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Ilustrada
15/01/2008 - 00h06

Teatro japonês nasceu da mitologia xintoísta

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DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online

A deusa Ame No Uzumê resolveu dançar em frente a uma caverna e provocou o riso e a alegria dos deuses, com a conseqüente saída de Amaterasu (deusa da luz e do Sol), que iluminou novamente o ambiente, já que ela se escondia da violência de seu irmão Suzanoo. Desta forma, o teatro japonês tem seu mito de fundação, segundo a pesquisadora Ângela Nagai, 40, da Unicamp.

Antes de receber as influências ocidentais, o teatro japonês no geral tomou elementos de culturas asiáticas, como a indiana e a chinesa.

Luciana Fuji/Divulgação
Bailarina Ângela Nagai realiza apresentação de dança no estilo tradicional japonês nô
Bailarina Ângela Nagai realiza apresentação de dança no estilo tradicional japonês nô

Outra diferença do teatro tradicional no Japão, é que não há uma separação forte entre a arte cênica, a dança, o canto e os instrumentos. "A arte não é compartimentada, o ator domina todas as linguagens [canto, dança e música] harmoniosamente", disse Nagai.

O gênero nô foi patrocinado pelo shogunato no século 14 e é o teatro das máscaras, medieval, com influência xintoísta e zen budista. Ele trabalha o tema da superação da ilusão, essencial ao budismo e era praticado apenas por homens. O nô trabalha grandes temas e fala do cotidiano apenas como metáforas para questões maiores, segundo Nagai.

Já o gênero kabuki, é mais colorido e popular. Ele se originou com Okuni, que se vestia de homem, por volta de 1.600. Foi ela quem levou a dança da elite ao povo, disse Nagai.

"No kabuki, os atores se tornaram estrelas e foi a primeira forma de arte cênica auto-sustentável ao menos no Japão", disse Nagai. No Brasil, um gênero interpretado como um braço do Kabuki, o nihon buyo conta com grupos de destaque em São Paulo, de acordo com a pesquisadora.

Jo Takahashi/Divulgação
Nagai em performance de dança contemporânea; pesquisadora estudou no Japão
Nagai em performance de dança; pesquisadora foi bolsista no Japão

Outro gênero de destaque é o bunraku, o teatro de bonecos. Segundo a pesquisadora Darci Kusano, autora do livro "Bunraku e Kabuki: Uma Visada Barroca", cada boneco é manipulado por três pessoas, algo exclusivo do estilo.

O kyogen é outro gênero de destaque. Gênero cômico, trabalha termas cotidianos, prosaicos, não faz uso de máscaras e costuma aparecer em intervalos do nô, que possui temas dramáticos, segundo Kusano.

No Brasil, não há mais grupos de nô. A modalidade veio com imigrantes japoneses, mas não sobreviveu, segundo Nagai.

Até mesmo Nagai não aprendeu o nô em casa. Ela despertou para a prática quando estudava umbanda e camdomblé na universidade. "Sempre me interessei pelo aspecto da religião na arte. Eu já era sensível o que se passava sobre Japão, mas descobri no nô um aspecto de transcendência muito especial por meio da arte", afirmou Nagai. A bailarina ainda possui parentes no Japão, como a avó Masako Nagai, 93, uma poeta de haikai.

Por parte de mãe, Nagai é sobrinha, em terceiro grau, do cantor e compositor Geraldo Vandré.

 

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