Yoko Ono apresenta performance em SP e ganha mostra no CCBB
FABIO CYPRIANO
da Folha de S.Paulo
Em perfomance hoje e em exposição a partir de sábado, São Paulo poderá ver as várias facetas de Yoko Ono, uma das artistas que ajudou a explodir os limites das artes visuais, especialmente com a série "Instruções", criada a partir de 1955.
| Kirsty Wigglesworth/AP |
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| Artista japonesa Yoko Ono vista o Brasil pela segunda vez; performance inédita será hoje |
"Com as "Instruções", Yoko dessacralizou totalmente a obra de arte, ao reduzi-la a uma idéia, o que nem Marcel Duchamp fez, pois ele não se livrou do objeto com o ready-made", conta o curador islandês Gunnar B. Kvaran, um dos responsáveis pela mostra no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano.
As várias facetas de Yoko, 74, podem ser de fato resumidas em duas: seu trabalho conceitual, da imaterialidade, como as "Instruções", que criam o que o crítico Nicolas Bourriaud chama de "terapia pela experiência da percepção"; e, por outro lado, seus objetos, criados já nos anos 60, com materialidade e marcados, contudo, pela simplicidade das formas.
Anteontem, antes de realizar o primeiro ensaio para sua performance no Teatro Municipal, Yoko conversou com a Folha, respondendo às perguntas com frases curtas e concisas, como poemas haicai.
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Folha - Seu trabalho é raramente visto em museus porque não há trabalhos seus em coleções públicas ou privadas. Por quê?
Yoko Ono - Eu acho que isso acontece porque os museus compram trabalhos para ficarem guardados no porão e eu quero me comunicar com meu trabalho!
Folha- Ao mesmo tempo, seu trabalho tampouco é visto em galerias. Por que você não participa do mercado de arte?
Yoko- Porque eu quero ser livre.
Folha - Sua obra teve início com as "Instruções", um trabalho conceitual bastante radical e claramente contra o objeto. O que a levou a criar objetos de arte posteriormente?
Yoko - Uma das razões pelas quais eu fui tão radical é porque era mais prático também. Eu não tinha condições ou tempo, naquele período. Eu tinha algumas idéias e eu transmitia essas idéias para outros artistas, que as anotavam. Então eu pensei que devia eu mesma escrever e isso foi ótimo, pois eu estruturei o trabalho para que outras pessoas pudessem realizá-los também, assim como a música e a partitura musical. Hoje, Beethoven é vivo apenas conceitualmente, mas é possível tocar Beethoven.
Folha - Nesses últimos anos, há muitos trabalhos como performances que revivem o espírito contestatório dos anos 60. Você percebe isso?
Yoko - Eu estava lá nos anos 60, e acho que o momento é muito diferente. A razão dessa diferença é porque o tempo é diferente. As pessoas têm a memória dos 60, 70, do século 20. Mas o jeito de se expressar é diferente.
Folha - Mas hoje há um discurso por solidariedade e participação, ao menos na arte, semelhante àquele período...
Yoko - Naquela época nós falávamos de solidariedade, de aldeia global. Hoje a aldeia global está aqui, estamos todos conectados. Naquela época, nós éramos uns 200 solidários, mas, agora é todo o mundo, com a exceção de algumas poucas pessoas.
Folha - A internet tem a ver com essa conectividade, ou você se refere a um nível mais espiritual?
Yoko - A internet é uma forma física de fazer isso, mas espiritualmente estamos conectados.
Folha - Com tantas guerras, diferenças sociais?
Yoko - As pessoas estão tomando consciência de que cada um é parte do mesmo corpo. Por exemplo, eu e você podemos discordar e discutir, mas nossos corações batem ao mesmo tempo, em uníssono: bum, bum, bum, bum... Entende?
Uma Noite com Yoko
Quando: hoje, 21h
Onde: Teatro Municipal (pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 0/xx/11/ 3222-8698)
Quanto: R$ 60 a R$ 200
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