Ilustrada
18/10/2007 - 16h56

Leia íntegra de bate-papo com Sérgio Rizzo sobre a Mostra de SP

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da Folha Online

O jornalista Sérgio Rizzo, 42, crítico de cinema da Folha de S. Paulo, participou nesta quinta-feira de bate-papo sobre a 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que começa hoje para convidados e amanhã para o público. O evento terá a exibição de 400 filmes.

arquivo Pessoal
Rizzo conversou com internautas sobre a Mostra de Cinema de SP
Rizzo conversou com internautas sobre a Mostra de Cinema de SP

Jornalista, mestre em Artes/Cinema e doutorando em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP, Rizzo foi editor do "Almanaque Abril" e do "Guia do Estudante", editor dos guias de cinema da Editora Nova Cultural, editor de livros da Editora Brasiliense, subeditor de Internacional do "Diário Comércio & Indústria" e editor-chefe da Abril Jovem, entre outras atividades.

Além de crítico da Folha, Rizzo é colunista das revistas "Educação", "Escola Pública", "Viração" e "Idéia Socioambiental", e colaborador da revista "Set".

Sérgio Rizzo também é professor nos cursos de jornalismo e de letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie e no curso de especialização em crítica cinematográfica da FAAP, além de ministrar cursos sobre a história do cinema na Casa do Saber. É co-autor da coletânea de ensaios "Comunicação na Pólis" (Ed. Vozes) e escreveu os textos de "Vitória - Ayrton Senna" (Ed. Melhoramentos).

O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas.

*

(03:32:06) Sérgio Rizzo: Olá a todos. Bem-vindos ao bate-papo.

(03:32:27) Carola fala para Sérgio Rizzo: oi Sérgio, tudo bem. A Mostra será aberta hoje com o novo filme do Babenco. Foi uma boa escolha da organizalção? O filme é realmente tão bom assim que mereça todo esse destaque?

(03:34:50) Sérgio Rizzo: Carola, gostei do filme, até mais do que imaginava. Escolhas como essa têm menos a ver com estética do que com política. Politicamente, a direção da Mostra julgou que o filme de Babenco era apropriado para a abertura, por causa dele, do ator principal e, claro, de seu valor estético. Visto assim, faz todo o sentido.

(03:35:59) murilo fala para Sérgio Rizzo: oi sérgio, vc já viu o novo do Brian de Palma? é um dos imperdíveis da mostra?

(03:37:55) Sérgio Rizzo: Murilo, ainda não vi, mas estou muito curioso. Sim, me parece um dos destaques -- um dos 50 ou 60 destaques. O blog Ilustrada no Cinema o relaciona em uma extensa lista de principais atrações, dividida em três categorias. Convido os internautas a visitar o blog e conhecê-la.

(03:38:01) nely fala para Sérgio Rizzo: o q vc acha do Jean Paul Civeyrac, q vai ter retrospectiva na mostra, rizzo?

(03:41:35) Sérgio Rizzo: Nely, um bom sinal dos tempos bicudos em que vivemos, no que diz respeito à distribuição de filmes estrangeiros no país, é que a obra do Civeyrac permanece inédita no país. Como ele, diversos cineastas franceses importantes na faixa dos 30 e dos 40 anos não tiveram seus filmes exibidos por aqui. Não só franceses, aliás: italianos, alemães, espanhóis, ingleses... A monocultura do nosso circuito fala inglês com sotaque norte-americano. A Mostra é excelente oportunidade para refrescar o cenário. E a retrospectiva dedicada a Civeyrac me parece ótima pedida, no terreno do risco.

(03:41:35) jessejames fala para Sérgio Rizzo: oi sérgio, tudo bem? entre taaaantas opções, o que você indica: ver os filmes q dificilmente vão estrear no Brasil (a curto prazo) ou ver com antecedencia filmes que com certeza vão entrar em circuito??

(03:45:26) Sérgio Rizzo: Jessejames, você resumiu tudo: navegar pelo oceano da Mostra exige critérios. O mais razoável, e que pessoalmente adoto, é o de privilegiar filmes que não têm assegurada sua exibição comercial no país. Na programação, são aqueles com 'legendas eletrônicas em português'. Entendo, no entanto, que boa parte do público não resiste ao auê ('hype', para parecer moderninho...) de alguns títulos que daqui a pouco vão estrear. Por exemplo: um monte de gente vai se esfolar para ver 'Império dos Sonhos', de David Lynch, que vale cada centavo da experiência, mas o filme estréia em SP no próximo dia 2...

(03:45:50) Eric fala para Sérgio Rizzo: o que voce pode dizer sobre os filmes nacionais que rodam pelas amostras?

(03:49:52) Sérgio Rizzo: Eric, de acordo com o critério que apresentei na resposta anterior, não me interesso muito pelos títulos brasileiros da Mostra; mais cedo ou mais tarde, verei (e provavelmente terei a oportunidade de rever inúmeras vezes) todos eles. Nesse tipo de evento, a exibição de filmes brasileiros funciona como um termômetro para a reação do público, orientando o lançamento. Sem falar em eventuais prêmios, que ajudam na carreira comercial do filme. Dito isso, alguns dos que chegam à Mostra cercados de mais expectativa são 'A Casa de Alice', "A Via Láctea', 'Mutum', 'Onde Andará Dulce Veiga?', 'Nome Próprio' e 'Estômago'.

