Peter Greenaway faz performance inédita na avenida Paulista
SILAS MARTÍ
Colaboração para a Folha de S.Paulo
Peter Greenaway fez ontem à noite em São Paulo uma performance morna para a noite de 15ºC. O cineasta britânico, numa tenda montada na esquina da rua Leôncio de Carvalho com a avenida Paulista, remixou ao vivo cenas de sua trilogia "The Tulse Luper Suitcases", projetadas em três telões atrás do palco e na fachada branca do prédio do Itaú Cultural, do outro lado da rua.
Com 15 minutos de atraso, Greenaway começou a discursar no evento que abriu o 16º Festival de Arte Eletrônica Sesc Videobrasil. Perguntou em inglês se o público também achava, como ele frisa em toda entrevista, que o cinema estava morto. A resposta foi negativa. Houve vaias e --depois de uma tradução improvisada-- aplausos das cerca de 2.500 pessoas --segundo a organização do evento-- que se juntaram para ver o que o cineasta chama de "futuro do cinema".
| Danilo Verpa/Folha Imagem |
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| Diretor Peter Greenaway fez uma performance na av. Paulista para festival de arte eletrônica |
Durante a performance, Greenaway ficou em pé diante de uma tela de plasma sensível ao toque. Com as mãos, escolhia entre mais de 2.000 fragmentos de seu filme de sete horas de duração, acompanhado pelo som do DJ holandês Serge Dodwell, codinome Radar.
Minutos antes da performance, o cineasta estava preocupado com o volume do som, que ele esperava fosse mais alto que o ruído das sirenes e o trânsito da avenida Paulista: esta foi a primeira vez que a performance, já realizada outras 12 vezes pelo mundo, aconteceu numa rua.
Dodwell disse apenas que nunca ensaia com Greenaway, por isso não sabia o que esperar do resultado. Ele disse à Folha meia hora antes de subir ao palco que o cineasta queria fazer o público dançar e que por isso, era preciso incluir "batucada" no set list. "Ele gosta de manter tudo fresco, novo e, por isso, me faz suar muito no palco para acompanhar, mas eu acho que 'batucada' não tem nada a ver com o filme."
Não houve batuque nem dança. A performance demorou para engrenar e os rostos na platéia oscilavam entre a apatia e certa perplexidade. Mas foi suficiente para fazer o público composto quase que exclusivamente por moderninhos e descolados agüentar o frio e ficar do começo ao fim.
Um grupo de estudantes de cinema foi vestido como personagens do cineasta: uma menina vestia sobretudo vermelho e carregava uma cesta com penas e ovos, outra fumava charuto e levava na cabeça um grande chapéu branco.
O coordenador de palco, Robert Komans, disse que a performance é sempre bem recebida na América Latina e países do Mediterrâneo porque as pessoas dessas regiões são mais bem preparadas esteticamente. Advertiu, antes do show, que o que se veria no palco seria "um bombardeio de idéias".
Menos piroctécnico do que o previsto, a performance de Greenaway não convence como futuro do cinema, mas foi um belo espetáculo visual que mergulhou em imagens, por 50 minutos, aquela esquina da Paulista.
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