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Ilustrada
15/07/2003 - 03h45

Festival de Rio Preto tem produções de países "periféricos"

VALMIR SANTOS
da Folha de S.Paulo

Deslocados do centro do sistema econômico mundial, uns mais, outros menos, Índia, Líbano, Polônia, Equador, Argentina e Brasil experimentam pontos de conexão cênica no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, a 451 km de São Paulo.

A terceira edição do festival, que começa na próxima quinta-feira e segue até dia 27, elege os países ditos "periféricos". A perspectiva da margem também quer contemplar as produções nacionais e os projetos especiais.

Entre os seis espetáculos estrangeiros estão "Make Up", do encenador indiano Anuradha Kapur, e "La Última Noche de la Humanidad", do grupo argentino El Periférico de Objetos.

Desenha-se um panorama da cena paulista atual com projetos, entre outros, de José Celso Martinez Corrêa, Antunes Filho, Antônio Araújo e Mário Bortolotto.

Há produções inéditas, como "Cidade Alta" e "O Ninho", ambos textos do austríaco Franz Xaver Kroetz (1946), dirigidos por Cibele Forjaz (Cia. Livre), e "Psicose 4:48", da inglesa Sarah Kane (1971-99), por Nelson de Sá, editor da Ilustrada.

Não só pelo nome do grupo, mas sobretudo pela conquista de uma linguagem própria no encontro de bonecos e atores, o argentino El Periférico de Objetos é emblemático do norte que o festival pretende emplacar.

Criado em 1989, em Buenos Aires, o grupo já encenou a derrisão do francês Alfred Jarry (1873 -1907), a subversão da palavra do irlandês Samuel Beckett (1906-89) e o niilismo do alemão Heiner Müller (1929-95), para citar alguns dramaturgos, além de textos de autoria dos próprios atores, alguns deles artistas plásticos.

Emilio García Wehbi, 39, um dos fundadores do El Periférico, dirige e atua em "La Última Noche de la Humanidad", primeira atração internacional de Rio Preto, que estréia na sexta.

A denominada ópera apocalíptica é inspirada em texto do austríaco Karl Kraus (1874-1936), "Os Últimos Dias da Humanidade". Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha - O grupo surge no final dos anos 80 com uma proposta estética focada em temas como a violência e a injustiça social e vai se consolidar ao longo dos anos 90, década em que a Argentina experimenta a ascensão e queda do modelo neoliberal da economia. O sr. concorda que os espetáculos do El Periférico de Objetos "anteciparam", de certa forma, a dura realidade enfrentada pela sua sociedade, mal-estar, aliás, que atinge outros países?
Emilio García Wehbi -
Apesar de as estéticas dos espetáculos do El Periférico estarem atravessadas pelas conjunturas ou circunstâncias político-sociais em que foram criadas, na realidade essas estéticas apontam para uma problemática mais existencial ou metafísica. Podemos dizer que fazemos teatro político e que entendemos que toda estética é política (considerando políticas as formas em que nelas se situam o homem em relação à sociedade).

Folha - Com a troca do "dia" pela "noite" na adaptação do título original da obra de Karl Kraus, pode-se deduzir que os tempos são mais sombrios do que aquele retratado pelo autor no início do século?
Wehbi -
Não é uma adaptação ou versão, mas reúne os elementos de contato entre o universo literário de Kraus e o universo cênico do El Periférico. É assim que o autor austríaco e o grupo entendem o mundo: como uma representação teatral, um teatro-múndi. Como dizia Brecht, vivemos definitivamente em tempos sombrios. Se para Brecht a Segunda Guerra Mundial era um tempo mais sombrio que a Primeira Guerra Mundial para Kraus, para nós os tempos sombrios (guerras devastadoras, predomínio absoluto da tecnocracia e da mídia, ausência total de utopias etc.) são definitivamente mais sombrios que aqueles. Mas me pergunto se cada dia que vivemos não é mais sombrio do que o que acabou.

Folha - Em que medida os atentados do 11 de Setembro nos EUA reafirmaram as convicções do grupo em "La Última Noche de la Humanidad"?
Wehbi -
Por que dar mais importância ao 11 de setembro de 2001 do que ao 6 de agosto de 1945, por exemplo, se nesse dia morreram, em Hiroshima, de dez a 15 vezes mais pessoas do que as que morreram no atentado ao World Trade Center? Por que são mais relevantes as 3.000 mortes do WTC, do que as milhões de mortes diárias causadas pela fome? O que é mais violento? O mais transcendente do 11 de Setembro foi sua espetacularidade e simultaneidade em que a mídia transmitiu os fatos. Neste sentido, a reprodução das imagens acontecem na segunda parte da peça.

Folha - Como conjugar a abordagem cética do chamado lado obscuro do ser humano com a crença na criação teatral?
Wehbi -
Apesar de a estética do grupo muitas vezes ser considerada obscura ou niilista, o processo de criação artística traz uma perspectiva positiva, de esperança. Como dizia Heiner Müller, somos uns "niilistas utópicos".

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