Ilustrada
22/02/2008 - 10h13

Para Salles, "Tropa" segue "Cidade"

SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo

Primeiro brasileiro a ganhar o Urso de Ouro do Festival de Berlim, por "Central do Brasil", há dez anos, o carioca Walter Salles, 51, acha que o mesmo prêmio entregue a "Tropa de Elite" no último fim de semana reforça uma tendência iniciada com "Cidade de Deus" (2002).

O filme de Fernando Meirelles teria lançado uma espécie de modelo caracterizado pelo tratamento de "temas urgentes a partir de livros que viram realidades específicas desde dentro". Leia, a seguir, entrevista que o cineasta concedeu à Folha, comentando o prêmio de "Tropa", que sai em DVD no próximo dia 27.

Folha - O que achou da premiação de "Tropa de Elite" em Berlim?

Walter Salles - Um feito e tanto. José Padilha e seus colaboradores mais próximos, como Wagner Moura, o roteirista Bráulio Mantovani, o produtor Marcos Prado e o montador Daniel Rezende estão de parabéns. O argumento de que a seleção deste ano era fraca não é pertinente: Paul Thomas Anderson, Mike Leigh e o diretor coreano Hong Sang-soo são cineastas que dão relevância e legitimidade a qualquer festival.

Folha - O filme foi acusado de "fascista". Você achou surpreendente que um festival presidido por um cineasta de esquerda, como Costa-Gavras, premiasse "Tropa"?

Salles - Uma das características mais interessantes do filme é justamente a de embaralhar esses conceitos.

Um exemplo: dois críticos tão respeitados quanto Cássio Starling Carlos, da Folha, e Thomas Sotinel, do "Le Monde", leram o mesmo filme de forma inteiramente diferente.

Folha - José Padilha disse que a vitória de "Tropa" reforça a evolução técnica do cinema brasileiro desde a tão falada "retomada", dos anos 90. Concorda com isso?

Salles - O filme de José Padilha reforça uma tendência iniciada por Fernando Meirelles em "Cidade de Deus", que é a de tratar de temas urgentes a partir de livros que viram realidades específicas desde dentro.

No caso de "Cidade de Deus", o ótimo livro de Paulo Lins. No de "Tropa", o de Rodrigo Pimentel, Luiz Eduardo Soares e André Baptista. A questão técnica está sujeita a uma gramática cinematográfica que parece dialogar com "Cidade de Deus": cortes rápidos, voz em "off", mistura de atores profissionais e não profissionais.

Folha - Você concorda com a idéia de que, ao lado de "Central do Brasil" e "Cidade de Deus", "Tropa" forma um conjunto que define a temática do novo cinema brasileiro?

Salles - Não, isso seria reduzir em excesso suas possibilidades e características. Onde ficariam um filme tão brilhante quanto "Cão sem Dono", do Beto Brant, ou tão agudo e delicado quanto "Mutum", de Sandra Kogut? São produções que, mesmo sem atingir um grande público, irrigam e oxigenam toda uma cinematografia.

Onde ficariam, também, os documentários? Um universo que o próprio Padilha ajudou a enriquecer com "Ônibus 174" e que passa por uma fase fértil?

Da mesma forma, o cinema chinês não é só Zhang Yimou ou Chen Kaige. É também Wang Bing e Jia Zhang-ke, e é salutar que seja assim.

 

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