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Ilustrada
26/07/2003 - 14h10

Ex-atores do CPT contracenam em "4:48 Psicose"; leia entrevista

VALMIR SANTOS
da Folha de S. Paulo, em São José do Rio Preto

O espetáculo "4:48 Psicose", que faz ensaios abertos hoje e amanhã no Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, marca o reeencontro dos atores Gabriela Flores e Luiz Päetow.

Eles trabalharam no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), comandado por Antunes Filho, em São Paulo. Atuaram em peças como "Fragmentos Troianos" (1999) e em algumas versões do projeto "Prêt-à-Porter".

Gabriela, 29, e Luiz, 26, são respectivamente a paciente (que não se considera com problemas mentais) e o médico psiquiatra da quinta e derradeira peça escrita pela dramaturga inglesa Sarah Kane (1971-99).

A autora cometeu suicídio. No solilóquio final, "4:48 Psicose" faz uma metáfora irônica do suicídio. O título se refere ao horário da madrugada em que, presumivelmente, as pessoas se matam com mais frequência.

Segundo os atores, que não assistiram à montagem francesa do mesmo texto, apresentada no início do ano no Rio e em São Paulo (dirigida por Claude Régy e interpretada por Isabelle Huppert), o espetáculo evita o estigma do suicídio e quer contrapor a lucidez dos diálogos a certa obscuridade dos pensamentos dos personagens que criou.

O conflito paciente-médico expõe fragilidades e fortalezas existenciais, afetivas e políticas. O painel é demasiado humano e universal. Alude, por exemplo, a guerras espalhadas pelo planeta.

A encenação é assinada por Nelson de Sá, ex-crítico de teatro, função que exerceu por dez anos, e atual editor do caderno "Ilustrada", na "Folha de S. Paulo".

Sá foi assistente de José Celso Martinez Corrêa em "As Boas" (1992), de Jean Genet, e co-tradutor de "Ham-Let" (1993), de Shakespeare, pelo mesmo diretor do teatro Oficina.

A seguir, a entrevista com os intérpretes de "4:48 Psicose", realizada na manhã deste sábado, cerca de sete horas antes do primeiro ensaio aberto ao público (o espetáculo deve estrear em São Paulo em setembro, no Sesc Belenzinho).

Folha - Como vocês reagiram ao tomar contato com o texto de Sarah Kane?

Luiz Päetow -
Eu comecei a conhecer a autora no ano em que ela morreu, em 1999. A gente estava na Turquia, apresentando "Fragmentos Troianos" num festival, inclusive o Nelson de Sá estava lá cobrindo, aí vimos um artigo do [dramaturgo inglês] Edward Bond falando da Sarah Kane. Eu fiquei com isso na cabeça. Quando voltamos para São Paulo, eu comecei a trabalhar uma cena de suicídio no CPT, na qual meu personagem salvava uma mulher do suicídio.

Mas acabei saindo do CPT [em 2000] e ficou esse elo... Aí, quando o Nelson me ligou, eu disse para mim mesmo: "é essa aí, eu vou nessa". Já conhecia o texto. É fantástico, não só revolucionário, mas vivo, como qualquer notícia de jornal. Não é teatral, no sentido distante. Ele é real, concreto, apesar de não ter rubricas, de não ser realista. É um texto brutal.

Gabriela Flores - De cara, o que me impressionou foi a poesia.

Folha - A palavra no papel?

Gabriela -
É, aquela forma, a estética. É um texto visual, joga com o espaço...

Päetow - Poesia concreta....

Gabriela - Tem uma respiração própria, uma vida. As palavras parecem querer sair do papel, andar pela sala... Mas fiquei me perguntando: como não ficar também só na poesia, já que o texto expõe tanta concretude? Com as leituras, comecei a perceber o quanto o texto é violento. Depois, vi que essa violência, na verdade, é a violência que vem da nossa cabeça. Pode-se dizer "Ah, como a Sarah Kane foi criativa, como ela dispôs as palavras", mas nada daquilo foi à toa. O texto é para expressar algo que estava dentro da cabeça dela. A autora foi muito feliz porque conseguiu dar uma forma para uma questão que não tem forma, que são nossos pensamentos.

