Cia. Luna Lunera impressiona com "Aqueles Dois" no Festival de Curitiba
MIGUEL ARCANJO PRADO
enviado especial da Folha Online a Curitiba
Os mineiros da Cia. Luna Lunera foram aplaudidos de pé com vigor pela platéia que lotou o Teatro Paiol na noite desse domingo (22), após apresentarem a peça "Aqueles Dois", baseada em conto homônimo do gaúcho Caio Fernando Abreu (1948-1996), escritor e jornalista homossexual morto em decorrência de complicações provocadas pelo vírus da Aids.
Os atores Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga estão afinados na defesa do texto que conta a história de dois trabalhadores de uma repartição burocrática no centro de São Paulo, Raul e Saul. Entre um cafezinho e outro, os dois vão se aproximando pouco a pouco.
Isso gera a desconfiança e a repressão dos outros colegas de trabalho. Eles reagem com vigor destrutivo diante da beleza que brota da altivez dos dois personagens, ainda não afetados pela mediocridade reinante no lugar. O estilo direto e simples da escrita de Caio Fernando Abreu aparece com naturalidade na boca dos atores.
Nudez
A montagem criada e dirigida pelos quatro, ao lado de José Walter Albinati --integrante da companhia que optou por fazer o olhar de fora dessa vez--, apresenta impressionante preparação corporal do elenco. Jogos coreográficos servem para dar ritmo e beleza à encenação. O desenho cênico bem cuidado ajuda a sensibilizar a platéia para a história daqueles dois.
Não há um personagem para cada ator. Todos eles defendem Saul e Raul, bem como a relação tenra entre os dois. Nada no espetáculo é gratuito ou vulgar, nem a nudez explícita dos quatro atores, na cena em que Raul e Saul resolvem dormir nus ao lado um do outro, por conta do calor. A falta de roupa dos atores não agride; muito pelo contrário: é singela e necessária.
O cenário intimista traz caixas de madeira, cadeiras, aparelhos sonoros, um vilão, máquinas de escrever, telefones e a garrafa de café, em volta da qual aqueles dois se aproximam.
Forasteiros na solidão paulistana
Perdidos na solidão de São Paulo, os forasteiros Raul e Saul se entregam ao carinho possível dentro e fora daquele escritório no qual estão enclausurados das 10h às 18h, entre grampeadores quebrados e mensagens impessoais. Como diz o próprio conto de Abreu: "que mais restava àqueles dois senão, pouco a pouco, se aproximarem, se conhecerem, se misturarem?"
O grupo reúne com sensibilidade discos presentes na vida de Caio Fernando Abreu, bem como na de sua geração. Vinis de Cazuza, Michael Jackson e Carlos Gardel circulam nas mãos dos atores. Ângela Rô Rô canta "Amor Meu Grande Amor" e Cazuza e Bebel Gilberto fazem dueto singelo em "Preciso Dizer Que Te Amo", canções que embalam a história.
Entre tantas músicas, lembranças e desejos, é o bolero de Carlos Gardel "El Dia Que Me Quieras" que conduz os momentos cruciais da delicada relação entre de Raul e Saul, no melhor espetáculo, pelo menos até o momento, do Festival de Curitiba.
Esta segunda-feira (24) é a última chance para o público que está em Curitiba conferir "Aqueles Dois". A montagem da Cia. Luna Lunera será apresentada às 20h30, no Teatro Paiol. Saiba mais sobre horários, peças e ingressos do Festival de Curitiba.
O repórter viajou a convite do Festival de Curitiba.
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