Teatro japonês nasceu da mitologia xintoísta
DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online
A deusa Ame No Uzumê resolveu dançar em frente a uma caverna e provocou o riso e a alegria dos deuses, com a conseqüente saída de Amaterasu (deusa da luz e do Sol), que iluminou novamente o ambiente, já que ela se escondia da violência de seu irmão Suzanoo. Desta forma, o teatro japonês tem seu mito de fundação, segundo a pesquisadora Ângela Nagai, 40, da Unicamp.
Antes de receber as influências ocidentais, o teatro japonês no geral tomou elementos de culturas asiáticas, como a indiana e a chinesa.
| Luciana Fuji/Divulgação |
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| Bailarina Ângela Nagai realiza apresentação de dança no estilo tradicional japonês nô |
Outra diferença do teatro tradicional no Japão, é que não há uma separação forte entre a arte cênica, a dança, o canto e os instrumentos. "A arte não é compartimentada, o ator domina todas as linguagens [canto, dança e música] harmoniosamente", disse Nagai.
O gênero nô foi patrocinado pelo shogunato no século 14 e é o teatro das máscaras, medieval, com influência xintoísta e zen budista. Ele trabalha o tema da superação da ilusão, essencial ao budismo e era praticado apenas por homens. O nô trabalha grandes temas e fala do cotidiano apenas como metáforas para questões maiores, segundo Nagai.
Já o gênero kabuki, é mais colorido e popular. Ele se originou com Okuni, que se vestia de homem, por volta de 1.600. Foi ela quem levou a dança da elite ao povo, disse Nagai.
"No kabuki, os atores se tornaram estrelas e foi a primeira forma de arte cênica auto-sustentável ao menos no Japão", disse Nagai. No Brasil, um gênero interpretado como um braço do Kabuki, o nihon buyo conta com grupos de destaque em São Paulo, de acordo com a pesquisadora.
| Jo Takahashi/Divulgação |
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| Nagai em performance de dança; pesquisadora foi bolsista no Japão |
Outro gênero de destaque é o bunraku, o teatro de bonecos. Segundo a pesquisadora Darci Kusano, autora do livro "Bunraku e Kabuki: Uma Visada Barroca", cada boneco é manipulado por três pessoas, algo exclusivo do estilo.
O kyogen é outro gênero de destaque. Gênero cômico, trabalha termas cotidianos, prosaicos, não faz uso de máscaras e costuma aparecer em intervalos do nô, que possui temas dramáticos, segundo Kusano.
No Brasil, não há mais grupos de nô. A modalidade veio com imigrantes japoneses, mas não sobreviveu, segundo Nagai.
Até mesmo Nagai não aprendeu o nô em casa. Ela despertou para a prática quando estudava umbanda e camdomblé na universidade. "Sempre me interessei pelo aspecto da religião na arte. Eu já era sensível o que se passava sobre Japão, mas descobri no nô um aspecto de transcendência muito especial por meio da arte", afirmou Nagai. A bailarina ainda possui parentes no Japão, como a avó Masako Nagai, 93, uma poeta de haikai.
Por parte de mãe, Nagai é sobrinha, em terceiro grau, do cantor e compositor Geraldo Vandré.
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