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Ilustrada
29/08/2007 - 13h35

"Caminhos do Coração" estréia bem e tenta emplacar como enlatado nacional

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FAUSTO SALVADORI FILHO
da Folha Online

Uma clínica de mutantes superpoderosos no Guarujá, um menino com pentelhos precoces e dentes de vampiro, Preta Gil de vilã e Leonardo Vieira tentando ressuscitar a carreira de galã numa imitação de Tom Cruise.

A novela "Caminhos do Coração" reunia todos os ingredientes para se tornar uma constrangedora peça de vergonha alheia, mas o capítulo de estréia, exibido ontem pela Record, surpreendeu quem esperava o pior.

O público respondeu bem, rendendo 17 pontos de média (cada ponto equivale a 54 mil domicílios, ou 176 mil pessoas, na Grande São Paulo), com pico de 19 -- o melhor desempenho na estréia de uma novela na emissora, embalada ainda pelo sucesso de "Vidas Opostas".

Daslu e "Missão Impossível"

Divulgação
Leonardo Vieira interpreta Marcelo na novela "Caminhos do Coração", da Record
Leonardo Vieira interpreta Marcelo na novela "Caminhos do Coração", da Record

O capítulo de estréia abre com uma seqüência que mistura "Missão Impossível" e a operação da Polícia Federal na Daslu. Tem Leonardo Vieira de malha preta pendurado a um helicóptero, explosões de carro, armas que disparam dardos tranqüilizantes e um rico sendo preso num prédio da marginal Pinheiros pela Polícia Federal.

Não faltam nem os diálogos repleto dos chavões dos filmes dublados. "Você vai pagar caro por isso", diz o vilão ao ser preso.

A partir daí, a trama mostra as crianças nascidas na clínica Progênese, do Guarujá, dirigida por uma cientista louca que curte manipular geneticamente embriões nas horas vagas.

Inspiração enlatada

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Cássio Ramos é Vavá, o "menino lobo", na nova trama da Record
Cássio Ramos é Vavá, o "menino lobo", na nova trama da Record

Seguindo a estética das histórias de super-heróis realistas --de filmes como "X-Men" e seriados como "Smallville" e "Heroes"--, os mutantes não usam uniformes coloridos e muitos sofrem com o preconceito por serem diferentes.

O menino-lobo, peludo e dentuço, é perseguido na família como "filho do coisa-ruim" e a menina com asas de anjo é obrigada a escondê-las e cortá-las regularmente, além de ser chamada de "corcunda" pelos colegas de escola.

A novela não busca nem de longe parecer original. Os poderes dos mutantes (asas, telepatia, supervisão, mover objetos com a mente) são idênticos aos de dezenas de outros personagens do cinema e dos quadrinhos. O fio condutor da trama, que deve girar em torno de um matador de super-heróis, é a mesma do gibi "Watchmen" (escrito por Alan Moore em 1986) e da animação "Os Incríveis" (dirigido por Brad Bird em 2004), para não falar (outra vez) de "Heroes".

Fórmula

No campo das novelas, contudo, "Caminhos do Coração" tenta um caminho ousado, ao deixar em segundo plano a cartilha do folhetim, velha de 200 anos, para adotar as fórmulas da ficção científica e dos quadrinhos.

Pelo que se viu do primeiro capítulo, a novela consegue fazer isso sem parecer ridícula, o que é uma conquista. Os efeitos especiais convencem e --o mais importante-- as situações dramatúrgicas, também. No Brasil, as tentativas neste sentido costumam descambar em paródias intencionais ou comédias involuntárias, como o seriado "Aventuras de Tiazinha" ou as novelas de Antonio Calmon e Glória Perez.

Se mantiver o ritmo, "Caminhos" pode conquistar aquela fatia de público que despreza as telenovelas e prefere os enlatados americanos. Gente que não acompanhava uma novela desde "Que Rei Sou Eu" e que tentou ver o primeiro capítulo de "Bang Bang", mas desistiu depois de ver as anáguas de Kadu Moliterno.

 

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