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Ilustrada
12/07/2007 - 12h17

Capitão América lidera rebelião de super-heróis contra governo dos EUA

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FAUSTO SALVADORI FILHO
da Folha Online

Super-herói que honra suas cuecas por cima da calça não fala "oi" quando encontra um colega: vai logo dando porrada. Quebra-paus entre super-heróis são tão tradicionais no gênero quanto os colantes coloridos. Mas "Guerra Civil", saga da Marvel Comics que acaba de chegar às bancas brasileiras, inovou.

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Capa do jornal fictício "Clarim Diário" mancheta a guerra
Capa do jornal fictício "Clarim Diário" mancheta a guerra entre heróis

A história usa um embate político para deflagrar a guerra aberta entre todos os super-heróis da editora. O pano de fundo é o atual debate norte-americano (e mundial) entre os defensores da linha dura no combate ao terrorismo e os defensores dos respeito às liberdades individuais. "Você abriria mão de seus direitos civis em nome da segurança pública?", pergunta o gibi.

"Guerra Civil" é uma minissérie em sete números (Panini, 44 páginas, R$ 4,90 cada), mas a história vai além, envolvendo todos os títulos Marvel ao longo dos próximos sete meses. O estopim do conflito é uma lei aprovada pelo Congresso que obriga todos os super-seres a se registrarem como funcionários do governo.

A nova legislação racha ao meio a comunidade de super-heróis. Uma força-tarefa do governo, comandada pelo Homem de Ferro, reúne os heróis favoráveis à lei de registro. Do outro lado, forma-se um núcleo de heróis dispostos a combater a Casa Branca.

Surpresa: os rebeldes são liderados pelo Capitão América. Símbolo vivo do patriotismo norte-americano, o Capitão resolve mudar de lado por achar que a nova lei é um atentado contra as liberdades civis na América.

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Capitão América seqüestra avião do governo em uma cena de "Guerra Civil"
Capitão América seqüestra avião em uma cena de "Guerra Civil"

11 de Setembro

É fácil reconhecer na guerra civil dos super-heróis reflexos da guerra ideológica que divide os EUA desde o atentado de 11 de setembro de 2001. O estopim para a lei de registro é uma tragédia nas mesmas proporções.

Durante a gravação de um reality show, um grupo de super-heróis juvenis provoca sem querer uma explosão que deixa mais de 900 mortos. A tragédia desperta um clamor popular contra os super-heróis que força o governo a aprovar a nova lei.

A política sempre marcou presença nos gibis de super-heróis, desde o tempo em que Capitão América, Batman e Super-Homem combatiam os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A novidade de "Guerra Civil"? A recusa em trabalhar com bons e maus.

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Mãe de uma criança morta por super-heróis cospe no rosto do Homem de Ferro
Mãe de uma criança morta por super-heróis cospe no rosto do Homem de Ferro

Na história, tanto os heróis rebeldes como os defensores da ordem têm sólidas razões por trás de suas opções. São personagens fortes, com motivações reais. Tanto que a "Guerra Civil" dividiu também os leitores: muitos ficaram ao lado dos rebeldes do Capitão América, mas uma boa parte também apoiou o Homem de Ferro.

Os supervilões têm uma participação discreta na trama. Fica claro que os principais inimigos dos heróis são os próprios heróis. E como em qualquer guerra, nenhum dos dois lados -- governistas ou rebeldes -- vai chegar ao final da história livre de pecados.

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Capa do primeiro número da minissérie em sete partes "Guerra Civil", da Panini
Capa do primeiro número da minissérie "Guerra Civil", da Panini

Lançada nos EUA em 2006, "Guerra Civil" é mais uma molecagem do autor escocês Mark Millar, que adora usar política nos quadrinhos. Logo após os atentados às torres gêmeas, em 2001, quando falar mal do governo tornou-se quase um pecado, a editora DC Comics censurou uma edição inteira da revista "The Authority" em que Millar fazia referências pouco elogiosas ao presidente George W. Bush -- o título acabou cancelado no mesmo ano.

A arte tem o traço competente de Steve McNiven e um belo trabalho de colorização feito por Morry Hollowell.

Conseqüências

Atenção: o texto a seguir trata de histórias ainda inéditas no Brasil e podem irritar os leitores que gostam de surpresas.

"Guerra Civil" foi pensado para ser um divisor de águas na Marvel Comics. Depois da saga, os heróis do universo Marvel dividiram-se em dois grupos. A maioria são os heróis oficiais, subordinados ao governo, e os demais são renegados, como Homem-Aranha e Wolverine, que preferem agir por conta própria e são caçados como fora-da-lei.

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Capa alternativa do primeiro número da minissérie "Guerra Civil"
Capa alternativa do primeiro número da minissérie "Guerra Civil"

Dois personagens em especial foram os mais afetados por "Guerra Civil". Logo após o conflito, o Capitão América foi morto a tiros, num crime ainda não esclarecido. Claro que a morte de um herói como o Capitão tem tudo para ser um golpe de marketing e ele deve ser ressuscitado em breve, como é praxe nos gibis.

Outro que passa por grandes reviravoltas é o Homem-Aranha. Inicialmente favorável à lei de registro, o aracnídeo chegou a expor publicamente sua identidade como Peter Parker numa coletiva de imprensa, no segundo número da minissérie.

Mais tarde, desiludido com o governo, Parker uniu-se aos fora-da-lei e passou a usar uma versão do seu antigo uniforme negro para marcar a mudança -- e para aproveitar o embalo do filme "Homem Aranha 3". Mas o estrago já estava feito. Com a identidade do herói revelada, a família de Parker tornou-se um alvo ambulante para seus inimigos: a vítima mais recente foi sua querida tia May. Nada mal para um herói campeão nos quesitos perdas e tragédias.

 

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