Ilustrada
27/10/2003 - 10h25

Discípulo de Tsai Ming-liang troca claustrofobia por "tempo real"

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CÁSSIO STARLING CARLOS
Editor do Folhateen

Lee Kang-sheng era apenas um garoto de rua. Pelas mãos de seu mentor, Tsai Ming-liang, ele se tornou ator (dos bons) e encarnou uma versão oriental de Antoine Doinel --o alter ego de Truffaut no corpo de Jean-Pierre Léaud-- (no marcante "Que Horas São Aí?", exibido na 26ª Mostra). Sua estréia na direção, com "O Desaparecido", promete transformá-lo em forte candidato a número quatro do Olimpo cinematográfico de Taiwan.

Da convivência com Tsai (de quem foi o ator-fetiche em todos os filmes), Lee aprendeu não só a dirigir atores, mas também a filmar. Em "O Desaparecido", uma avó perde o neto num parque e passa o filme inteiro percorrendo atônita as ruas de Taipé chamando pelo garoto. Em paralelo, um adolescente tenta localizar o avô também desaparecido. Em meio às situações, a cidade aparece assombrada pelo medo da Sars.

Em vez do espaço claustrofóbico dos filmes de Tsai, Lee filma nas ruas, em longos planos-sequência (sem corte), atingindo o que se considera "tempo real" da cena (e, por consequência, a angústia das situações).

Os gritos da avó, que repete o nome do neto de ponta a ponta do filme, funcionam como um mantra. É quase como um negativo da incomunicabilidade entre as pessoas nos filmes de Tsai. Só que aqui, em vez da mudez, é ao chamado que também nada (ou ninguém) responde.

Ao final, Lee abre o plano e mostra uma belíssima metáfora dessa situação, a de um espaço comum, em que todos estão, mas no qual ninguém mais se encontra.

Curioso é descobrir como esses cineastas do Oriente assumiram a tarefa de usar o cinema como forma maior de expressão da vida no mundo contemporâneo. Em filmes baratos, difíceis e arrojados, os cineastas de Taiwan (mas também os da Coréia do Sul) realizam análises impressionantes do nosso mal-estar. Pois sentimentos de perda e de evasão, de deriva e de deslocamento não são exclusivos dos habitantes das metrópoles orientais, claro.

Como então, no Ocidente (com exceção, talvez, do extraordinário novo cinema argentino) os cineastas parecem pensar que essa questão se esgotou, se o Oriente nos mostra com tanta acuidade uma imagem do nosso pesadelo na tela-espelho?

Em tempos de crise do humano, como já nos ensinaram os artistas do neo-realismo, é preciso reaprender a ver para voltar a crer.

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