Leia íntegra do bate-papo com Cássio Starling Carlos sobre "É Tudo Verdade"
da Folha Online
O jornalista Cássio Starling Carlos, crítico de cinema da Folha, participou nesta quinta-feira de bate-papo sobre a 13ª edição do festival "É Tudo Verdade", que acontece em São Paulo até o próximo domingo.
Participaram do bate-papo 140 pessoas.
O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas.
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Bem-vindo ao Bate-papo com Convidados do UOL. Converse agora com Cássio Starling Carlos, crítico de cinema da Folha, sobre a 13ª edição do festival "É Tudo Verdade". Para enviar sua pergunta, selecione o nome do convidado no menu de participantes. É o primeiro da lista.
(05:03:52) Cassio: Boa tarde a todos. Estamos aqui para conversar um pouco sobre o festival de documentários ÉTV - É Tudo Verdade
(05:04:00) Truffaut fala para Cassio: Cássio... Quais seriam os destaques dessa 13ª edição do É Tudo Verdade?
(05:05:43) Cassio: Fazer um recorte de destaques é sempre injusto. Nesta edição são 137 títulos entre longas e curtas, retrospectivas, competição e fora de competição, brasileiros e estrangeiros. Do meu ponto de vista, os títulos mais importantes e consagrados histpricamente integram a mostra "10 Documentários que Anbalaram o Mundo"
(05:05:59) LorenaV fala para Cassio: olá, boa tarde.... em relacao o E Tudo VDD do ano passado, o uqe há de diferente agora?
(05:07:11) Cassio: A diferença neste ano é que não há uma retrospectiva dedicada a um só diretor. A opção dos organizadores foi trazer o pacote desses "10 mais" como cereja do bolo
(05:07:29) Thamyris fala para Cassio: Vc leu a matéria da veja sobre o festival? Achei bastante preconceituosa, apesar de eu mesma ter uma certa resistencia aos filmes da "pobrologia" (termo cunhado pela reportagem). O que pensa sobre isso?
(05:10:00) Cassio: Nao li o texto da Veja. O que alguns consideram um olhar dirigido predominantemente à pobreza, ou "pobrologia", parece um preconceito antigo e já superado em relação aos docs. O que há de fato é a aproximação de universos, temáticas, recortes e abordagens estranhos aos expostos nas mídias tradicionais. Um olhar "marginal" se se preferir. Mas esta é a grande vantagem dos docs: não precisar se submeter aos padrões oficiais
(05:10:17) Truffaut fala para Cassio: Já que é injusto esse recorte, quais seriam as características de alguns documentários nacionais apresentados no Festival?
(05:15:01) Cassio: A característica predominante não é temática, mas estética. Os docs foram a primeira área do audiovisual a sofrer uma reconfiguração profunda trazida pela entrada do DV na captação e difusão. Ou seja, com a leveza e o baixo custo, muitos criadores puderam se lançar no registro documental, abrindo perspectivas, abordando questões às vezes locais, mas de repercussão global e outras conquistas. A estética por sua vez provoca efeitos nos conteúdos, como se fosse uma bola de neve. Há outra perspectiva interessante nesta edição que é a Mostra de Docs Experimentais. O Brasil tem uma longa tradição neste campo e há uma geração emergente que tem buscado inspiração nesta seara, com resultados bem interessantes
(05:15:11) dudu fala para Cassio: Cássio, você considera o doc de Carlos Nader como um dos favoritos ao prêmio de longa brasileiro?
(05:17:56) Cassio: Eu não vi o doc do Nader. Fiquei tão comprometido com a produção de textos, para a qual fui obrigado a ver outros títulos, que não vi muita coisa importante. E a grade de exibições é sempre muito apertada. Mas li e ouvi reações bastante positivas a respeito do doc do Nader, que é um veterano, conhece a fundo seu objeto e deve ter acertado na mosca com mais um bom trabalho
(05:18:14) (Cleide fala para Cassio: Sem citar nomes.... rs... quantos filmes desse festival vc viu até agora? desses, quantos valeram mesmo o ingresso? bjs
(05:20:28) Cassio: Cleide, vou considerar que o Além dos Trilhos, do Wang Bing, mais o Fengming, do mesmo diretor, têm juntos, mais de 12 horas, o que equivaleria a 6 longas. No total, dos 137 títulos, eu tive a oportunidade de ver pouco mais de uma dezena. Já o ingresso não vale nada pq a entrada nas sessões é gratuita rsrsrs
(05:20:49) tata fala para Cassio: como evitar furadas em um festival com tantos filmes inéditos?
(05:23:15) Cassio: Persiga os temas que mais lhe interessam pessoalmente. As estratégias narrativas nos docs são tantas que é ímpossível não encontrar o casamento entre um tema interessante e um modo de expor, de pesquisar e de construção que não lhe agrade. E caso você perceba que entrou numa furada, saia da sala, respire fundo, olhe a programação e parta para outra sala ou sessão. Não custa nada.
(05:23:29) Truffaut fala para Cassio: E qual foi o critério de escolha para se chegar a esses "dez mais" que abalaram o mundo?
(05:28:08) Cassio: Os 10 mais foram selecionados pelo curador britânico Mark Cousins. O critério dele não foi "10 docs mais importantes de todos os tempos", mas seguiu o seguinte princípio: "quais filmes tiveram um impacto social, legislativo e político na época em que foram lançados?" Mas numa lista sempre haverá supostamente falhas, seja entre 10, 100 ou 1000 títulos. Na semana passada, por exemplo, eu comentei no blog sobre 2 títulos desta mostra. e um leitor apontou a ausência de Corações e Mentes. Concordo que se trata de uma "falha" importante.
