Premiado drama romeno extrai poesia de tema árido
SÉRGIO RIZZO
do Guia da Folha
O ditador Nicolae Ceausescu chamava de "era de ouro" o período em que governou a Romênia, de 1965 a 1989. Seu comando chegou ao fim com a última das insurreições desencadeadas na Europa Oriental pela queda do muro de Berlim. Em companhia da mulher, Ceausescu foi executado.
| Divulgação |
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| O ator Alexandru Potocean e a atriz Anamaria Marinca interpretam um casal no filme "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" de Cristian Mungiu |
Ao batizar de "histórias da era de ouro" sua planejada trilogia sobre a vida cotidiana no país durante a ditadura, o diretor e roteirista Cristian Mungiu talvez pareça buscar apenas ironia. A impressão se desfaz com o tom incômodo do filme que inaugura a série, "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2007.
Uma tentativa de aborto faz a trama caminhar, o que talvez baste para ter idéia da sensação angustiante vivida por uma jovem universitária, Otilia (Anamaria Marinca), disposta a ajudar a colega de quarto, Gabita (Laura Vasiliu), a interromper clandestinamente a gravidez indesejada.
É ao lado de Otilia, e não de Gabita, que o foco narrativo se posiciona. Esse procedimento, adotado com rigor por Mungiu em belos planos-seqüência (longas tomadas sem cortes), potencializa o drama ao criar lacunas e manter em estado de permanente suspensão o que estaria acontecendo a Gabita.
Além disso, ganha-se também em movimentação (Otilia é quem circula pela cidade) e dimensão ética.
O país sombrio recriado a partir dessa situação-limite espelha as agruras de um Estado policialesco e corrupto, bem como a situação de fragilidade imposta a seus cidadãos, mas o filme opera o milagre de extrair poesia de tamanha aridez.
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