Urso de Ouro aumenta pressão sobre PM, diz "capitão Nascimento"
TAHIANE STOCHERO
da Folha Online
O Urso de Ouro conquistado por "Tropa de Elite" em Berlim no sábado, desbancando até mesmo o filme "Sangue Negro", com oito indicações ao Oscar, fará com que organizações internacionais aumentem a pressão sobre a política de confronto da polícia do Rio de Janeiro, disse à Folha Online Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope (Batalhão Operações Policiais Especiais) que inspirou o Capitão Nascimento, personagem principal do filme premiado.
| Alexandre Campbell/Folha Imagem |
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| Ex-capitão do Bope afirma que o prêmio em Berlim trará pressão sobre a polícia do Rio |
"O comando da Polícia Militar fluminense já avisou: nas operações para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ocorrerem no Alemão, muita gente vai morrer. Só em 2007 a polícia do Rio matou 1.600 pessoas. E mudou alguma coisa? Há anos a gente sobe o morro, mata traficante, e nada muda. Com certeza, com a vitória em Berlim, a 'guerra' no Rio recebe repercussão internacional, e o governo terá de rever esta estratégia", aponta Pimentel.
Para o ex-capitão, o governador Sérgio Cabral (PMDB) apenas está dando uma dose "mais forte do mesmo remédio" que já foi aplicado pelos antecessores, como Benedita da Silva e Garotinho. O diferencial são as obras do PAC, que prometem reurbanizar as favelas de Manguinhos, Rocinha e complexo do Alemão, locais dominados pelo tráfico e onde a polícia não entra.
| Divulgação |
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| Wagner Moura vive capitão do Bope em "Tropa de Elite"; veja galeria de imagens sobre o filme |
"A gente já sabe o que está dando errado, mas não sabe o que pode dar certo. A polícia mata um, na hora seguinte tem um jovem pronto para pegar em armas e defender o ponto de venda de droga. A cada fuzil apreendido, dois chegam facilmente aos criminosos", relatou o ex-policial, que falou com a Folha Online de Porto Alegre, onde estava embarcando para Montevidéu.
Na sua opinião, a novidade agora é que há um plano para levar cultura, lazer e infra-estrutura para o morro. "Mas o maior erro será se a polícia participar disso apenas como elemento garantidor das obras. A PM deve subir o morro e ficar. Se o policial descer do morro, no dia seguinte o traficante volta, e todo o investimento federal feito ali foi por água abaixo."
'Colegiado de Berlim é sensível'
Para o espanto de Pimentel, "Tropa de Elite" não entrou em cartaz em outros países no circuito alternativo, mas sim no circuito comercial: apenas nos Estados Unidos, já foram distribuídas cem cópias. Ele afirmou que o colegiado de Berlim não viu o filme como "fascista", como foi apresentado pela imprensa internacional --principalmente pela revista americana especializada "Variety" --, mas sim como "revelador, denunciador da violência e da corrupção policial", tendo, por isso, recebido o merecido destaque.
O ex-capitão critica, porém, a repercussão dada por jornais brasileiros ao fato de "Tropa de Elite" ter sido narrado em Berlim por uma mulher -- enquanto os personagens principais são homens -- e recebido legendas em alemão. Segundo Pimentel, José Padilha (diretor do filme), que acompanhou premiação no festival, disse que não houve vaias e ausências do público durante a exibição, conforme noticiado.
"A imprensa hiperdimensionou isso. O fato é que o colegiado de Berlim é muito sensível e conseguiu ver o que escapou ao júri do Oscar. O filme foi aclamado e terá destaque internacional agora. Eu acho que, com o Urso de Ouro, a atenção vai ser voltada para o combate ao crime no Rio. Aqui há uma guerra onde morre tanto quanto em países com conflitos civis, como Colômbia e Quênia. E é isso que o mundo precisa ver", afirmou o ex-oficial do Bope.
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