Noyce foge da cela em "pequena história"
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LÚCIA VALENTIM RODRIGUESeditora-assistente da Ilustrada
Acordado no meio da madrugada em sua casa em Los Angeles por um telefonema, o cineasta australiano Phillip Noyce, 53, imediatamente pensou se tratar de alguém trazendo más notícias. "Mas era bem pior do que eu imaginava: era uma roteirista", ri.
Mas ele não desligou, acabou lendo o texto e não conseguindo mais se desvencilhar daquela trama: "Eu estava fazendo um blockbuster ['A Soma de Todos os Medos'], mas aquela pequena história era o que me fazia acordar todas as manhãs. Então abandonei o colosso de US$ 120 milhões e voltei para a Austrália".
O que tirou o sono de Noyce ("O Americano Tranquilo") foi a vida de uma garota aborígene de 14 anos, afastada de sua mãe por conta de uma diretriz governamental, e sua busca do caminho para a casa, percorrendo 2.500 km de uma região árida da Austrália.
De 1880 até os anos 70, o governo australiano defendeu que filhos mestiços deveriam ser separados de suas famílias originais para retomar seu contato com a sociedade branca. Centenas de famílias foram arruinadas em nome desse "bem-estar" infantil --a "geração roubada" do título.
"A história me cativou, porque mexe com o 'passado secreto' australiano. Isso só começou a ser investigado há 20 anos. A Austrália ficou em silêncio por muito tempo sobre esse massacre."
Folha - Por que o sr. decidiu filmar essa história?
Phillip Noyce - Foi uma espécie de antítese ao que estava fazendo em Hollywood. Quando li uma história tão simples e tão tocante, sobre a relação entre brancos e negros em meu país, quis empreender uma viagem de volta para casa, para que, como as meninas do filme, pudesse retomar a minha própria identidade.
Folha - Como o filme foi recebido na Austrália?
Noyce - Conservadores criticaram por o filme ser muito duro com as pessoas que apenas tentaram "ajudar" os aborígenes. Já os aborígenes disseram que eu tinha sido muito brando no modo de representar a crueldade daquela época. Então não há jeito de vencer [risos]. Fiz um filme para que os brancos também quisessem ver, não tentei demonizá-los. A idéia de negar a identidade de uma pessoa, produzindo uma geração de "fantasmas andantes", me parece muito mais chocante do que algo que pudesse filmar.
Folha - O que a população local pensa sobre o assunto hoje?
Noyce - Criaram-se comissões de inquéritos para investigar o assunto e delas surgiu o começo do processo de cura para esses crimes. A maioria dos australianos já aceitou que houve um genocídio, uma tentativa de destruir a cultura aborígene. Mas há ainda uma minoria que insiste na negação --e é apoiada pelo governo atual.
Folha - Esse tipo de segregação ainda acontece nos dias atuais?
Noyce - Não, mas os efeitos dessas políticas ainda são sentidos. Há que se colar os pedaços dessas vidas e isso vai levar gerações.
Folha - Qual sua expectativa de o filme ser exibido no Brasil?
Noyce - Será interessante ver a reação das pessoas. Tudo o que conheço do seu país vem de "Cidade de Deus" e dos filmes de Hector Babenco. Meus filmes de Hollywood fizeram sucesso no Brasil, como "O Colecionador de Ossos", mas é a primeira vez que um filme australiano meu será apresentado aí. É minha libertação da cela de Hollywood.
Folha - Como assim?
Noyce - Foi o que me fez notar que não preciso desses blockbusters. Posso fazer salsichas ou filmes assim, em que o cinema trata de nossas próprias histórias. Foi ótimo ter participado do debate criado pela controvérsia de "Geração", em vez de passar anos como soldado-raso de Hollywood.
Folha - Mas o sr. está de volta a Hollywood...
Noyce - Sim, mas estou fazendo um cinema diferente, tentando fazer "Geração Roubada" dentro do sistema hollywoodiano.
Folha - E isso é possível?
Noyce - Ainda estou tentando, só espero que funcione [risos].
Folha - O sr. está trabalhando em algum novo projeto?
Noyce - Estou analisando três roteiros: "American Pastoral" é a adaptação de um romance de Philip Roth, "Picky", uma biografia sobre o explorador Thor Heyerdahl (1914-2002), e "Dirt Music", uma história de amor.
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