Análise - Festival de Rio Preto: Da roda de arena à arena do rodeio
VALMIR SANTOSda Folha de S. Paulo, em São José do Rio Preto
O final do 3º Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto (a 451 km de São Paulo), que termina neste domingo, coincide com a festa do rodeio local, que enverga o anglicismo chic Country Bulls.
O mesmo hotel que hospeda a maioria dos artistas das artes cênicas, hospeda também cantores ou compositores da dita música sertaneja romântica. Apresentam-se por aqui, por exemplo, Daniel e Zezé di Camargo e Luciano, entre outros.
No entanto, não é preciso se dirigir à arena do rodeio, de fato, armada em outro ponto da cidade, para se entrar no clima de show. Ali no lugarNenhum, como a curadoria deste ano batizou o conjunto de galpões de uma antiga fábrica, o ponto de convergência de performances, intervenções e alguns espetáculos da programação do festival, o som está à altura dos megaeventos; e a truculência dos seguranças, idem.
Ao contrário do lugarUmbigo, no ano passado, que ocupou um clube desativado, o lugarNenhum se converteu em espaço de martírio para o espectador fruir as apresentações. O que dirá da tortura sonora sobre os projetos intimistas de artistas de Rio Preto ou vindos de outros cantos do país.
Além da vazão do som eletrônico, por vezes em doses "cavalares" (para não se esquecer do rodeio), a insensibilidade dos organizadores raiou ainda sobre a disposição dos espaços cênicos. Quanto aos galpões 1 e 2, ok, só padecemos --artistas e público-- da violência sonora.
Ironia do destino, a cada final de espetáculo a propaganda nos alto-falantes avisa ao público distinto que "a cidade está artista" nesses dias e que "o espetáculo continua" no bar-teatro, ouça-se lugarNenhum. Um engodo.
No umbigo no lugarNenhum, galpão-mor, que é bar e pista para se dançar e se atirar ao som do DJ da noite, o palco em semi-arena comprime as pessoas ombro a ombro, cabeça a cabeça, prejudicando a visão e favorecendo a dispersão da platéia.
Citam-se dois prejudicados, o musical "Single Singers Bar", do grupo Folias d'Arte (SP), e a performance "O Deus Que Voou", do Teatro do Limite (RJ). Ambos tiveram que se esgoelar para se fazer ouvir. O primeiro ainda se valeu de microfones, apesar de não vencer a concorrência do barulho local.
Ora, uma das premissas para que se cumpra o rito do teatro e da dança é a atenção de quem faz e de quem contempla.
Performances e intervenções, se menos intimistas, até conseguem dialogar com esses ruídos sem problemas. Interagem. Mas, e quanto aos diálogos, aos silêncios tão preciosos para a arte da representação?
É desalentadora a contradição do festival em 2003. A organização que traz a delicadeza do grupo equatoriano Malayerba, por exemplo, é a mesma que o joga na cova de leões em plena demonstração do resultado de uma oficina de atores.
Novamente, o público espremido, o corre-corre, muita gente de fora e as vozes e sons dissonantes do exterior do espaço arranhando e destruindo a elementar arte do encontro ao vivo, aquela em que se ouve, em que se vê, em que se sente.
Pelo que não se viu ou não se ouviu até aqui, no fechamento das cortinas, o caminho que leva à utopia certamente não passa pelo lugarNenhum. Sua morada é no respeito a todos, artistas e público, e na credibilidade que o festival cultivou em 34 anos de história.
O jornalista Valmir Santos viajou a convite da organização do festival
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