(03:49:52) JCO fala para Sérgio Rizzo: O protagonista do filme do Babenco, Gael García Bernal, vem com sua própria obra, Déficit. O que você espera desse filme?

(03:52:38) Sérgio Rizzo: JCO, assisti ontem a 'Déficit' e gostei muito. Admito que fiquei surpreso não só com o Gael como diretor, mas também com sua atuação no papel central. É um filme político (embora talvez não pareça, pela leitura da sinopse) focado em jovens de elite do México, da Argentina e do Brasil (sim, há um personagem brasileiro na história), contrastados com trabalhadores que servem a eles.

(03:53:03) liane fala para Sérgio Rizzo: rizzo, o q vc acha do cinema de mojica e brazza, q terão alguns filmes exibidos na Mostra? comparando esses cineastas com nomes gdes do cenário atual, como meirelles e salles, qual a principal diferença entre eles?

(03:57:16) Sérgio Rizzo: Liane, tive a oportunidade de escrever a resenha de um catálogo sobre uma retrospectiva dedicada ao Mojica. Saiu domingo último no caderno 'mais!', da Folha. Na abertura do texto, fiz um paralelo com a bem-sucedida carreira internacional desses talentosos bom-moços do cinema brasileiro, Salles e Meirelles. Admiro os dois. Mas, se há alguém que represente pólo oposto (do cinema brasileiro e do próprio país), é Mojica. Examinada sem preconceitos, ele fez uma senhora obra como artista 'naif' (ou primitivo mesmo, segundo alguns) que diz muito a respeito de nossa cultura popular. Conheço pouco do Brazza.

(03:57:22) laura fala para Sérgio Rizzo: qual filme da Mostra você achou bastante fraco até o momento?

(03:59:04) Sérgio Rizzo: Laura, não vi ainda nenhum filme que me desagradasse tanto. É bem verdade que ainda não vi tantos filmes assim, e que assisti prioritariamente a alguns destaques para escrever resenhas, o que determina um recorte naturalmente mais positivo.

(03:59:10) walmor fala para Sérgio Rizzo: O filme, 'Angel' de Françóis Ozon pode ser considerado o fundamental? Aquele que não se pode deixar de assistir de maineira alguma?

(04:01:37) Sérgio Rizzo: Walmor, gostei do 'Angel'. Se você aprecia a obra de François Ozon, sugiro que o veja. Não acredito, no entanto, que haja algo 'imperdível'; tudo depende das suas preferências, idiossincrasias, do que espera dos filmes e do tempo que eles ocupam em sua vida. E a vida é maior, bem maior, do que o cinema.

(04:01:43) walmor fala para Sérgio Rizzo: Quais seriam pra você os filmes fundamentais da Mostra?

(04:04:00) Sérgio Rizzo: Walmor, retorne à resposta anterior. Já mencionei, porém, a lista feita pelo blog Ilustrada no Cinema, da Folha Online. Participei das escolhas, com outros colegas da 'Folha'. A lista me parece ótimo material de orientação nesse oceano de alternativas. Outra sugestão, exclusiva para os internautas de São Paulo, é o 'Guia da Folha' especial sobre a Mostra, que circula amanhã com o jornal.

(04:04:06) Vinx fala para Sérgio Rizzo: Boa tarde Sérgio, você acha que as sessões gratuitas e para estudantes secundaristas promovidas pela Mostra são suficientes para uma tentativa de democratização de acesso ao cinema? Você acredita que a Mostra tem este papel?

(04:07:28) Sérgio Rizzo: Vinx, essas sessões são muito bem-vindas. Nem de longe se aproximam da resolução desse problemaço que é o processo de exclusão das classes populares. Cinema virou hábito para elite. Desapareceram as salas de bairro e de pequenas e médias cidades; a hegemonia é dos multiplexes que naturalmente afastam quem não pertença ao público freqüentador de shoping-centers. Sem falar no preço do ingresso. Se há algo que mereça toda a nossa atenção hoje, é isso: formas de aproximar os 'sem-tela' do cinema.

(04:07:34) JCO fala para Sérgio Rizzo: Sérgio, tudo bem? Uma das coisas que me convidam à Mostra é a diversidade de línguas. Esse ano, o filme Sombras vem da Macedônio. Você chegou a assistir a esse filme? Recomenda?

(04:10:43) Sérgio Rizzo: JCO, assisti ontem ao 'Sombras', em sessão dupla com o 'Déficit'. Falando como espectador, preferi o 'Déficit'. Mas 'Sombras' tem charme narrativo, boa atmosfera de mistério, ambiguidades a explorar, sem falar nessa atração especial, a do cenário sociocultural bem pouco conhecido por aqui. A oportunidade de travar contato com esses dados do mundo contemporâneo é um grande barato da Mostra. Não gostei do encaminhamento final da trama em 'Sombras'.

