Se estivesse vivo, Cazuza completaria 50 anos nesta sexta-feira
MIGUEL ARCANJO PRADO
da Folha Online
Se estivesse vivo, o cantor e compositor Cazuza completaria 50 anos nesta sexta-feira (4). Mas Agenor de Miranda Araújo Neto --esse era seu verdadeiro nome-- viveu apenas 32 anos. Ele morreu, vítima de complicações provocadas pela Aids, em 7 de julho de 1990.
Em apenas oito anos de carreira, deixou 126 músicas gravadas por ele e mais de 60 letras inéditas e se tornou um dos maiores nomes do rock nacional e da música brasileira.
| 13.nov.1985/Avani Stein/Folha Imagem |
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| Cazuza morreu em 7 de julho de 1990 devido a complicações associadas à Aids |
Cazuza nasceu no Rio, em 4 de abril de 1958. Filho de um dos principais executivos do mercado fonográfico brasileiro, João Araújo, e de Maria Lúcia Araújo, conhecida como Lucinha, Cazuza teve uma vida comum a jovens de classe média-alta da zona sul carioca, com boas escolas, livros e cursos.
Circo Voador
A guinada na vida de Cazuza aconteceu no começo da década de 80, quando entrou para o curso de teatro do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, ministrado pelo ator e diretor Perfeito Fortuna, no Circo Voador --uma lona instalada nas areias da Praia do Arpoador, no Rio.
Lá, Cazuza estreitou amizades com jovens de sua geração, como Bebel Gilberto e Léo Jaime. Foi este quem o indicou, em 1981, para entrar na banda de rock Barão Vermelho, que precisava de um vocalista. Estava traçado seu destino.
Barão Vermelho
Na companhia do guitarrista Roberto Frejat, do baixista Dé, do tecladista Maurício Barros e do baterista Guto Goffi, Cazuza descobriu que poderia ser cantor e, mais, que seus escritos poderiam render letras de músicas.
Cantando suas fossas em ritmo de rock, Cazuza logo despontou no cenário musical. Sob influência do jornalista e produtor musical Ezequiel Neves, uma espécie de mentor na carreira do grupo e de Cazuza, o Barão Vermelho lançou, em 1982, o primeiro disco, "Barão Vermelho".
O LP (naquela época não havia CD) não repercutiu, até que Caetano Veloso resolveu incluir a canção "Todo amor que houver nessa vida", composição de Cazuza e Frejat, na turnê de seu disco "Uns", em 1983.
Nesse mesmo ano, o Barão lançou seu segundo disco, "Barão Vermelho 2", que foi bem recebido pela crítica. Outra força importante que eles tiveram foi do cantor Ney Matogrosso, que resolveu gravar "Pro Dia Nascer Feliz", em seu álbum "Pois É" (1983). A música estourou e, no bojo, o "Barão" fez sucesso.
Em 1984, o diretor Lael Rodrigues convidou o grupo para fazer a música tema do filme "Bete Balanço". A canção, mais uma parceria de Cazuza e Frejat, estourou nas rádios e fez o filme um sucesso de bilheteria, com 1,5 milhão de espectadores.
Já conhecido nacionalmente, o Barão gravou seu terceiro disco, "Maior Abandonado", no fim de 1984, o último com Cazuza no vocal. No verão de 1985, o grupo participou do lendário "Rock in Rio".
Carreira solo
Em 1985, Cazuza resolveu abandonar o Barão e seguir carreira solo. Logo após a separação do grupo, começou a sentir os primeiros sintomas da Aids.
Durante a carreira solo, Cazuza gravou cinco discos: "Cazuza" (1985); "Só Se For a Dois" (1987); "Ideologia" (1988); "O Tempo Não Pára - Cazuza ao Vivo" (1988); e o álbum duplo "Burguesia" (1989).
A partir da descoberta da doença, Cazuza compôs letras com maior teor social e político, como "Brasil" e "Ideologia".
Cazuza assumiu publicamente sua doença em fevereiro de 1989, em entrevista ao repórter Zeca Camargo, na Folha. O cantor chegou a ser levado pela família para se tratar em Boston, nos Estados Unidos. Mas voltou ao Brasil para gravar o álbum "Ideologia", que teve a turnê mais marcante da carreira do cantor.
O show era aberto com a música "Vida Louca Vida", de Lobão, e virou especial da Globo e o disco "O Tempo Não Pára".
Cazuza lutou publicamente contra a doença e esteve no palco enquanto pôde. Ele morreu em casa, cercado pela família, em 7 de julho de 1990.
Filme e combate à Aids
Desde a morte de Cazuza, sua mãe, Lucinha Araújo, luta no combate à Aids e mantém uma fundação destinada a crianças portadoras do vírus HIV, a Sociedade Viva Cazuza.
Em 2004, foi lançado o filme "Cazuza - O Tempo Não Pára", de Sandra Werneck e Walter Carvalho, que contou a trajetória do artista com o ator mineiro Daniel de Oliveira no papel principal.
Sob o lema "é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez", Cazuza foi coerente com seu discurso até o fim, em sua vida que misturou sexo, drogas e rock'n'roll. Além de, claro, muita poesia.
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