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Ilustrada
27/03/2008 - 20h03

Comentário: Montagem pernambucana traz nudez masculina e discurso raso

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MIGUEL ARCANJO PRADO
enviado especial da Folha Online a Curitiba

A montagem pernambucana "Negro de Estimação", criada, dirigida e interpretada por Kleber Lourenço, é rasa no discurso que tenta colocar o negro no lugar de pobre coitado. No raciocínio curto do espetáculo, o negro não sabe matemática, logo não estuda e vira assaltante no sinal de trânsito. Simples assim. E tudo é culpa do branco.

A montagem só não lembra que há negros inteligentes, que batalham, estudam, correm atrás e sobem na vida, como nos mostrou a recente formatura da Universidade Palmares, em São Paulo.

Priscila Cassou/Clix
Kleber Lourenço dança nu em peça que aborda a temática do preconceito racial
Ator Kleber Lourenço dança nu em peça que aborda a temática do preconceito racial

É verdade que a maioria dos negros é pobre, resultado ainda latente dos muitos anos de chibata. Também é verdade que o preconceito velado e dito ainda resiste. Mas lamentar apenas não é a solução. Muito menos colocar o negro no papel de bicho, como insinua o título da peça. Isso é absorver o mais pobre discurso racista.

O ator/bailarino começa a montagem em uma mistura de dança contemporânea e dança afro. Ele rasteja pelo palco, usando apenas uma alegoria na cabeça, num formato que lembra um cão da raça poodle. Detalhe: do pescoço para baixo, fica completamente nu. Dessa forma, ele reproduz o bailado dos orixás nos centros de candomblé, se esfrega no chão e pula, ao som de atabaques.

Depois desse primeiro ato, ele resolve colocar a roupa. Primeiro a cueca, depois a calça (com suspensórios) e então a camiseta. E ele tira a cabeçorra também, corajosamente revelando seu rosto.

Vestido, resolve falar com a platéia o texto de Marcelino Freire, adaptado por ele e por Marcondes Lima. Antes, faz uma careta para deixar seu rosto com o formato parecido com o de um macaco. Só a partir desse signo dado, é que começa a problematizar a questão da opressão do negro. Depois do falatório, ele volta a tirar a roupa outra vez, sem que nenhuma dramaturgia justifique tamanha exposição.

Amanhã (28), a peça volta a ser apresentada, ao meio-dia, na Sala Londrina do Memorial de Curitiba. Os ingressos custam de R$6 a R$12.

O repórter viajou a convite do Festival de Curitiba.

 

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