Lynch radicaliza em experiência onírica
SÉRGIO RIZZO
do Guia da Folha
Se "A Estrada Perdida" (97) e "Cidade dos Sonhos" (01) já pareciam enigmáticos a quem procura lógica cartesiana no cinema, "Império dos Sonhos" (06) vai muito além, inclusive na duração --três horas de mergulho profundo em um universo onírico de tintas sombrias.
Rodado em suporte digital, com baixo orçamento, o filme usa essa liberdade para radicalizar o processo que vem reaproximando o norte-americano David Lynch de algumas das características de seu início de carreira --não só como o cineasta de curtas experimentais e do obscuro "Eraserhead" (77), mas, principalmente, como o artista plástico que foi buscar no cinema a idéia de movimento, e não a narrativa convencional, muito menos a que pretende ter sentido único.
No lugar de uma "história", fiapos de tramas e de situações. A mais consistente delas envolve atriz (Laura Dern, antiga musa do cineasta em filmes como "Coração Selvagem", de 1990, e "O Veludo Azul", de 1986), ator (Justin Theroux, de "Cidade dos Sonhos", também de Lynch) e diretor (Jeremy Irons) que trabalham na refilmagem de um longa inacabado, anos antes, devido a um crime.
Em paralelo a esse "filme-dentro-do-filme", surgem expressões do mundo interior da protagonista, uma prostituta polonesa em fuga e coelhos gigantes, emprestados do curta-metragem "Rabbits" (02), outra extravagância de Lynch, para quem o cinema, como dizia Jean Cocteau, é sonho que todos sonhamos juntos.
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