Mostra no MuBE oferece universos bizarros do fotógrafo David LaChapelle
TEREZA NOVAES
da Folha de S.Paulo
Ele é uma espécie de deus, um arquiteto de universos oníricos e bizarros que beiram o tétrico --como atestam as fotos desta página. O fotógrafo americano David LaChapelle é um criador conhecido sobretudo pelos serviços prestados às principais marcas do planeta.
Seus clientes são multinacionais (entre elas, Motorolla, Siemens e L'Oréal), grifes de luxo, estúdios de Hollywood e astros da música pop --já dirigiu videoclipes para Amy Winehouse, Elton John e Norah Jones.
Mas LaChapelle, 44, está cansado do mundinho. Quer se dedicar à sua arte e se desvincular da venda de objetos e pessoas. "Estou voltando ao ponto de partida, fazendo fotos para galerias e museus, e não para capas de revistas", afirmou em entrevista por e-mail à Folha.
| David LaChapelle/Divulgação |
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| "Milk Maidens" (Damas de Leite, 1996), obra de David La Chapelle na exposição no Mube |
O desejo de ser apreciado como artista será realizado em São Paulo. A exposição "Heaven to Hell: Belezas e Desastres", que é inaugurada hoje no MuBE, reúne 25 imagens --incluindo retratos de Madonna, Leonardo DiCaprio e outros- e uma pequena mostra de obras audiovisuais, como seu elogiado filme de estréia "Rize", sobre uma dança de rua de Los Angeles.
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Folha - O que são as fotos que serão exibidas em São Paulo? Há uma favorita? O que liga os trabalhos?
David LaChapelle - É difícil escolher só uma dessas imagens, porque essas fotos já foram selecionadas entre centenas de outras que fiz nos últimos 20 anos. Elas representam um tempo da minha vida, quando eu era obcecado por fotografar fama e moda. A seleção desta exposição foi feita assim porque todas são minhas favoritas e cada uma representa bem um ponto de vista diferente que eu estava focando na época.
Folha - Recentemente, você disse estar cansado do mundo de celebridades e publicidade. O que mudou?
LaChapelle - Não estou mais envolvido com as idéias de cinco ou dez anos atrás. De 1995 a 2005, meu desafio era fotografar qualquer pessoa que pudesse. Queria registrar tudo por completo, o que começou a ser um anseio por fazer "a" fotografia que definisse a vida de cada pessoa. Depois, mais ou menos na virada do milênio, meu desafio passou a ser fotografar aquela década, registrar as obsessões daquela cultura, da nossa cultura, do nosso tempo, como num filme. Tentei expressar, com aquelas imagens, o que as pessoas eram -se você olhasse para a imagem daquela pessoa, poderia dizer quem ela era, caso não soubesse. Meu objetivo era que o retrato que eu fizesse pudesse dizer quem a pessoa era, anos depois ou quando ela já estivesse morta.
Folha - O que está criando neste momento?
LaChapelle - Agora que já consegui o que queria passei a olhar para onde o mundo está indo e para onde espero que vá. Estou voltando ao ponto de partida, fazendo fotos para galerias e museus, e não para capas de revistas. Sempre estive interessado na idéia do que é o momento sublime. Na maioria das vezes, esse momento vem da natureza -às vezes, com a morte de alguém, um nascimento... É normal, diante de calamidades, as pessoas se perguntarem: "Deus existe?". Esse tipo de pergunta aumenta a possibilidade de sabedoria. Pode acontecer durante uma sinfonia ou quando vemos uma boa obra de arte. Michelangelo me atrai desde a infância; olhar para uma obra dele é encarar o mundo. Não é uma arte do mundo, é "o" mundo, é a humanidade. Michelangelo criou essa idéia de eternidade, de "Deus existe?". A beleza do homem é prova da existência de Deus. Acho que foi o que ele tentou dizer. Meus novos trabalhos têm isso como inspiração. Não importa no que estou concentrado, quero que a imagem que produzo revele a beleza.
Folha - Depois do sucesso de "Rize", pretende fazer outro filme?
LaChapelle - Não tenho planos de fazer nenhum filme, estou focado em produzir arte. Amo fazer minha própria arte com minhas idéias, e isso vai me manter bastante ocupado por um bom tempo.
Heaven to Hell: Belezas e Desastres
Quando: abertura para convidados hoje, a partir das 20h; de ter. a dom., das 10h às 19h. Até 5/2
Onde: MuBE (av. Europa, 218, Jardim Europa, tel. 0/xx/11/3081-8611
Quanto: entrada franca



