Christian Pior, do "Pânico", critica burguesia "blasé"; veja entrevista
DÉBORA BERGAMASCO
da Folha Online
Há quatro meses no programa "Pânico", na RedeTV!, o personagem Christian Pior ridiculariza os pobres com bordões do tipo: "você que é pobre e não sabe o que é um vestido Valentino, joga no Google, bem". Evandro Santo, 32, criador do personagem, tem mais reclamações contra os ricos. Ele diz que a classe alta é cheia de gente "blasé" e afirma não pertencer ao "universo de gente rica".
| Fábio Motta/Divulgação |
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| Evandro Santo vive Christian Pior no programa "Pânico" na RedeTV! |
Criado em Uberaba, Minas Gerais, Evandro, 32, foi sozinho para São Paulo aos 15 anos. Após trabalhar anos como animador de festa de "granfino", Evandro aprendeu como desprezar pobres para compor seu personagem da TV.
Ele conversou com a Folha Online sobre elite, o rompimento com a família e homossexualidade. Confira trechos da entrevista.
Folha Online - O seu personagem diz muitas coisas que só quem já foi pobre poderia saber. Você já foi pobre?
Evandro Santo - Sou pobre. Por isso eu consigo essa ironia. Tem gente que me acha arrogante, preconceituoso. Mas o Christian Pior sabe muito mais coisa de pobre do que de rico. Tudo o que é de rico para ele é superlativo. A pobreza está impregnada nele.
Folha Online - Como você usou suas raízes para compor o personagem?
Evandro - Eu vim de uma família muito simples. Minha mãe é cabeleireira, manicure e agora sei lá o que está fazendo. Meu pai eu nunca vi na vida. Comecei a trabalhar muito cedo, ajudava em casa, pagava água, luz, gás. Já em São Paulo, quando fui trabalhar em festa de gente rica, eu aprendi muito. Você absorve coisas desse universo.
| Fábio Motta/Divulgação |
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| Pior é a estrela do quadro "Meda", a versão feminina de "Pânico" |
Folha Online - Como você era tratado nas festas chiques antes de aparecer na televisão?
Santo - Eu era bem tratado porque sempre soube me colocar no meu lugar. Por mais que a anfitriã falasse "come, fica um pouco na festa, toma uma "coisinha'", eu sabia que não era para eu fazer isso. Eu ia lá, fazia o meu trabalho, aceitava uma água e ia embora.
Folha Online - E como você aprendeu?
Santo - Observando... Nas primeiras festas eu até ficava. Mas aquele não é o meu lugar. É a mesma coisa hoje, mesmo com o personagem famoso, se me convidarem para uma festa de um famoso, eu posso até ir, mas sei que não pertenço àquilo. Eles não são meus amigos. Meu amigos estão comigo há muito tempo. Até porque, essas pessoas sabem ser interesseiras.
Folha Online - Qual foi a época de maior dificuldade financeira?
Santo - Dos 15 aos 17 anos. Mas nessa época eu era adolescente, então tudo era muito bom. Sua coragem e ousadia são maiores, sua a fome é menor. O largo do Paissandu é lindo, andar de metrô é legal..
Folha Online - Você vivia do quê?
Santo -O Brasil estava no auge das muambas do Paraguai. Eu vendia walkman à prova d'água, cueca, jeans da Forum falsificado. Fazia dança, posava nu para escola de arte e com 17 anos comecei a fazer telegrama animado.
Folha Online - Você não tem mais contato com sua família. Como foi quando eles tentaram se reaproximar?
Santo - Teve uma tentativa inicial, mas eu cortei. Não sinto mais falta. Não adianta você se lamentar pela família que você não tem. É difícil mudar a si mesmo, imagine mudar sua família. Eu não tenho a família que eu gostaria de ter, por outro lado, eu tenho amigos maravilhosos.
Folha Online - O que te motivou a sair de Uberaba?
Santo - Eu sempre fui problemático na escola.. tentei fugir de casa algumas vezes e sempre sonhei com São Paulo. Eu segui uma inquietação de ser artista e deu certo. Com dez anos eu falava que queria ser bailarino. Eu não tinha uma turminha.
Folha Online - Foi difícil para você ainda criança?
Santo - Para a criança foi, mas a partir dos dez anos eu comecei a ficar mais corajoso, mais atrevido. Por ter um ídolo muito positivo que era a Madonna, contestadora, aí eu fui na onda.
Folha Online - Como foi a questão da homossexualidade para você na época?
Santo - Nos anos 80, era mais complicado. Era tudo mais repressivo e a Aids veio e deixou tudo mais católico, tinha o pecado, a culpa... Mas mulher também passa por isso. Até hoje ela não sabe o que fazer com sua sexualidade. "Dou no primeiro encontro? Não dou?". E tudo no interior é maior. Uma cuspida vira uma catarrada. Um aborto vira um assassinato.
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