Päetow - E é uma peça extremamente bem-sucedida. Todos os dramaturgos têm esse processo de criar um espelho no texto, e ela realmente consegue. E não só nesse texto, mas nos anteriores também, quando experimentou escrever sobre personagens sem tempo ou ação definidos, mas bem desenvolvidos, como em "Ânsia" ("Crave").

A cada processo ela demonstrou consciência do que queria experimentar, não era uma mistura porra-louca, tentando criar somente uma imagem no papel. O "4:48 Psicose", por exemplo, é um texto em que não há diferenças entre as coisas, como entre esta mesa, este gravador, você e eu... Tudo é a mesma coisa, daí a mente psicótica... Você não vê diferença entre a guerra das Coréias e a dos curdos.

Folha - Em Sarah kane, os diálogos são curtos, respirações e silêncios pontuais. Em "4:48 Psicose", a palavra é, inclusive, projetada como imagem. Como é lidar com essa palavra, emiti-la em cena?

Gabriela -
Eu não sei se ela tocava algum instrumento, se cantava, mas ela tem uma noção musical muito forte. Eu ouço uma música, ritmo e pulsação. A tradução [de Laerte Mello] foi muito feliz, tem o mérito de manter a palavra ajustada, é fiel à musicalidade.

Päetow - Apesar de ser um texto de muitas palavras, não é verborrágico, "gorduroso". Essa musicalidade é inata, está dentro de todo mundo. Quando você é simples no que seu modo de querer dizer as coisas, você é musical. Isso está no texto. Não é uma fantasia, não é um a elucubração. É direto, conciso. Quanto à emissão da voz, a gente ainda está trabalhando. Aqui em Rio Preto, por exemplo, sentimos a necessidade de usar microfone por causa da acústica do espaço.

Folha - Apesar de ser um texto escrito antes da morte de Sarah Kane, de seu caráter terminal, não se trata exatamente de uma peça sobre o suicídio, certo?

Päetow -
De maneira alguma, não é uma apologia ao suicídio.

Gabriela - É um texto muito lúdico, não incorre na porra- louquice, de maneira alguma. É uma lucidez exacerbada que te leva a sentir as coisas de maneira muito dolorida, muito forte. Mas é uma dor provocada pela consciência. Há uma passagem em que a personagem diz: "Essa é a doença de se tornar grande". Ou seja, a consciência que se tem da realidade, dos espaços, dos acontecimentos, essa consciência vai te trazendo sofrimento. Um sujeito ignorante talvez seja mais feliz...

E não se trata apenas dos problemas pessoais, afetivos, mas problemas universais. Onde estão nossa consideração, nossa generosidade, nosso respeito pelo outro, nossa religiosidade, o sentido da vida... Não interessa só o plano político, mas existencial, romântico até.

Päetow - E o mais importante é o humor ácido...

Gabriela - Ela não se leva a sério, não faz drama...

Päetow - Ela tira sarro da egolatria à qual todo artista, de certa forma, está fadado a viver, como se sentisse mais que os outros.

Folha - Pela idade em que Sarah Kane morreu, aos 28 anos, pela urgência dos seus textos, vocês vêem nela um reflexo de geração?

Gabriela -
Acho que ela é, para usar aquela frase-chavão, "filha do seu tempo".

Päetow - Filha da revolução...

Gabriela - Sua dramaturgia é sensível, não busca a tradição, um ícone... A urgência dela esta em se expressar. Ela era uma pessoa tão inspirada que acabou fazendo um ato tão brutal sobre a sua própria inspiração. Quer dizer, a luz é tão grande, mas o outro lado, a escuridão, também é muito forte. Ela era tão iluminada quanto obscura.

