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Ilustrada
05/04/2008 - 09h24

Para Arrigucci, Manuel Bandeira foi um "fino observador"

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EDUARDO SIMÕES
da Folha de S.Paulo

Estudioso desde o início dos anos 60 da vida e obra de Manuel Bandeira, sobre quem já escreveu, entre outros, o ensaio "Humildade, Paixão e Morte" (Companhia das Letras, 1999), o crítico literário Davi Arrigucci Jr. ressalta que, em "Crônicas Inéditas I", os textos escritos a partir de 1928 deixam de ser mera notação dos acontecimentos musicais e outros eventos, "quase colunismo social", e se tornam mais opinativos.

"Ele entra, a partir daí, em observações muito finas sobre o ambiente cultural, o comportamento das pessoas, o sentido da vida brasileira, as repercussões da vida política no cotidiano, o que interessa em matéria de arte", diz Arrigucci. "Aparece aí uma pessoa moral que está discutindo o Brasil, as artes, que tem idéia do país que ele quer, do Rio de Janeiro."

Arrigucci cita como exemplo da "observação fina" de Bandeira a crônica "Os Arranha-Céus no Rio Não Fazem Nenhuma Figura" ("A Província", 1928), em que o escritor aponta como prédios altos recém-construídos se abatem diante da grandeza da natureza do Rio, diferentemente do que acontece em cidades como Nova York.

"E isso não é meramente observação de arquiteto, é mais profunda. Um tipo de comentário que só foi feito na década de 40 pelos franceses, como Lévi-Strauss, Roger Bastide etc., observações da sociologia urbana que dependeram de anos de estudo", diz Arrigucci.

O crítico também salienta como as crônicas de Bandeira, inclusive as feitas para a imprensa, eram uma espécie de mapa da mina de seu itinerário como poeta, em que ele contava sua relação com os românticos e simbolistas. E tirou ainda regras e conclusões importantíssimas para a própria poesia.

"Nelas aparecem todas as leituras, sua formação, tudo que ele aprendeu de literatura portuguesa e francesa, de teatro, longos comentários sobre teatro, sobre Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa etc.", diz Arrigucci. "São coisas fundamentais para entender seu itinerário como poeta. Além de valerem por si, eram indício do caminho do poeta."

Humilde cotidiano

Arrigucci também confronta a crônica e a lírica de Bandeira, determinando suas aproximações. Com formação inicial no simbolismo e parnasianismo, o poeta teve origem abastada em Recife. Mas, empobrecido, precisou do dinheiro das crônicas feitas para a imprensa para sobreviver, refletindo na sua produção a experiência com a morte --adolescente, sobreviveu a uma tuberculose-- e a convivência com o mundo da rua e da boêmia no Rio de Janeiro.

"Ele é a primeira figura que leva, no modernismo, a poesia para o rés-do-chão, numa expressão que [o crítico] Antonio Candido deixou famosa. Ou seja, para perto do chão. Eu tratei disso nos termos de um estilo humilde. Pensando que humilde quer dizer aquilo que está perto do humus, do chão", diz.

Ainda segundo Arrigucci, um dos traços fundamentais da crônica bandeiriana é a naturalidade da linguagem, adaptada ao que o próprio escritor chamou de "humilde cotidiano".

"É toda uma atitude diante da vida, da arte, da linguagem, que é importantíssimo a gente entender. E um dos grandes efeitos que ele obtém, tanto na prosa quanto na poesia, é um ajuste da linguagem às necessidades de expressão de um mundo novo e de um modo novo de olhar a realidade e a própria arte verbal."

 

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