Ilustrada
30/03/2008 - 19h11

Festival de Curitiba chega ao fim com público de 160 mil pessoas

MIGUEL ARCANJO PRADO
enviado especial da Folha Online a Curitiba

O 17º Festival de Curitiba termina neste domingo (30), e a cidade paranaense amanheceu triste. Após vários dias de sol a pino e temperaturas típicas de verão, o domingo começou cinza e chuvoso, com temperaturas que podem chegar aos 14ºC, segundo Cptec (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Daniel Isolani/Clix
Artistas e público se encontram no café do Memorial de Curitiba
Artistas e público se encontram no café do Memorial de Curitiba, sede do festival

Desde o último dia 20, quando foi aberto o festival, mais de 160 mil pessoas assistiram à programação do evento, entre shows e espetáculos, segundo a organização. O número supera o da edição de 2007, quando 120 mil pessoas participaram do festival.

Neste ano, foram 283 peças oferecidas ao público, com nomes que foram do teatro alternativo e experimental até grandes produções do eixo Rio-São Paulo. O maior sucesso de público foi o "Risorama", a mostra de humor stand-up criada pelo comediante Diogo Portugal, que teve média de 700 pessoas em cada uma das dez sessões.

Com um investimento de R$ 1,172 milhão, o Festival de Curitiba teve média de 80% de ocupação nos 63 espaços onde se apresentaram cerca de 1.500 artistas vindos de 18 estados brasileiros.

"O festival foi uma festa de gente", resumiu o diretor do evento, Leandro Knopfholz.

Polêmicas

A edição de 2008 do festival foi marcada por algumas polêmicas. Leandro Knopfholz comentou esses episódios, como o projetor que falhou na estréia de "Vestido de Noiva", dos Satyros, cancelando a apresentação no domingo (23).

"O profissional responsável pelo aparelho não ficou no local, na hora da apresentação. Ele foi embora. Foi uma falha, mas trabalhamos com gente", afirmou.

Daniel Sorrentino/Clix
Diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz faz balanço final do evento
Diretor do Festival de Curitiba, Leandro Knopfholz, faz balanço final do evento

Leandro também disse que o festival não guarda nenhuma mágoa do diretor Gerald Thomas, que criticou a organização por não mandar passagens aéreas para ele, em Nova York. A palestra do diretor no festival bem como um dos dois espetáculos que sua equipe apresentaria, "Rainha Mentira", precisaram ser cancelados.

"Foi uma falha de logística. Mas não descartamos convidar o Gerald para uma próxima edição. Da nossa parte está tudo bem", declarou o diretor do festival. Em seu blog, no último dia 25, Thomas havia feito as pazes com o evento.

"Mesmo com problemas, eu desejo tudo de bom e de melhor ao pessoal que continua no Festival de Curitiba. Afinal, quantos festivais o Brasil tem? Que seja um sucesso, afinal, teatro -ou melhor, fazer teatro hoje no Brasil é um luxo", postou o diretor.

Episódio violento

Leandro Knopfholz também comentou o episódio violento que ocorreu no dia 23, por volta do meio-dia, quando um homem apontou uma arma para atores da Cia. Independente de Teatro (SP), que encenavam "O Abajur Lilás", no Largo da Ordem, no centro de Curitiba.

Questionado se o espetáculo não deveria ter sido apresentado num outro horário, por conta do texto de Plínio Marcos, que contém palavrões, Leandro foi enfático.

"As pessoas têm o direito de falar o que quiserem nas ruas. Nada justifica um homem tirar uma arma e apontar para a cabeça das pessoas. Nós tínhamos avisado que aquilo se tratava de um espetáculo", afirmou.

Os atores da Cia. Independente de Teatro registraram boletim de ocorrência na 1ª DP de Curitiba. A Folha Online teve acesso ao documento. O homem fugiu após a ameaça e ainda não foi identificado.

Falta de apoio

Outro problema do festival foi com o projeto Carrossel, que previa espetáculos do festival em cidades da região metropolitana de Curitiba. Programado para ocorrer em três cidades, ele foi feito em apenas uma: Campina Grande do Sul.

