Comentário: Ellen DeGeneres saiu do armário e abafou as carolas
LIGIA BRASLAUSKAS
Editora da Folha Online
Quem assistiu domingo (24) ao documentário transmitindo pela GNT que tratava da opção da humorista americana Ellen DeGeneres de declarar sua homossexualidade no programa em que era protagonista ("Ellen"), produzido pela Disney, viu como o tema ainda é polêmico, mesmo num país em que a Constituição tutela em sua primeira emenda a liberdade de expressão.
O arranha-céu espinhoso que Ellen e a equipe de seu programa tiveram de escalar para tornar público algo que todo mundo [ao menos todos os gays que assistiam à série] já sabia é muito comum. Quantos gays atualmente ocupam cargos bem-sucedidos e vão a festas de empresas com seus verdadeiros parceiros? Acho que são poucos. Que pena, pois o fato de apresentar um companheiro "fake" não põe fim à curiosidade alheia --às vezes até aumenta.
Segundo o documentário, que explica não ter o outro lado porque a Disney não quis se pronunciar sobre o ocorrido, foram meses de negociações secretas até que o capítulo em que Ellen diz "I'm gay" ("Eu sou gay") fosse ao ar. "I'm gay" caiu feito uma bomba e o programa "Ellen" foi extirpado.
Lamentável a decisão da Disney de encerrar um produto que rendia audiência porque parcelas radicais da sociedade americana ameaçaram boicotar a empresa para não ouvir o que Ellen queria e, segundo ela própria, precisava dizer. Talvez seja mais suave para esta parcela escutar na TV o som de outras bombas, como as que explodem no Iraque.
O documentário "Como Ellen DeGeneres Saiu do Armário" traz também à tona questão muito comum nos livros de auto-ajuda, que vendem milhões de exemplares no mundo todo. A maioria deles enaltece a importância de colocarmos a nós mesmos em primeiro lugar em nossas vidas. Pois é, segundo o documentário, foi isso o que Ellen fez. Era importante para ela dizer a verdade às pessoas --coisa, inclusive, que aprendemos desde criança, afinal mentir é feio.
Então quer dizer que Ellen fez o que a boa educação manda e se deu mal? Depende do ponto de vista. Ao analisar o programa pelo lado da protagonista, Ellen foi o verdadeiro "mocinho" do documentário --disse a verdade, agiu corretamente e sofreu, mas foi reconhecida e ganhou sua história filmada para a TV. Analisando pelo lado da platéia, Ellen perde. Deixou de fazer um programa divertido e engraçado e tirou a dúvida da cabeça das carolas. De quem elas vão falar agora?

