbicas, mais "engajada", na mesma Paulista, reuniu menos da metade do esperado), mas... o Brasil não é o país do Carnaval? A Parada, este "outro Carnaval", confirma a sina para a mistura e o encontro. Algumas vezes por ano, ao menos.
(Para se ter uma idéia, a Parada Gay é o evento que, "disparado", traz mais turistas à cidade [quase 300 mil; ganha, de longe, dos desfiles de carnaval e da corrida de Interlagos]).
Em uma cidade tão grande como São Paulo é de se esperar eventos com esse tanto de gente. A cidade é para todos. O espelho reflete o que "vê": o número de homossexuais "assumidos" é, sim, cada vez maior. E o número de heterossexuais que participam da Parada também. Aproveitemos a festa, então.
Leia mais
- Blog do Duilio: Ressaca pós-Parada Gay
- Recorde vai para o "Guiness", dizem organizadores
- Parada Gay bate recorde, dizem organizadores
- Drags de pele negra reclamam de racismo; leia destaques GLS
- Pela primeira vez, reforma agrária reconhece casal lésbico como "família"
- Guia ensina turista gay a usar 8 idiomas
Especial



