Cinema e arte se encontram no Sesc
FABIO CYPRIANO
da Folha de S.Paulo
Michelangelo Antonioni, Stanley Kubrick, Steven Spielberg, Brian De Palma e Walt Disney. Direta ou indiretamente, todos esses cineastas estão presentes na mostra "Colateral 2 - Quando a Arte Olha o Cinema", que entra em cartaz, hoje, na Unidade Provisória do Sesc na av. Paulista.
No mesmo local, há poucos meses, o festival Videobrasil já apontava como artistas plásticos têm se apropriado da linguagem cinematográfica. Na nova mostra, essa aproximação é vista em seu caráter metalingüístico, ou seja, como artistas usam o cinema para provocar uma análise sobre ele.
| Divulgação |
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| Imagem da videoinstalação "Invisible Film" (2005), do artista plástico Melik Ohanian |
"O Glauber Rocha dizia que o objetivo do artista é dessacralizar. Nessa mesma linha, escolhi artistas que usam o cinema como tema e criam uma reflexão crítica sobre essa produção", conta Adelina von Fürstenberg, curadora da mostra, exibida pela primeira vez no ano passado, em Milão.
Com 15 obras de 17 artistas --alguns trabalhos foram criados em dupla-- "Colateral 2", que empresta o nome do filme de Michael Mann estrelado por Tom Cruise, ocupa três pisos da unidade do Sesc, na qual foram criadas pequenas salas de cinema, com cadeiras e sinalização típicas das salas comerciais.
"Não fizemos a montagem como videoinstalações, mas sim como salas onde as pessoas possam assistir aos trabalhos como se estivessem no cinema, mas ao mesmo tempo é como se fosse um cinema clandestino", conta a curadora, referindo-se aos locais, em Cuba, onde são exibidos filmes sem a aprovação do governo.
O projeto para a exposição surgiu a partir da obra "Murder" (assassinato), do alemão Thomas G., na qual o artista exibe de trás para frente a cena de "O Iluminado" (1980), de Kubrick, em que a criança fala "murder" ao contrário. "Ao ver esse trabalho, pensei que poderia discutir o cinema por meio das artes plásticas. Vivemos numa sociedade orientada pelo cinema, e por meio dele poderia conquistar um outro público para a arte contemporânea", diz Fürstenberg.
De fato, mesmo os nomes mais conhecidos da mostra na cena contemporânea, como Pierre Huygue, Mike Kelley, Candice Breitz, Liam Gillick ou Philippe Parreno, não se comparam aos cineastas listados no início deste texto. "Ao organizar essa mostra, me dei conta de como o cinema é um processo industrial e coletivo, enquanto as artes plásticas continuam sendo um trabalho individual, mesmo para artistas que fazem filmes com grande orçamento, como o Matthew Barney", afirma a curadora.
Para a seleção dos trabalhos, contudo, Fürstenberg buscou artistas que trabalham de uma forma mais precária que Barney, para deixar aparente o caráter metafórico da exposição. Kelley, por exemplo, comparece com "Superman Recites Selections From "The Bell Jar" and Other Works By Sylvia Plath", em que um super-homem declama em inglês os trágicos trechos do poema da escritora norte-americana. "Nesse trabalho, o que interessa mais é ver um super-herói fragilizado do que entender o texto", diz a curadora.
Premiados
Não por acaso, a exposição conta com vencedores de grandes prêmios do cinema, como o Oscar ou do Festival de Cannes.
Pierre Bismuth, que aqui comparece com "The Jungle Book Project" (o projeto do livro da selva), no qual os personagens de "Mogli, o Menino Lobo" falam em línguas distintas, já ganhou o Oscar de melhor roteiro por "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", escrito com Michel Gondry e Charlie Kaufman.
Já Christoph Girardet e Matthias Müller, com "Kristall" (2006), que está na mostra, ganharam o Grand Prix Canal no Festival de Cannes 2006.
O cinema acabou ocupando a vida de Fürstenberg, que tem, como próximo projeto, trabalhar com 20 diretores, entre eles os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas. "Cada um deles vai abordar num curta um dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos", diz a curadora.
Colateral 2 - Quando a Arte Olha o Cinema
Quando: abertura hoje, às 18h30; ter. a sex., das 11h às 21h; sáb. e dom., das 11h às 20h; até 30/3
Onde: Sesc Paulista (av. Paulista, 119, tel. 3179-3700)
Quanto: entrada franca
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