(05:28:13) AntônioRJ fala para Cassio: oi, cara, vc que acomapnha, sabe dizer como são as bilheterias de documentarios fora dos festivais? digo aqui no Brasil. às vezes parece que esse tipo de produção está restrita aos festivais do gênero. Dos filmes do ETV, quais devem entrar no circuito? abraços
(05:31:44) Cassio: As bilheterias são baixas em comparação com o desempenho dos filmes (nacionais) de ficção. Os festivais, e não apenas os de docs, se tornaram uma alternativa importante a um circuito exibidor cheio de furos. Não tenho informações de quais filmes estrearão comercialmente, portanto, se vc quer ver algum vá correndo. Mas, pelo menos os títulos brasileiros, têm a chance de circular aqui e ali, de serem exibidos no CanalBrasil ou na Cultura
(05:31:59) dudu fala para Cassio: Cassio, quais são as suas indicações para esta reta final do festival?
(05:37:07) Cassio: Vou indicar a partir da grade SP, ok?Para quem não conhece, na sexta tem o clássico "Tudo É Brasil", do Sganzerla. E "Fengming", do Wang Bing. No sábado, "Conversas no Maranhão", do indispensável Andréa Tonacci, e todo o pacote de homenagens a Bergman/Antonioni. No domingo, "A revolução Não Vai Passar na TV", um exemplo clássico de como um doc vale mais que qualquer boa reportagem. E no CineSesc a grade de domingo é toda de reprises, portanto vale a pena dar uma conferida se o título que vc perdeu não reaparece lá numa última chance.
(05:37:19) Victor Verdegas fala para Cassio: Os festivais vão acabar com a evolução tecnológica (TV´s e mídias de alta definição) e a possibilidade de ver filmes em casa (principalmente documentários). Principalmente porque o público desses filmes tem mais poder aquisitivo? Tb existe a questão do festival ser uma seleção parcial de seus produtores...
(05:42:46) Cassio: Victor, eu acho que vivemos num espaço que chamo de paisagem audiovisual. A idéia de concorrência agora é pela atenção do público. A expansão da produção de audiovisual é teoricamente infinita. E os festivais são uma das janelas de oportunidades para vermos aquilo que nem as TVs vão se interessar nem vai estar no YouTube. Os festivais são, claro, limitados, mas oferecem um ótimo espaço para circulação de uma produção que poderia ficar restrita a guetos. E também são ocasiões para que o público encontre realizadores e pensadores em torno de reflexões, com debates, exercícios de crítica nos jornais e sites e bate papos como este.
(05:42:55) Diva fala para Cassio: qual tem sido o publico desse festival... qual vc acha que está sendo o clima? o povo está empolgado, frio...? o que acha?
(05:46:03) Cassio: Diva, nós da imprensa acabamos tendo pouco contato físico com o público, porque vemos os filmes em separado. Eu estive no fim de semana passado no CineSesc e na Cinemateca e me lembro de edições anteriores do festival. Mas o ÉTV não é exatamente um ambiente de torcidas, as platéias são sóbrias, bastante interessadas na proposta do festival. E o ÉTV não propicia aquele tipo de maratonismo infantil da Mostra de Cinema. Então, acho que quem vai é para ver, não para ser visto
(05:46:23) Diva fala para Cassio: vc já ouviu alguma crítica a essa edição do festival e ja sabe o que deve ser mudado para o proximo?
(05:49:05) Cassio: a crítica que eu mesmo faço é em relação ao número limitadíssimo de exibições de cada título: uma ou no máximo duas sessões. O volume de títulos selecionados tende sempre a aumentar. Portanto, a saída seria ou expandir o número de dias do festival ou o número de salas, para que as pessoas tenham mais oportunidades de escolha. Já em relação à seleção, eu e alguns colegas que acompanhamos os festivais internacionais consideramos o trabalho do ÉTV de primeira linha
(05:49:17) Youssef fala para Cassio: eu lembro de, em algum festival passado, comentarem muito sobre o impacto do Youtube num festival de curtas como o ETV. Pela sua experiencia, acha que o impacto dos videos na internet trouxe mudanças significativas ao formato do festival e à sua proposta?
(05:52:54) Cassio: o YouTube e todas esta "democratização" da imagem trouxe um impacto cuja medida ainda não conseguimos medir. Ela aparece no ÉTV na multiplicação de suportes de captação e na ênfase no inacabamento de algumas propostas. Mas não é só nos filmes do ÉTV que esse efeito se faz notar. Um blockbuster como "Cloverfield" é sinal claro disso. E um cineasta do peso do Brian DePalma faz em "Redacted" uma reflexão inevitável: qual o significado, a veracidade e o limite desse descontrole das imagens?
(05:53:06) Thamyris fala para Cassio: Vc acompanha o festival desde o começo...? O uqe mudou desde as primeiras edições? obrigada!
(05:58:12) Cassio: Nas primeiras edições eu via muito ocasionalmente pq estava sempre preso em tarefas de edição. Depois que assumi o cargo de crítico, em 2005, é que passei a acompanhar o ÉTV e outros festivais mais de perto. O que mudou, sem dúvida, é a democratização. Este tipo de evento tem a função, importantíssima, de formar público. Nestes 13 anos, o ÉTV se fez acompanhar por uma ampliação do interesse do público por docs, no Brasil e no mundo todo. Aí entra a lei da oferta e da procura. Desse modo, a tendência é considerarmos as primeiras edições muito tímidas em volume. Mas a diferença é que elas foram pioneiras. Enquanto as seguintes serviram para a ampliação e consolidação do público, do repertório e da programação. Ou seja, meus votos são de longa vida ao ÉTV!
(05:58:55) Cassio: A todos, muito obrigado pela presença. E vamos ver os filmes, que é o que interessa!
(05:59:13) Moderador/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de todos os internautas. Até o próximo!
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