Balé da Cidade de São Paulo apresenta coreografias de Ohad Naharin
INÊS BOGÉACrítica da Folha de S.Paulo
No ponto alto das comemorações de 35 anos, o Balé da Cidade de São Paulo apresenta coreografias do israelense Ohad Naharin. "Ponto alto" é pouco: a companhia vive uma experiência artística rara e chega ao ponto altíssimo de si.
Naharin é um mestre contemporâneo da paródia. Retira dos corpos sua beleza puramente plástica e faz cada passo ressoar de sentidos. São muitos elementos em jogo --luz, cenário, figurino, dança, música--, harmonizados cada vez de um jeito, explorando nuances de contradição.
"Axioma 7", com música de Bach ("Concerto Brandemburguês nº 4"), é uma dança das cadeiras. Inicialmente em semicírculo, organizam a sequência de gestos e frases; o último lugar é liberado sucessivamente para um solista que vai ao centro. Ondas de braços, roupas que se vão jogando fora, dança exuberante de energia. Inversões de perspectiva até o final, fechando a sucessão de poemas do um contra o todo.
"Queens": oito mulheres, ao som de Arvo Part ("Fratres"). Solos que se apagam com a luz; incrível cena final, uma última figura caminhando para a sombra, depois que as outras se fundiram no fundo escuro. Em contraste, "Black Milk" traz cinco homens, numa dança de quedas e giros, movimentos fortes e sustentados, encenando um ritual oblíquo.
A noite se encerra com "Perpetuum". Cenografia e figurino têm papel crucial nessa comédia das valsas, composta num registro complexo, de quase "grotesquerie". Na vizinhança imaginativa de um cineasta como Peter Greenaway, ou uma figurinista como Vivienne Westwood: fantasias, ironias, crueldades, felicidades.
Antes que acabe o espaço: só se pode aplaudir o elenco do balé. Como estão dançando bem! Resultado espetacular do trabalho direto com Naharin, e exemplo histórico do que a companhia, bem dirigida, é capaz de fazer.
Balé da Cidade de São Paulo
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Onde: Teatro Municipal (pça. Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 222-8698)
Quando: até 31/7, às 21h
Quanto: de R$ 10 a R$ 15

