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Ilustrada
31/10/2007 - 09h15

Imitações dão audiência, diz Tom Cavalcante

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PATRÍCIA DANTAS
da Folha Online

Com mais de 200 personagens criados ao longo de 15 anos de carreira na TV, Tom Cavalcante ficou conhecido nacionalmente ao interpretar o bêbado João Canabrava na Escolinha do Professor Raimundo, em 1992.

Record/Divulgação
Tom Cavalcante diverte o público como o bêbado João Canabrava
Tom Cavalcante diverte o público como o bêbado João Canabrava

Não demorou muito tempo para o humorista cearense cair no gosto do público e ganhar destaque no programa.

"Minha busca para chegar no Rio e na Globo durou dez anos até estrear na escolinha. Nesse tempo visitei muito a portaria da Globo no Rio (risos). Depois de um tempo, fui contratado como redator na emissora e nada de aparecer. Até que um dia encontrei o Chico (Anysio) em um restaurante em Fortaleza e imitei o bêbado. Ele achou muita graça e disse: 'Pronto, achei o personagem que vou colocar na programa", relembra Tom.

Aos 45 anos, o humorista não teve medo de trocar a Globo, líder de audiência, para trabalhar na Record, em 2004.

"Não ventilo esse sentimento de volta para a Globo. Curti bastante o tempo que fiquei lá, fiz muitos amigos, não tenho no momento o sonho de voltar. A Record está ótima para mim, excelente. É um investimento de satisfação pessoal". Leia trechos da entrevista.

*

Folha Online- O que te motivou a trocar a Globo pela Record?

Tom Cavalcante- Minha decisão foi única, contra tudo e contra todos, porque ninguém queria que eu saísse da Globo. Estava muito bem lá. Diziam que eu estava louco, até meu empresário. Aceitei a proposta da Record por poder exercer minha função e ter liberdade para criar o que eu quiser. Aí cresci o olho. Não vim para a Record por um saco de dinheiro, conforme as pessoas pensavam na época. Não havia muita diferença em relação a salário entre as duas emissoras.

Record/Divulgação
Ana Maria Bela é uma das imitações de maior sucesso do humorista
Ana Maria Bela é uma das imitações de maior sucesso do humorista

Folha Online- Você possui mais de 200 personagens no currículo profissional. Como faz para criá-los?

Cavalcante- Invisto muito em viagens, gosto de ter contato com outros humoristas, dos EUA, Itália, Portugal, pra ver qual é a dos caras. Aí vou aplicando no Brasil e criando. O humor brasileiro é muito sacana, esperto, possui o prazer em sacar a malícia, a ironia. É muito diferente do humor europeu, que é mais leve, superficial, pudico.

Folha Online- Como escolhe as celebridades que serão alvo de imitação?

Cavalcante- Sinto que, se eu imitar aquela personalidade colocando minha cara e meu jeito de interpretar vai dar um boom, um buxixo. Gosto muito do Pedro Bilal, porque acho que tenho o personagem na mão, assim como a Ana Maria Bela. O Justus demorou mais um tempo para assimilar. Sempre lanço novos personagens pensando que eles podem dar certo. Vai que esse emo que acabei de lançar não estoura como o Pit Bicha, o Ribamar, a Jarilene.

Record/Divulgação
A empregada Jarilene é o atual xodó de Tom Cavalcante
A empregada Jarilene é o atual xodó de Tom Cavalcante

Folha Online- O SBT chegou a processar a Record por plágio do programa "Qual é a música?". A Globo também considerou a hipótese de entrar com processo por você e demais humoristas do "Show do Tom imitarem os artistas da emissora. Encara isso como um tipo de censura à arte?

Cavalcante- As imitações realmente dão audiência, mas o programa não é feito necessariamente de paródias. Na minha concepção, não há plágio em nada. Tenho a característica artística de fazer a imitação e ter uma assimilição muito próxima do imitado. Sou amigo da Ana Maria Braga, Faustão, Raul Gil. Todo esse questionamento é por audiência, pelo fato de o programa incomodar muito a concorrência. Se vier o processo, a gente pára de fazer, mas tem que ser bem discutido isso aí.

Folha Online- O programa já chegou a ficar na frente do Faustão e se mantém há oito domingos na vice-liderança isolada no Ibope, em apenas três meses de exibição aos domingos. Esperava ter esse retorno tão rápido?

Cavalcante- O público é muito descompromissado no sentido de fidelidade. É o controle na mão que te motiva naquele momento para ver aquilo que chama mais atenção. Por isso a audiência é sempre flutuante. Uma hora vou estar em primeiro, outra em segundo, terceiro, e por aí vai.

Folha Online- Quais armas utiliza para enfrentar a guerra por audiência?

Cavalcante- Não foco isso como uma neura. Espero apenas que os acertos sejam maiores do que os erros. O público gosta de novidade no ar, por isso sempre apostamos em quadros diferentes. A gente sente o que está dando certo. Quando aperta e a audiência cai, sabemos onde mexer. Estou muito confortável com os números do ibope não só em São Paulo, mas no país todo. Há lugares que chegamos a ficar em primeiro lugar direto, como Brasília. Temos um bom retorno do público, fico muito feliz com isso.

Record/Divulgação
Tiririca é um dos humoristas do "Show do Tom"; veja galeria
Tiririca é um dos humoristas do "Show do Tom"; veja galeria

Folha Online- Qual importância do humor para o cenário nacional?

Cavalcante- O humor é a linguagem mais concreta para você chamar a atenção do país, principalmente do público menos esclarecido. As pessoas são muito alienadas, vejo muito isso ao sair para gravar quadros na rua. O Brasil não tem o amadurecimento de dar ao povo acesso à informação, livros gratuitos. Está no bojo do meu humor essas incertezas, desmandos como a arrecadação de R$ 36 bilhões de CPMF. É palhaçada. Tudo está muito largado no Brasil.

Folha Online- Você procura ficar comedido em exercer essa função mais crítica na TV para evitar problemas?

Cavalcante- Se você pegar o "Casseta & Planeta" hoje, eles são campeões de processos. O "Pânico" também. Por isso é necessário ficar o tempo inteiro medindo o texto da TV para não magoar ninguém. Já em shows não tenho esse problema, falo tudo mesmo. Pode mandar me prender. Cutuco tanto que o público chega a desabar. Já vazou coisa minha que falei, nada e mentira, mas é perigoso no sentido da hierarquia de costumes nossos.

Folha Online- O que falta para o Brasil dar certo?

Cavalcante- Acho que somente o povo esclarecido pode fazer alguma coisa. Vejo movimentos insurgentes, mas é muito pequeno ainda, sem representatividade no Congresso. Costumo dizer que, no Brasil, 5% não tem do que reclamar e 95% não tem pra quem. A voz que tenho é essa: levar humor a essa galera, colocá-la na TV. É isso que o povão quer: um pouco de fé e de circo também.

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