Leia depoimentos de arquitetos estrangeiros sobre Oscar Niemeyer
da Efe
Grandes nomes da arquitetura contemporânea falaram sobre Oscar Niemeyer por ocasião do aniversário de cem anos do brasileiro neste sábado.
O português Álvaro Siza, o britânico Richard Rogers, o americano Richard Meier, o italiano Renzo Piano, a anglo-iraquiana Zaha Hadid, os mexicanos Ricardo Legorreta e Teodoro González de León, o espanhol Juan Herreros e a italiana Gae Aulenti foram entrevistados.
Confira os depoimentos:
Álvaro Siza (Portugal)
Siza lamenta que tenham sido pouco aproveitadas as oportunidades para que Niemeyer fizesse projetos em Portugal, e também o fato de terem ficado sem ser realizados projetos como o da Casa do Brasil em Lisboa. Sua única obra em território luso é a de um hotel na Ilha da Madeira.
| Sergio Moraes/Reuters |
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| Oscar Niemeyer observa vista em seu escritório em Copacabana; arquiteto brasileiro completará cem anos neste sábado (15) |
Mas o mestre brasileiro "participou decisivamente, pela qualidade e a comunicabilidade de sua obra e por afinidades culturais, da construção de um novo e por muito tempo buscado espírito para a arquitetura portuguesa", afirma Siza.
Para ele, Niemeyer era sabedor das dificuldades políticas que afetam a evolução da arquitetura e foi capaz de superá-las "com a coragem de um sonho nunca interrompido".
Siza lembra as visitas de Niemeyer a Portugal, e suas reuniões com professores e alunos de arquitetura nas quais explicou projetos como o do aeroporto de Brasília.
"A partir de uma sólida compreensão do funcionamento surgiu, como forma íntegra e total, o que poderia ser (e geralmente é) uma adição de grandes espaços, sem o encorajamento de 'ser um todo' orgânico e eficaz."
A referência a Niemeyer ajudou no processo de "reconquista da liberdade criativa, de conjunção entre tradição e modernidade", declara Siza, que lembrou ainda o fascínio que produziam em sua geração os projetos do brasileiro: "Pilares como pontos, paredes como finas linhas onduladas, a forma quase dissolvida, com tudo tão nítido e tão novo e tão evolutivo".
Richard Rogers (Reino Unido)
| Sergio Moraes/Reuters |
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| Vista do Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói, no Estado do Rio de Janeiro; prédio foi projetado por Niemeyer |
"Oscar Niemeyer é um grande arquiteto, um dos professores que deram forma ao modernismo, e compartilha com Le Corbusier o amor ao concreto com sua liberdade com relação à dominação do ângulo reto.
Seus edifícios belos, plásticos, com boas proporções e dinâmicos combinam a escultura, a funcionalidade e a ciência com a arte. Profundamente comprometido no âmbito político durante toda sua vida, Niemeyer acredita que o desenho não pode se desvincular da responsabilidade social.
Em 2003, Niemeyer construiu seu primeiro edifício em Londres, o pavilhão da Galeria Serpentine, no Hyde Park. Era simples e belo, em contraste com muitas das complexas e distorcidas estruturas que são construídas hoje em dia.
É como se ele passasse cem anos depurando sua obra e alcançasse uma singeleza mágica, que todos são capazes de apreciar. Feliz aniversário, e tomara que ele possa seguir fazendo nosso mundo mais belo."
Zaha Hadid (Iraque-Reino Unido)
"Oscar Niemeyer teve uma influência profunda e duradoura em minha obra. Visitei muitas de suas obras no Brasil, e tive também o privilégio de ter me reunido com ele em várias ocasiões.
Acho que sua originalidade, sua sensibilidade espacial e seu talento são absolutamente únicos e insuperáveis. Sua obra me inspirou e me encorajou a seguir meu próprio caminho na arquitetura e a acompanhá-lo na busca de uma fluência total em todas as etapas."