Päetow - Quanto mais você enxerga a luz, mas você consegue ver sua sombra, que vai aumentando... Sobre a questão da geração, é curioso notar que boa parte dos autores ingleses despontou na faixa dos 30 anos, caso de Edward Bond e o Edward Albee...

Folha - Vocês dois têm uma experiência considerável com a pesquisa da técnica de ator. Nesse espetáculo, como se dá a construção dessa paciente e desse médico?

Gabriela -
Ainda não está fechado. Primeiro, eu tentei ir pelos remédios, todo o percurso dela era em função das reações que os remédios traziam. Não funcionou, porque dava a leitura para o público de uma "louquinha". Para cair na doente mental, é um palito, um nada. Isso joguei fora. Depois, veio a palavra "lucidez" e como deixar claro para a platéia o quanto a personagem está lúcida.

O espectador tem que se identificar, não pode chegar e, de cara, pensar "ih, essa mulher é louca, não tem nada a ver comigo". Surgiu ainda a questão da compaixão. Esse amor que ela coloca na peça e essa compaixão pela humanidade, provocada por causa do sofrimento, das guerras, da falta de respeito... Na verdade, a paciente é uma mulher extremamente sensibilizada, não é susceptível. É diferente. Se ela fosse susceptível, ela seria dramática, psicologizada, "ah, meus problemas", enfim, ela estaria na terapia.

Até agora falei da mente, do pensamento que entendo na personagem. Quanto ao corpo, eu trabalho muito na relação com o outro em cena.

Talvez, mais adiante, eu faça um monólogo, mas ainda não estou no ponto. O trabalho de corpo sempre depende da relação com quem estou contracenando. A forma do meu corpo vai se ajustando ao estímulos que o Luiz vai me dando. Eu estou como uma "massinha". Ele me provoca, o médico provoca muito a paciente, vai dando estímulos. É com o Luiz que estou descobrindo como ela vai se movimentar, quais são os gestos, o olhar.

Eu costumo ser muito preciosista. Num primeiro momento, sou bem barroca, encho de coisas, carrego nas cores, mas depois vou passando no filtro. Aliás, a peça não é nenhum pouco preciosista. Essa é minha busca, a profundidade com limpeza, nada muito carregado, barroco.

Päetow - Meu processo começou basicamente na figura do perpetrador. Qual seria o seu papel numa peça de teatro? Ele é um torturador, é o lado masculino, é o yang, enfim, qual a necessidade de todas as camadas dessa figura do perpetrador, aquele que detona a ação?

Fui buscar lembranças, imagens, sensações de perpetração. O que me faz ter esse impulso de perpetrador? É uma fragilidade, uma beleza, o que me faz transformar, matar, exterminar? Estudei também as histórias de terroristas como Baader e Meinhof, o casal alemão que também cometeu suicídio [Andreas Baader e Ulrike Meinhof, lideres da organização extremista alemã Baader-Meinhof, que morreram em meados dos anos 70].

Em seguida, comecei a criar, de fato, o ambiente desse médico. Comecei a deixar claro no espaço cênico, na minha mente, os corredores, a relação com os médicos, psicologizando mesmo, mas depois joguei tudo fora.

Gabriela - E foi legal que aí a peça virou o médico e a paciente, mais nada..

Päetow - Uma coisa naturalista mesmo. Foi essencial para o trabalho, e depois fomos fazendo os ajustes. A Sarah Kane tenta exatamente acabar com essa divisão de personagens.

Não é uma personagem paciente com um personagem médico. São dois atores que estão pegando tendências da peça. Em alguns momentos ela está perpetrador, em alguns momentos eu estou a ouço como espectador, em alguns momentos a platéia está como perpetradora e os dois estão como ouvintes da platéia. A cada bloco, a cada vagão do texto, esses fatores vão mudando. Estamos ajustando, limpando o médico. Limpar, limpar, limpar até ele se tornar substância. Queremos deixar claro que um personagem é a projeção do outro...

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