O diretor do festival explicou que as prefeituras de São José dos Pinhais e de Piraquara desistiram de patrocinar os eventos. Leandro Knopfholz também criticou outros representantes do poder público.

"Mandamos e-mails para cem prefeituras, para que apoiassem espetáculos de suas cidades. Obtivemos respostas de apenas duas delas", revelou. O pedido também foi feito à Funarte. "Pedimos à Funarte para dar apoio para os custos de viagens para alguns grupos que não tinham como vir. Eles nos disseram que não tinham recursos para isso", contou.

Destaques

Alguns espetáculos chamaram a atenção do público e foram destaques em 2008. Na mostra oficial, o mais comentando foi "Aqueles Dois", dos mineiros da Luna Lunera.

Lina Sumizono/Clix
Peça baiana "Avental Todo Sujo de Ovo" foi bastante comentada no festival
Peça baiana "Avental Todo Sujo de Ovo" foi bastante comentada

Já no Fringe, algumas peças conseguiram um bom boca a boca, como foi o caso de "Avental Todo Sujo de Ovo", de Salvador. "Queríamos buscar uma avaliação do nosso trabalho e apresentá-lo para o público mais especializado, jornalistas e críticos. O objetivo foi mostrar que na Bahia não se faz apenas besteirol", diz a atriz Christiane Veigga.

"Fizemos trocas e contatos com outros grupos e vamos levar muitos irmãos. Voltamos para a Bahia mais fortalecidos como grupo. Não tivemos apoio da Secretaria de Estado da Bahia. Fizemos sozinhas o nosso trabalho", declarou a produtora do Grupo de Teatro Bastidores, da Cooperativa Baiana de Teatro, Grasca Souto.

Outros destaques do Fringe que receberam elogios do público e de jornalistas especializados foram "Negrinha", do Grupo XIX, de São Paulo, "Alguns Leões Falam", da Cia. Clara de Teatro, de Belo Horizonte, e "E Nós Que Não Sabemos...", do grupo Moinho, de Ouro Preto.

Ernesto Vasconcelos/Divulgação
Mateus Shimith atua em "E Nós Que Nem Sabemos", um dos destaques do Fringe
Mateus Shimith atua em "E Nós Que Nem Sabemos", um dos destaques

O festival de Curitiba ainda foi marcado por duas grandes estréias: a da peça "A Ordem do Mundo", com Drica Moraes e direção de Aderbal Freire Filho, e da nova montagem da Cia. Deborah Colker, "Cruel", que fez sua estréia mundial na cidade.

Espetáculos que já haviam feito turnê em outras capitais foram bem recebidos pelo público do festival, como foi o caso de "Farsa", da Caravana Produções, do Rio, "Beatles Num Céu de Diamantes", de Charles Möeller & Claudio Botelho, do Rio, e "Salmo 91", de São Paulo. O diretor dessa montagem, Gabriel Villela, precisou deixar Curitiba ontem pela manhã, após saber da morte do pai. Paulo Goulart e Nicette Bruno comemoraram os 54 anos de casamento com a apresentação de "O Homem Inesperado", no Teatro Guaíra.

Bruno Tetto/Divulgação
Ator de "Farsa", Sergio Marone elogiou público do festival
Ator de "Farsa", Sergio Marone elogiou público do Festival de Curitiba e deu apoio ao ato público dos artistas

O projeto Residência das Artes, desenvolvido por integrantes dos Satyros no bairro Vila Verde, na periferia de Curitiba, também chamou a atenção do público e da imprensa, com a montagem "A Fauna", com moradores locais.

Os artistas presentes do festival ainda se uniram, no último dia 27, em um protesto para cobrar do poder público mais recursos para a área teatral. Na noite de sábado, comemoraram antecipadamente o fim do evento, em uma festa animada por músicas dos anos 80.

Leia todas as notícias da cobertura da Folha Online do Festival de Curitiba, além de poder assistir aos vídeos e às entrevistas com artistas, e conferir também as galerias de fotos do festival.

O repórter viajou a convite do Festival de Curitiba.

 

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