Cavalera leva beleza para as margens do rio Tietê
ALCINO LEITE NETO
Editor de Moda da Folha de S.Paulo
VIVIAN WHITEMAN
da Folha de S.Paulo
A Cavalera escolheu um dos lugares mais tristes, feios e mal cheirosos de São Paulo para desfilar a sua coleção do inverno-2008. A grife levou os modelos e a imprensa para as margens do rio Tietê, na zona norte da cidade.
O desfile foi ao mesmo tempo um protesto contra a poluição do rio, onde são despejados diariamente três bilhões de litros de esgoto, sem falar na poluição industrial.
| Andre Penner/AP |
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| Modelos da grife Cavalera no desfile que aconteceu ontem nas margens do rio Tietê |
A imprensa se instalou num barco à beira do rio, enquanto os modelos se apresentavam na margem, debaixo de uma chuva rala, pisoteando a lama que se formava no local. Ao fundo, uma das pontes cinzentas que cruzam o Tietê e celeiros industriais que mais pareciam usinas nucleares.
Um apito de alarme de guerra deu início ao desfile, os modelos desceram por uma escada de ferro gigante rumo à margem, e a apresentação transcorreu sem música, tendo como fundo sonoro apenas o barulho dos carros e caminhões que cruzavam a Marginal Tietê.
Visual sombrio
Difícil imaginar que desse cenário desolado poderia emergir alguma beleza, o que tornou ainda mais interessante a aparição dos modelos da Cavalera.
A apresentação marcou a estréia do estilista Marcelo Sommer na direção criativa da grife e já conquistou lugar de destaque nesta edição da São Paulo Fashion Week.
Das margens do rio fétido, emergiu um grupo de garotos e garotas com visual sombrio, que pareciam sobreviventes de uma guerra química ou de um desastre nuclear ("Lembrem-se de Chernobyl" foi um dos slogans da coleção).
Nem as roupas desse pequeno exército de sobreviventes saíram impunes ao fator mutante imaginado por Sommer: camisas gigantes, mangas nas costas, fechos fora de lugar, capuzes no ombro e golas em cascata formando vestidos foram algumas das propostas apresentadas no desfile.
Desconstrução
O trabalho de desconstrução, muito bem realizado, ecoava referências da Comme des Garçons, sobretudo as coleções primavera-verão e outono-inverno 2006.
As formas dominantes foram as longas e amplas, nos vestidões femininos, e levemente ajustadas para os garotos.
Na parte masculina, com "looks" cheios de boas peças avulsas, os "casacos-casulo" e as camisas estendidas, que se transformam em casacos, deram muito certo.
A cartela de cores, muito coerente com o conceito da coleção, apostou em combinações algo mórbidas, com verdes, beges e marrons enlameados e tons nada iluminados de amarelo e de laranja.
O xadrez, grande tendência da temporada e estrela do repertório criativo de Sommer desde o início de sua carreira, também apareceu com força.
Foi um passo importante para a Cavalera, que nas últimas temporadas parecia muito desgovernada do ponto de vista criativo.
Com peças mais comerciais, espera-se que, desta vez, a coleção completa mostrada no desfile chegue às lojas da grife.
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