Richard Meier (EUA)
"Acho que a relação de seu trabalho com o clima e a paisagem teve muita importância para a arquitetura no mundo todo. O uso dos materiais sempre foi muito importante em seus trabalhos, já que utilizou sempre aqueles que permitiam o aproveitamento máximo da luz, de modo que esta se refletisse em seus edifícios.
| Jamil Bittar/Reuters |
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| Homem caminha em frente ao Museu Nacional desenhado em Brasília; concreto armado é uma característica de Oscar Niemeyer |
Eu diria que Niemeyer foi sempre muito limpo e claro em suas criações. Meu grande problema é que, infelizmente, não vi pessoalmente nenhuma de suas obras. Gostaria muito de tê-las visto. O conhecimento que tenho de suas criações se deve a fotografias e esboços.
Acho que (Niemeyer) é uma pessoa que inspira a todos aqueles que querem criar edifícios maravilhosos como os que ele fez ao longo de toda sua carreira, mas em particular não posso estabelecer uma relação de seu estilo com o meu. Eu não fiz nada que possa ser comparado à escala de seus trabalhos. Nossas obras são muito diferentes.
(Niemeyer) Trabalhou durante toda sua vida e ainda hoje não deixou de trabalhar, inclusive agora, prestes a completar cem anos.
Por ocasião de seu centésimo aniversário eu gostaria de dar os parabéns a ele, pois isso é um acontecimento. Obrigado por sua enorme contribuição ao mundo da arquitetura."
Renzo Piano (Itália)
Piano considera que "Oscar Niemeyer é um homem apaixonado e com compromisso político", duas das qualidades "com as quais se faz a arquitetura".
"Além das doutrinas de Niemeyer sobre as formas", o brasileiro sempre disse que o arquiteto é uma "pessoa comprometida politicamente".
| Jamil Bittar/Reuters |
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| Turistas fotografam na Catedral Metropolitana projetada em Brasília; centenário de Oscar Niemeyer tem repercussão internacional |
Piano comentou também que "não no sentido de esquerda ou de direita", pois "todos sabem que ele sempre foi de esquerda", mas sua forma de entender "o compromisso político, o papel cívico" de sua profissão deixou uma "marca profunda".
O italiano lembrou que Niemeyer estava no júri do concurso que atribuiu a construção do emblemático Museu Georges Pompidou de Paris a ele e a Rogers.
Desde então, os dois mantiveram uma relação de amizade, pois, segundo Piano, "independentemente do quanto tenha mudado a história da arquitetura", Niemeyer não mudou sua trajetória pessoal.
Para o italiano, a arquitetura de Niemeyer "canta, tem voz e as cidades necessitam de edifícios que cantem".
Piano acrescentou que o brasileiro encontra "harmonia nas formas das curvas", e o descreveu como um homem "cheio de ironia" que se inspira "na mulher, na biologia ou na natureza".
O arquiteto europeu, prêmio Pritzker em 1998, assegurou que seu estilo e o de Niemeyer são diferentes, mas que quando pensa "na alegria da arquitetura", o brasileiro é uma das pessoas que mais lhe vêm à cabeça, e "não porque tenha copiado sua linguagem", pois "raramente" usou o cimento como o arquiteto de Brasília, mas porque a "magia" que Piano busca em seus edifícios é "um pouco a alegria" de Niemeyer.
Essa alegria "não é vazia", reforçou, "porque por trás há um papel político, o de fazer arquitetura para que o povo a aproveite e para que a cidade seja um local de felicidade".
Teodoro González de León (México)
"Niemeyer é um fora de série, porque quebrou o estigma dos arquitetos que necessitam de idade" para lançar projetos interessantes, ao começar sua carreira muito jovem.
"Não há um Mozart na arquitetura porque esta é uma arte da experiência, mas há pessoas que absorvem a experiência com uma rapidez bárbara, como Niemeyer."
Segundo De León, que conhece bem a obra do brasileiro porque a estudou a fundo quando realizou o projeto da sede da embaixada mexicana em Brasília, as palavras que melhor definem seu colega de profissão são "liberdade", "leveza" e "frescor".