(04:10:55) carola fala para Sérgio Rizzo: o filme 'Across The Universe' é bom? vale a pena assisti-lo na Mostra?

(04:13:22) Sérgio Rizzo: Carola, não vi 'Across the Universe', mas o jornalista Sandro Macedo, coordenador do 'Guia da Folha' especial sobre a Mostra, e que me presenteou com o exemplar de primeira mão que tenho aqui ao lado, me passou boas referências. Diria que não tem contra-indicação para fãs dos Beatles.

(04:13:28) walmor fala para Sérgio Rizzo: Como você avalia 'Jogo de Cena' de Eduardo Coutinho?

(04:15:13) Sérgio Rizzo: Walmor, admiro profundamente a obra de Eduardo Coutinho, um dos mais importantes documentaristas em atividade hoje no mundo. O mote do "entender as razões do outro, sem lhes dar razão", que orienta sua produção mais recente, tem valor ético notável. Tudo isso para dizer que estou curiosíssimo com "Jogo de Cena".

(04:15:19) JCO fala para Sérgio Rizzo: Dos novos diretores da Mostra, algum que tenha te chamado muito a atenção por ineditismo?

(04:16:19) Sérgio Rizzo: Walmor, a frase do Coutinho é "entender as razões do outro, sem lhe dar razão". Lhe, e não lhes.

(04:16:25) Vinx fala para Sérgio Rizzo: Sérgio, sinceramente senti falta na programação da Mostra de alguns filmes do Festival do Rio - obras de Fernando Solanas, Chabrol, Park Chan-Wook, Monicelli, etc. Entendo a dificuldade imensa que deva ser montar a programação da Mostra, mas acho que SP tem ficado para trás em relação à programação do Rio, pelo menos nos últimos anos. O que você acha? Faria alguma comparação entre o Festival do Rio e a Mostra? Eles se complementam?

(04:17:53) Sérgio Rizzo: JCO, entre os filmes de diretores estreantes, até agora só vi o "Déficit". Há um lote de filmes dirigidos por atores, alguns pela primeira vez tendo essa experiência. É o caso do Gael. Deve ter mais coisa interessante por aí.

(04:20:19) joseane_natal rn sai da sala...

(04:20:25) Sérgio Rizzo: Vinx, considero difícil reclamar de uma programação com 400 filmes huanamente impossíveis de ver. Não fiz uma comparação título-a-título entre os dois festivais deste ano, mas desconfio que também choverá aqui o que não choveu lá. A proximidade de datas complica a vida dos dois. E, cá entre nós, é mais fácil convencer os gringos a ir para o Rio do que vir para São Paulo.

(04:20:49) Vinx fala para Sérgio Rizzo: Sérgio, o que você acha do trabalho de Guy Maddin, o qual conhecemos, quase que exclusivamente, através da Mostra? E o de Roy Andersson?

(04:21:31) Sérgio Rizzo: Vinx, é "humanamente impossível", na resposta anterior.

(04:24:44) Sérgio Rizzo: Vinx, conheço pouco de ambos. Esse pouco me leva a admirar muito o Andersson, e menos o Maddin. A exibição de seus filmes pela Mostra exeplifica bem o que há de mais elogiável e sedutor (ao menos para mim) nessa enxurrada de filmes: conhecer filmografias (e, portanto, mundos embutidos nelas) que não chegam ao circuito comercial de cinema e às vezes nem mesmo ao mercado brasileiro de DVD.

(04:25:11) edu sp fala para Sérgio Rizzo: Olá Sérgio... eu sou um grande fã do cinema do oriente médio, talvez por minha origem libanesa, mas realmente o cinema arabe tem evoluido muito nos ultimos anos... gostaria de ter sua opiniao sobre o filme libanes Caramel... vc o assistiu?? o recomenda??

(04:27:48) Sérgio Rizzo: Edu SP, aproveite bem a Mostra para correr atrás dos filmes vindos do Oriente Médio. Não vi 'Caramel', mas está na minha lista, sobretudo por tratar da condição feminina. Estou curioso para ver o que uma mulher, a diretora Nadine Labaki, fez a esse respeito.

(04:28:09) romario fala para Sérgio Rizzo: olá, sergio dos filmes que existem qual que vc escolheira os filmes do brasil o de outros paises e qual seu filme preferido?

(04:31:03) Sérgio Rizzo: Romario, isso é mais difícil do que escalar uma seleção brasileira de futebol que contente a todo mundo. Sugiro novamente aos internautas que visitem o blog Ilustrada no Cinema, com uma seleção que me parece bem razoável. Amanhã, no "Guia da Folha" especial sobre a Mostra, aponto cinco títulos pelos quais tenho imensa curiosidade: "Brando", "De Volta à Normandia", "Do Outro Lado", "Le Voyage du Ballon Rouge" e "Hana".

(04:32:50) Sérgio Rizzo: Caros, nosso tempo se encerrou. Convido os internautas a acompanhar a cobertura da Mostra na 'Folha', na Folha Online e no UOL. Ótimo festival a todos, a gente se vê pelas salas.

(04:33:20) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Sérgio Rizzo e de todos os internautas. Até o próximo!

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