Ilustrada
11/11/2003 - 06h55

Poeta Yusef Komunyakaa participa de leitura de poemas em SP

da Folha de S.Paulo

Uma pesquisa no Google, o principal buscador da internet, dimensiona a situação: quem digita as palavras "poeta Yusef Komunyakaa" encontra uma única ocorrência em português.

Komunyakaa, 46, ganhador do Pulitzer em 1994 e professor em Princeton, é uma das vozes mais contundentes e respeitadas da nova poesia dos EUA. E um anônimo no Brasil, onde nenhum dos seus 11 livros foi editado.

Em São Paulo para o lançamento do último número da revista americana "Rattapallax", ele participa de duas leituras de poemas: uma hoje à noite, no Sesc Pompéia, e outra na quinta, no Centro Universitário Maria Antônia.

Um grupo de poetas brasileiros --entre eles Joca Reiners Terron, em cujo blog estava a única ocorrência do Google, Edwin Torres, Flávia Rocha e Claudia Roquette-Pinto-- traduziu versos de Komunyakaa para a ocasião.

Quem lê-los encontrará violência e ternura de mãos dadas, casamento que pode ser explicado pela turbulenta biografia do escritor.

Filho mais velho de uma família negra de Bogalusa, Louisiana, via na infância o pai espancar a mãe, que fugiu de casa. Em 1969, aos 22, foi convocado para combater no Vietnã, onde foi repórter e editor de um jornal militar. Em julho passado, a mulher de Komunyakaa, a também poeta Reetika Vazimani, suicidou-se e matou o filho deles, de dois anos, assunto sobre o qual o escritor se recusa a falar.

"Como a carne grudada no osso, a ternura se mede com a violência por contraste. Não digo que alguém tem de experimentar a violência para conhecer a ternura, mas uma realça a outra. Os extremos vivem lado a lado: o ser humano é capaz de qualquer coisa", disse Komunyakaa à Folha.

A infância sofrida e o racismo da região onde cresceu exercem tanta influência na obra do poeta quanto a música do sul dos EUA. "Eu sou do que o blues é feito. Formada com sangue e ossos da Louisiana, a terra canta por ela própria", afirmou o escritor.

Sobre a indiferença brasileira com sua obra, é irônico: "Não sei [por que não é publicado aqui]. Sou bem publicado no Vietnã, na Itália, na Polônia, na França etc. Não acredito que meu trabalho seja tão difícil para ser traduzido para a cultura brasileira".

Outra ironia é sua lista de escritores brasileiros favoritos. Na poesia, Drummond e João Cabral; na prosa, Paulo Coelho. "Seu 'O Alquimista' acendeu meu espírito imaginativo", justifica.

Co-responsável por uma antologia de poesia contemporânea brasileira editada nos EUA --publicada parcialmente na "Rattapallax"--, a poeta Flávia Rocha articula com a editora 34, que trouxe a revista ao Brasil, a tradução de Komunyakaa.

Rocha traduziu um dos poemas que serão lidos hoje, "Armadilhas para Mosca". Um trecho: "As flores enormes nos meus sonhos/ São grandes como o Primeiro Banco Estatal/E elas comem todo mundo/Menos os que eu amo./ Elas têm nome de mulher/Com bocas iguais ao lugar/De onde saem os bebês".

LEITURA DE POEMAS DE YUSEF KOMUNYAKAA e LANÇAMENTO DA REVISTA RATTAPALLAX
Quando:
hoje, às 19h, no Sesc Pompéia, e quinta, às 20h, no Centro Universitário Maria Antônia
Quanto: grátis
 

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