"Quarteto Fantástico" retorna em mais uma sessão da tarde
FAUSTO SALVADORI FILHO
da Folha Online
A família disfuncional e super-poderosa do Quarteto Fantástico volta para salvar o dia no segundo filme da série, tão divertido e raso quanto o primeiro.
"Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado", que estréia em cerca de 300 salas de cinema no Brasil em 29 de junho, é uma aventura despretensiosa, que segue a prescrição correta de humor, ação e efeitos especiais.
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Quem nunca leu os gibis vai ver o filme como quem assiste a uma boa sessão da tarde, sem conseguir entender como alguém é capaz de levar uma história destas tão a sério.
Os fãs dos quadrinhos, como sempre, vão observar a segunda aventura do Quarteto com o rigor dos peritos de "C.S.I", caçando referências e esquadrinhando contradições, para se lançarem em longas discussões sobre a fonte de poder do Surfista, a natureza de Galactus ou a capacidade elástica do órgão sexual do Senhor Fantástico.
Não que os filmes do Quarteto merecem tanta atenção. Querem mesmo ser diversão rasa e escapista, sem nada do tom sombrio ou do experimentalismo das adaptações mais recentes de gibis.
Incríveis
Lançado em 2005, o primeiro "Quarteto Fantástico" contava a origem dos personagens Senhor Fantástico (Ioan Gruffudd), Mulher Invisível (Jessica Alba, de "Sin City"), Tocha Humana (Chris Evans) e Coisa (Michael Chiklis, da série "The Shield"), transformados em super-heróis após uma experiência científica com raios cósmicas, que também deu origem ao arquiinimigo do grupo, o vilão deformado Doutor Destino (Julian Mcmahon, da série "Nip/Tuck").
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| O Tocha Humana e o Coisa trocam de poderes; confira galeria de fotos do segundo filme |
Na época, "Quarteto Fantástico" teve de enfrentar o peso da comparação desfavorável com "Os Incríveis", animação da Pixar que também contava a história de uma família superpoderosa.
Lançado antes, "Os Incríveis" aproveitava claramente muitas idéias dos quadrinhos do Quarteto Fantástico, mas sabia melhor como aproveitá-las, ao colocar em cena personagens muito mais elaboradas, enfrentando conflitos mais intensos e realistas do que o conteúdo infantilóide do filme de Story.
Enredo
Em "Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado", os quatro heróis tornaram-se celebridades globais, que lutam para conciliar a vida pessoal com a invasão dos "paparazzi" e o duro trabalho de salvar o mundo de ameaças terríveis.
A novidade é a presença do Surfista Prateado, um ser voador misterioso que prepara a vinda de Galactus, o Devorador de Mundos, o qual ameaça fazer do planeta Terra a sua próxima refeição. A versão cinematográfica de Galactus passa longe do gigante roxo com chifres dos quadrinhos: o Galactus das telas é uma força da natureza, uma nuvem do tamanho de vários planetas.
Doutor Destino está de volta, agora como um aliado do Quarteto contra o Surfista.
Outro novidade da seqüência é a capacidade adquirida pelo Tocha Humana de trocar de poderes com seus colegas, o que rende algumas das melhores gags visuais do filme.
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| O Surfista Prateado foi gerado por computação gráfica; confira galeria de imagens |
Dirigido pelo mesmo Tim Story, a nova história do Quarteto tem um roteiro previsível, mas traz seqüências de ação empolgantes, a obrigatória cena de nudez sugerida de Jessica Alba (que não é uma mãezona, como a Mulher Invisível dos quadrinhos, mas uma gostosa) e boas piadas.
Uma das melhores seqüências de humor ocorre quando o próprio Stan Lee é barrado na entrada do casamento do Senhor Fantástico e da Mulher Invisível (recriação de uma cena famosa do gibi, em que Lee e o hoje falecido Kirby eram expulsos da mesma cerimônia).
Tortura
Lançado em 1961, o Quarteto Fantástico foi a primeira criação de destaque do escritor Stan Lee e do artista Jack Kirby --dupla responsável pela criação dos principais heróis da Marvel, incluindo Homem-Aranha, X-Men, Hulk e Demolidor.
O Surfista Prateado apareceu nas páginas da revista "Fantastic Four" cinco anos depois. Inicialmente um vilão, o personagem cósmico se volta contra seu criador para defender a Terra e por isso é condenado a viver contra sua vontade no planeta.
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| Tocha Humana, Senhor Fantástico, Mulher Invisível e Coisa em ação; veja galeria |
A partir daí, o Surfista ganhou revista própria e se torna um personagem com pretensões filosóficos, espécie de Bono Vox do espaço, capaz de gastar páginas e páginas fazendo longos monólogos condenando a injustiça e lamentando a miserável condição humana.
Em relação aos quadrinhos, o Surfista Prateado do filme leva uma grande vantagem: o personagem tem pouquíssimas falas. Laurence Fishburne ("Matrix") empresta sua voz paa o personagem, que foi criado em computação gráfica, usando como modelo o ator Doug Jones (o bizarro Abe Sapien de "Hellboy").
O Surfista provavelmente teria ainda mais motivos para reclamar da humanidade hoje do que no período em que foi criado, há 40 anos. Afinal, é inquietante ver que mesmo uma diversão tão ligeira como o novo "Quarteto" não se incomode em mostrar o Exército americano torturando um prisioneiro como uma fato rotineiro -- ainda que seja um prisioneiro alienígena.
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