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Ilustrada
12/10/2007 - 02h00

Confira trecho do livro da vencedora do Nobel de Literatura

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da Folha de S.Paulo

Leia a seguir trecho de "O Sonho Mais Doce", de Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura de 2007, aos 87 anos.

*

"Johnny se saíra bem durante a guerra e fora notado. Ninguém podia dizer que não era inteligente e vivo, e sua política, incomum para a época. Ofereceram a ele bons empregos na Londres que se reformulava depois da guerra. Recusou todos. Não seria comprado pelo sistema capitalista: não mudara uma vírgula em suas idéias, sua fé. O camarada Johnny Lennox, de novo à paisana, estava preocupado apenas com A Revolução.

Colin nasceu em 1945. Dois filhos pequenos, num apartamento caquético em Notting Hill, então uma área decadente e pobre de Londres. Johnny parava pouco em casa. Trabalhava para o Partido. A esta altura é preciso explicar que, quando se dizia Partido, estava se falando no Partido Comunista, e o que deveria ser ouvido era O PARTIDO. Quando dois estranhos se conheciam, a conversa poderia ser mais ou menos assim: "Você também está no Partido?". "Estou, claro." "Bem que eu imaginei." Significando: Você é uma boa pessoa, gosto de você, de modo que você tem, como eu, de estar no Partido.

Frances não entrou para o Partido, embora Johnny tivesse dito para ela entrar. Era ruim para ele, palavras suas, ter uma mulher que recusava a filiação.

"Mas quem é que vai saber?", perguntou Frances, contribuindo para o desprezo dele por ela, porque não tinha interesse em política e jamais teria.

"O Partido sabe", disse Johnny.

"Azar", disse Frances.

Eles definitivamente não estavam se entendendo, e o Partido era de somenos importância na questão, ainda que uma grande irritação para Frances.

Viviam com enorme dificuldade, para não dizer na miséria. Ele via nisso um sinal de graça interior. Na volta de um seminário de fim de semana, "Johnny Lennox e a Ameaça da Agressão Norte-Americana", encontrava Frances pendurando as roupas das crianças numa armação mambembe de roldanas e varetas pregada de modo precário na parede externa da cozinha, ou voltando, um filho pela mão, o outro no carrinho, de um passeio no parque. A parte de baixo do carrinho estaria cheia de sacos de compras e, enfiado atrás do filho, um livro que nutrira esperança de ler enquanto as crianças brincavam. "Você é uma verdadeira trabalhadora, Fran", ele elogiava.

Se ele se deliciava, a mãe não. Quando aparecia, nunca sem antes avisar por escrito, num papel branco e grosso em que era possível até se cortar, ela se sentava com nojo na ponta de uma cadeira que provavelmente continha resíduos de biscoitos untados ou de laranja. Ela anunciava: "Johnny, isto não pode continuar deste jeito".

"E por que não, Mutti?"

Ele a chamava de Mutti porque ela odiava.

"Seus netos", ele esclarecia, "serão motivo de glória para a Grã-Bretanha do Povo."

Frances não se permitia olhar Julia de frente em momentos assim, pois não queria ser desleal. Achava sua vida, tudo em sua vida, ela mesma inclusive, capenga, feia, aborrecida, e os absurdos de Johnny eram apenas uma parte disso.

Mas um dia aquilo acabaria, tinha certeza. Teria de acabar.

E acabou, porque Johnny anunciou ter se apaixonado por uma camarada de verdade, integrante do Partido, e que estava indo morar com ela.

"E eu vivo como?", Frances perguntou, já sabendo o que esperar.

"Eu pago pensão, claro", falou Johnny, mas nunca pagou.

Ela arranjou lugar para os filhos numa creche municipal e conseguiu emprego num estabelecimento que fazia cenários e roupas para teatro. Era mal pago, mas ela segurava as pontas. Julia apareceu para se queixar de que as crianças estavam sendo negligenciadas e que suas roupas eram uma vergonha.

"Talvez fosse melhor você falar com seu filho", disse Frances. "Ele me deve um ano de pensão." Depois foram dois anos, em seguida três.

Julia perguntou se, caso ela recebesse uma quantia decente da família, largaria o emprego para cuidar dos meninos.

Frances disse que não.

"Mas eu não vou interferir. Prometo."

"Você não entende."

"Não, não entendo. Quem sabe você gostaria de me explicar?"

Johnny deixou a camarada Maureen e voltou para ela, Frances, dizendo que tinha cometido um engano. Ela o aceitou de volta. Estava solitária, faminta de sexo e sabia que os meninos precisavam de um pai.

Ele foi embora de novo, atrás de outra autêntica camarada. Quando voltou mais uma vez para Frances, ela disse: "Sai".

Trabalhava em tempo integral num teatro, ganhando pouco, mas o suficiente.

Os meninos estavam então com dez e oito anos. Havia problemas o tempo todo na escola, e eles não estavam se saindo bem.

"O que você esperava?", disse Julia.

"Eu nunca espero coisa alguma", disse Frances.

Então as coisas mudaram de forma dramática. Frances ficou atônita ao saber que o camarada Johnny aceitara que Andrew cursasse uma boa escola. Julia queria que fosse a Eton, porque o marido estudara lá. Frances esperava que Johnny dissesse não para a Eton, e depois ficou sabendo que ele também estudara lá e que conseguira ocultar esse fato danoso durante todos aqueles anos.

Julia não mencionara nada porque a carreira de Johnny na Eton não os cobrira exatamente de glória, nem a Johnny nem à família. Cursara três anos, mas depois largara os estudos em troca da Guerra Civil Espanhola.

"Está me dizendo que está contente por Andrew ir para aquela escola?", Frances lhe perguntou, ao telefone.

"Bem, pelo menos lá se recebe uma boa educação", disse Johnny airosamente, e ela não pôde deixar de ouvir na resposta o não declarado: Olhe o que fez por mim.

E assim foi que-com Julia pagando-Andrew deixou os cômodos miseráveis onde viviam a mãe e o irmão e foi para a Eton, passou as férias com amigos da escola e se tornou um estranho polido."

 

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