Ilustrada
30/03/2008 - 08h57

Bandas criam estratégias contra piratas

THIAGO NEY
da Folha de S.Paulo

Após "Crazy", espécie de soul eletrônico que se tornou uma das músicas mais ouvidas de 2006, não era pequena a expectativa em torno do segundo disco da dupla Gnarls Barkley.

O álbum, "The Odd Couple", estava previsto para chegar às lojas em 8 de abril. Como muitas de suas faixas apareceram na internet em fevereiro, a gravadora (Atlantic/Warner) antecipou o lançamento no iTunes para o último dia 18.

Numa segunda-feira (17 de março), o grupo The Raconteurs colocou mensagem em seu site (www.theraconteurs.com) informando que o segundo disco da banda, "Consolers of the Lonely", estava pronto e que começaria a ser vendido já no dia 25.

A rapidez do processo, dizia a banda no site, era para "levar o disco aos fãs o mais rápido possível". Sem entrevistas, sem material de promoção, sem cópia para a imprensa. Nada.

Ben Beardsworth, diretor da XL, gravadora do Raconteurs, disse que a banda cogitou a possibilidade de não anunciar o disco -sem nenhum aviso, o "Consolers..." estaria nas lojas.

Dois pesos, duas medidas

A estratégia dos dois lançamentos tem como motivação aparente a tentativa de amortizar os estragos causados pela pirataria on-line.

Desde o advento do Napster, em 1999, gravadoras lutam para evitar que seus discos caiam na internet sem autorização.

(Enquanto isso, alguns artistas testam alternativas -dois exemplos recentes são os casos do Radiohead e do Nine Inch Nails. Ambos colocaram seus últimos discos para download sem intermediários --e deixaram para os fãs a tarefa de botar preço no produto.)

Mas, para os lançamentos tradicionais, talvez essa opção de antecipar a chegada dos discos às lojas traga alguns objetivos implícitos.

Veja "Third", o aguardado terceiro álbum do Portishead. Há duas semanas, o disco já está na internet. Mas seu lançamento não foi antecipado. Continua num distante 28 de abril.

Por quê? Talvez porque os comentários elogiosos em blogs, sites e jornais sirvam para alimentar a expectativa em torno do lançamento oficial.

Já "The Odd Couple", do Gnarls Barkley, que exala melancolia e sem nenhuma canção tão imediata quanto "Crazy", gerou repercussão quase oposta à do Portishead.

Ao adiantar o início da comercialização oficial do álbum, a gravadora amortece os efeitos de possíveis propagandas desfavoráveis em blogs e sites.

Gnarls Barkley é formado pela voz extensa e de caráter soul de Cee-Lo Green e pelas manipulações eletrônicas do produtor Danger Mouse.

Ambos se destacam em outros projetos (especialmente Danger Mouse; leia ao lado), mas a união que parecia tão fluida em "St. Elsewhere" (2006; chegou ao quarto lugar na parada da Billboard) deixa aparentar algumas arestas incômodas neste "Odd Couple".

O primeiro single, "Run", é das poucas faixas festivas do álbum -no todo, há uma atmosfera passadista, com teclados retrô, bateria funkeada e muitos efeitos. Música emblemática do clima do disco é a lentaça "Who's Gonna Save My Soul".

Raconteurs

Já o formato de lançamento de "Consolers of the Lonely", dos Raconteurs, deixa escapar um cheiro de hipocrisia. Apenas uma semana separou a divulgação do nascimento do álbum e a sua comercialização.

Eles disseram que não deram o disco à imprensa para que os fãs não o recebessem sob o peso de um pré-julgamento.

Uma comparação. No cinema, costuma-se exibir filmes para jornais e revistas antes da estréia para que sejam feitas as resenhas. Quando os estúdios têm certeza de que um filme será massacrado pela crítica, eles costuma cancelar exibições antecipadas à imprensa.

Não quer dizer que "Consolers of the Lonely" vá ser apedrejado (até porque Jack White é adorado pela crítica), mas não se sabe de nenhum estúdio de Hollywood que tenha justificado tal atitude dizendo que fez isso "para os fãs".

 

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