Ilustrada
22/01/2008 - 08h54

Gloria Coelho e Fraga são destaques no último dia da SPFW

ALCINO LEITE NETO
Editor de Moda da Folha de S.Paulo
VIVIAN WHITEMAN
da Folha de S.Paulo

A abertura de Gloria Coelho e o encerramento com Ronaldo Fraga deram ao último dia da São Paulo Fashion Week um brilho criativo especial --culminando a boa temporada inverno-2008 do evento.

Estilistas muito talentosos e sensíveis aos movimentos do circuito fashion, ambos, cada um a seu modo, mostraram coleções que permitem conexões com o uso da roupa e a nova fase comercial da moda brasileira a partir de um mesmo elemento essencial: o tecido.

Fraga, apaixonado pela carga de lembranças afetivas que a roupa pode carregar, se inspirou nas tradicionais, e cada vez mais raras, lojas de tecido.

Alexandre Schneider/Folha Imagem
Modelo durante desfile de Ronaldo Fraga no encerramento da SPFW
Modelo durante desfile de Ronaldo Fraga no encerramento da SPFW

Valorizando sua verve artesanal e o gosto pelo ritual de construção de cada peça, o estilista falou de memória e contato físico. São temas que têm muito a dizer ao momento atual da moda brasileira, que, com a recente aquisição de grifes por grupos de investidores, dá seus primeiros passos no território do business.

A nostalgia de Fraga atua como uma espécie de guardiã das pequenas grandes delicadezas da moda, que correm o risco se perderem num mercado cada vez mais regido por números.

Em outra vertente, Gloria Coelho, falou de pele e roupa, companheiras inseparáveis na moda. A estilista se inspirou no trabalho da fotógrafa Diane Arbus, conhecida mundialmente por fotografar "freaks".

Há dois anos, o filme "A Pele" misturou a biografia da artista com uma ficção sobre um suposto caso afetivo que ela teria tido com um homem que sofria de uma anomalia chamada de síndrome do homem-lobo, que faz com que o corpo desenvolva pêlos em excesso.

Foi neste filme que Gloria buscou a referência dominante de sua coleção. Ela criou impressionantes casacos e vestidos com pelagem sintética lisa e alongada, que dotavam as modelos de um certo aspecto primitivo. Os pêlos também apareceram em bermudas usadas sob vestidos decorados com flores plásticas paetizadas, como se, a menina-flor revelasse discretamente, por baixo da saia, sua porção animal.

No final do desfile, Gloria recebeu a visita do empresário Vicente Mello, presidente da holding I'M -nova dona das grifes Herchcovitch; Alexandre, Zoomp e Fause Haten.

A coleção masculina da grife Herchcovitch; Alexandre, inspirada no universo dos caubóis, manteve o alto nível da feminina, tanto do ponto de vista da construção quanto do acabamento das peças.

Foi uma coleção mais pragmática -e de olho na sofisticada fatia de público que ele visa no mercado externo-, em que a alfaiataria comportada ganhava pequenos toques de modernidade. Os ternos, elegantes e com discreta inspiração country, lembravam a figura imponente de Johnny Cash. Na linha mais ousada, destacaram-se os belos ponchos rústicos.

Do Estilista

Marcelo Sommer e sua grife, Do Estilista, também deram uma leve guinada em direção ao comercial, sem perder o charme e a sedução lúdica de seu universo.

Sommer falou de um cenário bucólico, onde as botas dos caubóis e "cowgirls" são coloridas e todos se mantém aquecido em aconchegantes tricôs, sejam eles coletes, bermudas ou até calças com cara de pijama.

Rei dos xadrezes desde o início de sua carreira, Sommer arrebentou nas peças com esse padrão. A coleção foi enxuta, bem-amarrada e ficou ainda mais interessante com o show de Arnaldo Antunes, em meio às arvores do Ibirapuera.

O dia também teve boas apresentações de grifes pequenas, comandadas por jovens talentos do evento, como Simone Nunes e Amapô --esta fez sua estréia na SPFW.

Carô Gold e Pity Taliani, estilistas da grife, chegam em boa hora com uma vibe despretensiosa, quase adolescente, que revigoram a semana de moda.

 

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