Sem Oscar, Michelle Pfeiffer revela insegurança com seu talento
MARCO AURÉLIO CANÔNICO
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Londres
Um dos maiores símbolos sexuais de Hollywood nos anos 80 e 90, a atriz Michelle Pfeiffer não tem mais como fugir: por mais bela que ainda seja, o envelhecimento entrou definitivamente em sua agenda. Perto de seus 50 anos (em 29 de abril de 2008), Pfeiffer voltou às telas, após um hiato de quatro anos, encarnando personagens para os quais a idade é tema central.
Ela é uma ex-rainha da beleza no musical "Hairspray - Em Busca da Fama"; uma mulher de meia-idade que fica em dúvida sobre se relacionar com um homem mais jovem em "Nunca É Tarde para Amar" (ambos em cartaz no Brasil); e uma velha bruxa que almeja ser jovem e bela novamente, em "Stardust -°O Mistério da Estrela", que estréia no Brasil nesta sexta.
Foi para falar sobre este último filme --dirigido pelo britânico Matthew Vaughn e baseado na obra de seu aclamado compatriota Neil Gaiman-- que a Folha entrevistou Pfeiffer na última quinta-feira, em Londres.
| Stephen Hird /Reuters |
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| Michelle Pfeiffer volta a fazer uma bruxa em "Stardust", que estréia na sexta no Brasil |
Os dez jornalistas que compõem a mesa são avisados para não cercar a atriz de modo intimidador, devido ao pouco espaço. Espremem-se todos, então, para deixar mais livre a cadeira onde a estrela se senta, aparentando cansaço, mas sorridente e vestida de modo quase casual --um vestido preto, um casaquinho cinza, pouca maquiagem e nada de brincos ou jóias, apenas sua aliança.
Razoavelmente alta (1,71 m), bem magra e com um rosto lindo (olhos azuis claros, cabelos loiros idem), aparentando menos idade do que tem (e, não, não era a maquiagem disfarçando), Pfeiffer é elogiada por sua beleza já na primeira pergunta, quando uma repórter quer saber qual o segredo para manter seu visual.
"O maior segredo é conhecido de todos, mas poucos querem realmente seguir: é preciso tomar conta de si mesmo, comer direito, fazer exercício", diz ela, completando com sinceridade e bom humor: "E ter uma boa iluminação e um excelente maquiador".
No papel de Lamia, vilã de "Stardust", Pfeiffer aparece em diferentes estágios de envelhecimento, mas não foi o visual fantasioso de bruxa centenária e decrépita, toda enrugada e sem cabelos, que a deixou mais preocupada.
"Quando a maquiagem de envelhecimento me deixou num meio-termo entre minha idade atual e os cem anos, foi perturbador, porque vi como vou estar no futuro e não gostei", afirma.
Dúvidas
Michelle Pfeiffer já trabalhou com diretores célebres (Scorsese, De Palma, Frears, Burton) e fez par romântico com medalhões como Al Pacino, Jack Nicholson e Sean Connery, mas se mostra surpreendentemente insegura quanto à sua capacidade como atriz.
"Às vezes, duvido do meu talento. Não gosto de me ver atuando. Assisto a meus filmes porque preciso e, ocasionalmente, vejo trechos durante a filmagem, para ver se estou no mesmo clima que os demais."
Se tal insegurança é reflexo da escassez de prêmios ao longo de sua carreira --concorreu três vezes ao Oscar e perdeu, além de seis vezes ao Globo de Ouro, tendo vencido apenas com "Susie e os Baker Boys"--, Pfeiffer não demonstra.
"Acho que seria ótimo ganhar um Oscar, mas é o tipo de coisa que não se aspira a ganhar, você apenas faz as melhores escolhas possíveis [de papéis] e torce para acontecer."
Os muitos anos em Hollywood lhe ensinaram não apenas a ter uma atitude blasé, mas também como contornar o ostracismo a que costumam ser submetidas atrizes de meia-idade. "Depois dos 40, é preciso começar a pensar fora da sua caixa. Os papéis estão lá, mas é necessário olhar de modo diferente. De certa maneira, os personagens que te oferecem ficam mais interessantes."
E como ela, que alternou sua carreira entre produções pop ("Batman - O Retorno") e outras mais adultas ("Ligações Perigosas") decide o que vai interpretar? De modo vago, aparentemente. "Não tenho um plano que sigo, até deveria, mas não tenho. Escolho pelo que me encanta de alguma forma. Tento achar bons papéis, mas sem muitas idéias pré-estabelecidas", conta a atriz.
Novamente bruxa
"Stardust", um conto de fadas para o público infanto-juvenil, marca a volta de Pfeiffer a elementos de seu passado.
O gênero é o mesmo do filme em que teve seu primeiro papel de destaque, "Ladyhawke - O Feitiço de Áquila" (1985). E ela volta a fazer uma bruxa, ainda que, na obra de Matthew Vaughn, seu personagem seja mais caricato que a feiticeira sensual de "As Bruxas de Eastwick" (1987). Seu terceiro filme lançado neste ano, "Stardust" marca sua volta definitiva após a parada de quatro anos. Pausa não prevista, segundo ela.
"Simplesmente não trabalhei, não foi uma escolha consciente, só não aceitei nenhuma proposta." Colaborou para isso o fato de estar criando duas crianças --Claudia Rose, 14, e John Henry, 13-- com seu marido, o escritor e produtor David Kelley. A vida familiar, aliás, foi o que a levou de volta ao cinema. "Pensei que precisava voltar a trabalhar para descansar um pouco, porque a vida de mãe é muito cansativa. É gratificante, mas esgota."
O jornalista Marco Aurélio Canônico viajou a convite da Paramount
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