Singeleza marca montagem da Cia. Clara em Curitiba
MIGUEL ARCANJO PRADO
enviado especial da Folha Online a Curitiba
A Cia. Clara de Teatro participou do Festival de Curitiba com o espetáculo "Alguns Leões Falam". Nele, o diretor e autor Anderson Aníbal investiu em temas como desejo, traição e camaradagem, presentes em outras peças da companhia mineira, como "Todas as Belezas do Mundo" (2002) e "Coisas Invisíveis" (2003). A montagem atual traz uma singeleza maior do que a vista em espetáculos anteriores do grupo.
| Lenise Pinheiro/Folha Imagem |
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| Daniel Carfa, Camile Gracian e Cássio Machado estão no elenco de "Alguns Leões Falam" |
A peça conta a história de André (Cássio Machado), Clara (Camile Gracian) e Rocha (Daniel Carfa), três amigos que vivem uma relação intensa da infância à vida madura. O espetáculo começa com os atores correndo em volta do público, até chegarem ao palco em formato de passarela, no Teatro Cleón Jacques.
Se a iluminação não encanta, o mesmo não se pode dizer da trilha sonora de João Márcio, grande parte executada ao vivo --como já é praxe nas montagens da companhia-- pelos músicos Lígia Garcia (piano elétrico) e Cristian Tunes (violão), que faz interpretações tocantes de canções como "Cais", de Milton Nascimento.
Os figurinos de Rogério Romualdo, em tons pastéis, também chamam a atenção pela beleza e cuidado. Um exemplo é o colete bordado usado pelo personagem André, ou os tênis com apliques de plumas. A dramaturgia de Aníbal mais uma vez apresenta-se delicada e emocionante.
Passagem do tempo
Durante a infância, os personagens se tocam, brincam, correm e rolam pelo chão, naquele esbanjamento de energia que não se acaba típico dos primeiros anos de vida. Tudo corre bem na vida dos três, até que uma das crianças se muda para uma cidade perto do mar --a fixação pela praia faz parte do mundo mineiro, vide a canção "Todo Azul do Mar", de Flávio Venturini.
A mudança desestabiliza o grupo. Enquanto André vai embora com seu cachorro Marcelo, Clara e Rocha tentam se consolar diante da falta que o outro faz. Muitos anos depois, André volta e provoca uma revolução na relação que se instaurou entre o casal.
O espetáculo aponta para a necessidade que os adultos têm de sonhar diante da crueza da vida de gente grande. Ele reflete a chamada "síndrome de Peter Pan" pela qual padecem muitos jovens atuais. Diante dos problemas típicos da vida adulta, como escolhas, perdas e traições, os personagens de Aníbal, mesmo quando crescidos, ainda são um pouco crianças.
Mineiros
Como se percebe no acento da fala dos atores em cena, os três são do interior de Minas: Carfa é de Pará de Minas, no centro-oeste do Estado, Camile é de Coronel Fabriciano, no Vale do Aço, e Machado é de Tupaciguara, no Triângulo Mineiro. Eles entraram para o espetáculo através do Projeto Residência, desenvolvido no ano passado pela Cia. Clara, que tem sede no bairro Floresta, na região central de Belo Horizonte. "Fiquei sabendo da seleção através de um anúncio de jornal", conta Machado.
Cerca de 40 candidatos se inscreveram nas cidades de Juiz de Fora, Uberaba, Ipatinga e Montes Claros, para tentar algum dos três papéis. "Desses, 18 participaram de seletiva feita em Belo Horizonte, da qual os três atores em cena foram aprovados", lembra Aníbal, que partiu com sua trupe em um avião que saiu de Curitiba no começo da manhã desta terça-feira.
O repórter viajou a convite do Festival de Curitiba.
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