Ilustrada
08/04/2008 - 08h47

Supla e João Suplicy fazem show juntos na Europa

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IVAN FINOTTI
da Folha de S.Paulo

Como todo caçula de dez anos, João idolatrava seu irmão mais velho, o Eduardinho, 18. O fato de que Eduardinho cantava numa banda de rock só podia aumentar a reverência do menino. O fato de que Eduardinho arrepiava os cabelos de João e o vestia como minipunk, é claro, multiplicava sua idolatria. O fato de que Eduardinho deixava que João anunciasse sua banda em cima do palco fazia João delirar. Quando Eduardinho chamava o menino de Joãozinho Podre, então, nem se fala.

Antonio Gauderio/Folha Imagem
SAO PAULO (SP) Brasil - 02.ABRIL.2008 - Musicos irmaos Joao Suplicy e Supla que farao o Show Broders of Brazil em Londres, posam no centro da cidade. Foto: Antonio Gauderio / Folha Imagem
Supla e João Suplicy envergam sapatos de veludo nas construções do metrô em SP

Uma dia, Eduardinho arremessou João na cama da mãe como um bólido. Era brincadeira de irmãos, mas o menino bateu a cabeça na quina da cama e o sangue jorrou nos lençóis. O fato de que naqueles lençóis dormiam Marta Suplicy, atual ministra do Turismo, e Eduardo Suplicy, atual senador pelo terceiro mandato, não muda nada. Claro que o pau comeu.

Mas, a despeito de três pontos no cocuruto, o amor de João por Eduardinho não mudou nada -e vice-versa. Tanto que, quando terminou o colegial, o menor anunciou que queria estudar violão em Los Angeles. Eduardinho também queria largar o curso de economia na PUC para se dedicar a shows. Ambos foram atendidos.

Pais-coruja

Eduardo Smith de Vasconcellos Suplicy, o Supla, hoje com 41 e dez discos lançados, mergulhou no punk, se cobriu de tachas, e seus cabelos se espetam cada vez mais, à medida que começam a rarear.
Enquanto isso, João Smith (esqueceram o "de") Vasconcellos Suplicy, 33 e quatro discos, talvez para se diferenciar do mais velho, buscou o som tranqüilo da bossa nova, gravou com Roberto Menescal, casou, tem uma filha, espera outro.

"Acho que o Supla teve muito mais necessidade de se rebelar contra dois pais famosos. Já o João foi na dele, fez seu caminho", analisa a mãe, psicóloga da PUC. Pareciam duas estradas que não voltariam a se encontrar, e Marta torceu o nariz quando Supla veio com a idéia de se juntar ao irmão.

"No começo, achei a idéia estranha", diz ela. "Eles são muito diferentes. Havia certa resistência do João, e eu achava que o João estava certo. Foram meses que o João não queria. A determinação do Eduardinho, que é igual à do pai dele, é que fez o João aceitar. Coincidentemente, eu estava em Londres quando eles se apresentaram lá e fiquei de queixo caído. Foi fantástico, divertido, uma química danada. O público ficou eletrizado. Os dois juntos são melhores do que são sozinhos."

O senador, com sua calma e verborragia característica, terá um parágrafo mais longo, para ser lido bem devagar.

"O que observei quando eles, já há alguns anos, cantavam juntos em nossa casa é que, ainda que o Eduardo tenha um estilo muito diferente, um estilo, como ele diz, "hard punk rock", e o João seja mais voltado para a música popular brasileira, notei uma harmonia muito especial. Não gosto muito de me expressar assim, em inglês, mas é uma palavra que não existe em língua portuguesa, da mesma forma que saudade só existe em nossa língua. Vê-los juntos é "serendipity", uma palavra que tem origem nas fábulas do Ceilão, hoje Sri Lanka, que significa "uma agradável e inesperada surpresa". A Marta tinha alguma dúvida, mas, quando os viu cantando num show juntos, teve a mesma impressão que eu."

Bossa nova, 50

Assim, no ano em que completa 50 anos, a bossa nova ganha um irreverente presente de aniversário: Brothers of Brazil.

Nessa improvável união de punk com bossa nova, com letras que são parte em inglês, parte em português, Supla assume a bateria, enquanto João Suplicy se encarrega dos complexos dedilhados e acordes do gênero criado por Tom Jobim e João Gilberto.

Ainda não há CD nem gravadora, mas diversas músicas estão à disposição do internauta, grátis, em www.myspace.com/brothersofbrazil.

As brigas entre os dois irmãos são um atrativo da dupla. Nas gravações, Supla vive espezinhando o mano, que, por sua vez, implica com cada nova idéia do mais velho.

"Ele sempre fica pensando, pensando. Depois, diz "tá bom'", provoca Supla.

"Eu não discuto. Se ele vem se achando o bonzão, bato o telefone na cara ou saio andando", ensina João.

Em "Stay Tranqüilo" (fique tranqüilo), declamam um ao outro frases do tipo "tá nervosinho?", "deixa de ser folgado!" e outras expressões que não podem ser publicadas.

O título de "Sometimes I Wanna Punch You (But I Love You)" (às vezes quero te socar, mas eu te amo) resume a idéia.

A música que abre os shows tem como título o nome da dupla: "We are the Brothers of Brazil/ I am from São Paulo/ And I live in Rio" (leia tradução no quadro à direita).

Como se vê, é assumidamente música de exportação. Supla e João apresentam um país de "concrete jungles" e alertam que o Brasil não é um país de macacos nas ruas, como visto no desenho "Os Simpsons".

Essa aquarela do Brasil do século 21, por estranha que possa parecer aos brasileiros, tem encontrado seu caminho lá fora. A dupla já fez shows em Los Angeles e Nova York e está em turnê européia, com apresentações em Bruxelas, Paris (leia abaixo) e Londres.

No Brasil, Supla e João fizeram dois shows: um em Moema e outro, por iniciativa da dupla, no Capão Redondo (veja vídeo no MySpace). Ali, o show foi gratuito, às próprias custas, num boteco. Na platéia, de olhos marejados, o senador: "Não gosto de me expressar assim, mas foi "serendipity'".

 

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