Entre as construções de Niemeyer que mais agradam ao profissional mexicano estão o Palácio da Alvorada e o Complexo Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte, além de outros edifícios em Paris e Milão.
De León lamentou que, apesar dessas conquistas, o homenageado deste sábado seja "o grande esquecido do modernismo" e que a obra do brasileiro tenha sido "pouco valorizada".
Juan Herreros (Espanha)
"Oscar Niemeyer representa para os arquitetos a confiança na forma. Embora seu repertório leve a uma estética e a técnicas não vigentes hoje, seu trabalho transcenderá todas as épocas, pois ninguém pode evitar o fascínio produzido por uma obra projetada a partir da certeza de que imagem, silhueta e experiência espacial são elementos fundamentais da arquitetura.
De certo modo, Niemeyer transmite em sua obra uma mensagem singela, apesar da voluptuosidade de seu trabalho, pois a redução de materiais, organizações elementares e uma facilidade quase ingênua na compreensão e no uso de seus edifícios dão a ele uma aparência mitológica por sua relação entre idéia original, esboço e construção.
A valorização da beleza como ingrediente funcional é certamente seu legado mais fértil e útil para a arquitetura. A obra de Oscar Niemeyer é agora mais apreciada que nunca e o será em um futuro próximo, porque a crítica perdeu força.
Efetivamente, já não cabe o menosprezo de classificá-lo como pouco funcional ou esbanjador de espaço, pois é a fusão dos dois conceitos --beleza e funcionalidade-- o que torna grande seu trabalho, não por atender à atividade programada com atitude minuciosa, mas por considerar o uso experimental do espaço e a percepção como funções tão importantes como qualquer outra."
Gae Aulenti (Itália)
A arquiteta italiana, conhecida por projetar o Museu d'Orsay, de Paris, classificou Niemeyer como dono de um "espírito independente e livre". Aulenti lembrou que encontrou pela primeira vez o arquiteto "pelo menos há 40 anos", no estúdio dele no Rio.
Ao admirar o panorama "imenso e único" de Copacabana do estúdio, Aulenti pensou que essa paisagem era "uma analogia" à arquitetura de Niemeyer.
A italiana disse que em sua visita a Brasília voltou a encontrar esse "espírito livre de Niemeyer, fora de todo o esquema da arquitetura moderna desse período".
Destacou a "grande liberdade" que teve Niemeyer em sua carreira, e que o levou a experimentar na escolha de seus materiais e nos componentes de sua arquitetura.
Também disse que "naquela época havia duas novas cidades a serem visitadas: a Brasília de Niemeyer e a Chandigarh de Le Corbusier, na Índia".
Para Aulenti, Niemeyer é uma "grande testemunha", que deixou sua marca "na passagem do século 20 para o 21".
Ricardo Legorreta (México)
Legorreta disse que o brasileiro tem "uma criatividade e um talento natural impressionantes", e lembrou que, em todas as vezes em que conseguiu ver pessoalmente suas obras, o conjunto pareceu "fácil e natural".
"Ele sempre mostrou uma clara consistência em seus princípios humanos, políticos e sociais, o que gerou uma maturidade em seu pensamento", acrescentou.
O mexicano também comentou que Niemeyer teve a virtude de criar "uma arquitetura universal enraizada ao mesmo tempo na cultura brasileira e em seus próprios princípios criativos".
O melhor projeto do brasileiro, segundo Legorreta, é o do Palácio da Alvorada, "uma obra-prima".
Leia mais
- Veja a trajetória de Oscar Niemeyer, mais importante criador brasileiro vivo
- Leia trecho do livro sobre Oscar Niemeyer
Especial






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endeusado Niemeyer ; quase todas são do tipo
"o belo antonio" do cinema italiano , muito bonito
mas não funciona .
Os arquitetos de maneira geral privilegiam a estética, e negligenciam a funcionalidade !
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