Presença feminina marca família Yamasaki
DAYANNE MIKEVIS
da Folha Online
A história de família da cineasta Tizuka Yamasaki, 59, serviu de inspiração para o filme "Gaijin -Caminhos da Liberdade" (1980), que retrata os desafios enfrentados por um grupo de imigrantes japoneses no Brasil. Vinda de uma família cujo núcleo forte são as mulheres, a cineasta aproveitou muito das vivências de sua avó para compor o roteiro do longa-metragem.
Em entrevista em sua casa, na cidade de Atibaia, onde vive com a avó, Titoe Kiyoshi Nishi, 103, e a mãe, Sumiko Yamasaki, 83, a diretora afirmou que tem origens em Kuoka pelo lado materno e em Chiba, que fica entre Tóquio e Narita, por parte de pai.
A avó, filha única, veio do Japão em 1917 e conheceu o marido, também japonês, aqui no Brasil, e trabalharam em uma fazenda, chamada Santa Rosa, que ficava ao lado da linha Mogiana.
Nishi teve a mãe de Yamasaki e um filho pequeno, que morreu ainda na infância, em seguida ficou viúva, pois o marido morreu com tuberculose. "Na época havia algo entre as famílias japonesas de que uma mulher não podia ficar sozinha, então minha avó se casou com o nosso avô que nos criou, que era motorista de táxi em São Paulo. Ele havia sido motorista particular, o que era muito chique na época, pois era raro ter um motorista japonês", afirmou a cineasta.
Casamento arranjado
"Eles se casaram e ele tinha um pouco de dinheiro, então compraram uma chácara em Mairiporã. Depois da guerra, compraram uma fazenda em Atibaia e ficaram por aqui, com a aproximação da guerra, a minha mãe, sendo filha única, ela estava ameaçada. Havia um certo abuso da população local contra os japoneses. Então minha avó ficou com medo de que ela fosse violentada por alguém e ela levou minha mãe para São Paulo para uma escola de filhas de japoneses. Ela ficou lá muito tempo até que decidiram fazer um casamento arranjado com o meu pai", disse Yamasaki.
O pai de Yamasaki nasceu no Japão e, após completar os estudos de agronomia, veio se aventurar no Brasil. "Era um outro estilo de imigrante", disse a diretora.
"Como meu pai era uma pessoa com muita personalidade e minha avó materna era meio brava, os dois pegaram de frente e por indicação de um amigo ele foi trabalhar no Rio Grande do Sul", disse Yamasaki, que, por tais circunstâncias, nasceu em Porto Alegre.
Aos 15 anos, a cineasta foi sozinha para São Paulo para estudar, incentivada pela mãe. Yamasaki fez vários cursos antes na capital do Estado, como pintura, etiqueta, entre outros.
Ela fez cursos no Instituto de Arte e Decoração, que atualmente não existe mais. "Foi lá que eu me abri para o mundo, para o pensamento mais moderno", afirmou Yamasaki.
Ela chegou a morar em pensões e casa de amigos em São Paulo, até que seu avô comprou um pequeno apartamento na cidade. Naquela ocasião, o ensino de arquitetura estava polarizado entre a Faculdade de Urbanismo e Arquitetura da Universidade de São Paulo e a Faculdade Mackenzie. Tizuka acabou indo realizar o curso superior em Brasília, mas terminou no Rio de Janeiro.
Rejeição
Quando pequenas, a diretora e sua irmã, Yurika, falavam apenas japonês em casa. No entanto, com a morte prematura do pai, elas deixaram de se comunicar na língua e passaram a usar o português.
Isto mesmo com a insistência da mãe em que aprendessem a língua com a ajuda de professores, Tizuka Yamasaki afirma que adquiriu uma cerca rejeição à cultura e ao pensamento de "ter de ser japonesa" de algumas famílias da época.
"Mesmo rejeitando, tendo como que um bloqueio natural contra a cultura japonesa, é engraçado como muita coisa fica", disse a diretora.
Ela conta que começou repentinamente a falar em japonês durante as filmagens do primeiro "Gaijin". Segundo a diretora, no Japão, é melhor não falar japonês se o descendente não domina o idioma.
"Todo o retorno para fazer o primeiro 'Gaijin' foi muito forte", disse a cineasta.
Mestiçagem
"Minha mãe não queria que eu ficasse em Atibaia e me casasse com um fazendeiro, então ela sabia dos riscos, mas é evidente que, quando a coisa acontece na prática, é sempre um trauma", disse Yamasaki sobre a questão de mestiçagem em sua família.
Ela conta que sua irmã, Yurika, já namorava seu sócio, Carlos Alberto Diniz, há muito tempo quando decidiram se casar. Ele pediu a mão dela à mãe, cuja reação inspirou uma cena do segundo "Gaijin".
A diretora afirmou que a mãe a chamou de madrugada aos prantos contando o ocorrido e disse, indignada, que ele nem sabia falar japonês. Tizuka lembrou que as Yamasaki, em casa, também não falavam a língua oriental.
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