Personagem portuguesa é a destaque de "Três Mulheres e Aparecida"
MIGUEL ARCANJO PRADO
enviado especial da Folha Online a Curitiba
A montagem baiana "Três Mulheres e Aparecida" marcou o começo do Festival de Curitiba. Dentro da mostra de teatro contemporâneo, a principal do evento, o monólogo do Theatro 18 conta a história do descobrimento do Brasil e da mistura das três etnias principais na formação do povo brasileiro, através da visão de Aparecida, uma mendiga que conversa com seu rato Vicente. O grupo tem sede no Pelourinho, coração do centro histórico de Salvador, e se apresentou no Sesc da Esquina, em Curitiba, na última quinta e sexta.
Aparecida e as outras três mulheres do espetáculo --a índia, a portuguesa e a negra-- são interpretadas por Rita Assemany, com direção de Nadja Turenko para o texto de Aninha Franco, feito na época das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil, em 2000.
| Divulgação |
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| Rita Assemany impressiona ao interpretar as quatro personagens |
Das quatro personagens, a que mais chama a atenção do público é a portuguesa Maria Pureza, revoltada por ter se tornado cozinheira de tripas em terras tupiniquins, e que sonha em voltar a Lisboa. Rita acerta no andar típico da personagem, que caminha como se dançasse o vira-vira, provocando gargalhadas na platéia.
A atriz também desempenha bem o papel da escrava Luedji, que atravessou o Atlântico nos porões fétidos dos navios negreiros. A índia tupinambá Jacapu Coema, por sua vez, é a mais fraca das personagens, fazendo com que o começo do espetáculo seja enfadonho. A peça só engrena quando a portuguesa entra em cena, após a índia, que abre a peça. É Maria Pureza quem cativa o público, que mais tarde vai se emocionar com o drama da negra Luedji.
Tanto o cenário quanto os figurinos são obras de Gilson Rodrigues. Ele acerta na distribuição de cerca de 30 tambores de metal sobre o palco que ganha uma tonalidade cobre. E nos figurinos simples e bem elaborados que ajudam a atriz na caracterização de cada uma das quatro mulheres.
Em um dos tambores, uma gota de água que cai insistentemente serve para abrir e fechar a montagem. Outro destaque é a brincadeira que a diretora propõe à fala onomatopéica do monólogo, algumas vezes ecoada dentro dos tambores.
A peça traz ainda referências que vão de Chacrinha ao atentado às Torres Gêmeas, em Nova York, e assume tom político ao criticar a corrupção. No começo e no fim do espetáculo, Aparecida torna-se uma espécie de Nossa Senhora da vida real, numa bela alegoria à imagem da santa, rodeada de luzinhas que lembram altares das igrejas do interior de Minas e da Bahia.
O repórter viajou a convite do Festival de Curitiba.
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