Novos arquitetos do Japão projetam a leveza
SILAS MARTÍ
da Folha de S.Paulo
Sobrou no horizonte um único prédio depois do terremoto que arrasou Kobe. Era uma igreja de papel, projeto do japonês Shigeru Ban, que fez de sua arquitetura efêmera desde então uma prova da força física e conceitual de materiais descartáveis, colhidos ao acaso.
Foi com esse mesmo material que construiu seu escritório na cobertura do centro Georges Pompidou, em Paris, onde trabalha no projeto da filial do museu a ser construída em Metz, no nordeste da França: uma grande cúpula de vidro, sem paredes, que funde o verde circundante à sala expositiva.
"Queria um prédio aberto ao público, não uma escultura estanque, mas algo que envolvesse o entorno", disse Ban à Folha, por telefone, de Tóquio. "É o projeto mais difícil que já fiz."
O mesmo desafio de envolver o espaço expositivo com uma membrana transparente e flexível coube aos japoneses Ryue Nishizawa e Kazuyo Sejima, arquitetos sócios no grupo Sanaa, que projetaram o Museu de Arte Contemporânea do Século 21 em Kanazawa (Japão).
A exemplo da igreja de papel que o tornou conhecido, Ban traz ao Brasil, na mostra que o Museu de Arte Moderna de São Paulo abre hoje para convidados, um arco feito de garrafas descartadas de Coca-Cola. A estrutura recebe o público na entrada do museu. Na sala ao lado, o Sanaa montou a maquete de sua "Flower House", residência construída nos mesmos moldes do museu em Kanazawa.
"A casa aponta nossa curiosidade em torno de uma arquitetura de formas orgânicas e transparências, como o museu, que é redondo com um invólucro transparente em volta", disse Nishizawa em entrevista à Folha, em São Paulo. Ele veio conhecer as salas do Instituto Tomie Ohtake, onde, em agosto, fará uma exposição dos projetos que desenvolveu ao lado de Sejima, no Sanaa.
A dupla, ao lado de Ban, está entre os arquitetos mais requisitados do mundo e tem trilhado um caminho ousado na criação de centros culturais. "Os museus no Ocidente têm um aspecto muito clássico, simétrico, pesado", diz Nishizawa.
Enquanto Ban criou um museu móvel, construído a partir de contêineres, e trocou Tóquio por Paris para desenhar o novo Pompidou, o grupo Sanaa projetou a pedido de Yuko Hasegawa, curadora da mostra no MAM, o museu de Kanazawa, seguido do festejado New Museum, em Nova York, e bateu a iraquiana Zaha Hadid (por trás do ambicioso Guggenheim em Taiwan) no concurso para desenhar a filial do Louvre em Lens, no norte da França.
Entorno transbordante
"O que fizemos em Kanazawa é leve, aberto. O espaço pode transbordar ou dar um passo adentro, há uma relação flexível", explica Nishizawa, que lista entre suas influências arquitetos brasileiros conhecidos pela mesma fusão do espaço interno com o entorno. "Tenho muita simpatia por Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha."
A mesma flexibilidade pauta o novo Pompidou, que será construído no nordeste da França, próximo à fronteira com a Bélgica, Luxemburgo e a Alemanha, na tentativa de criar ali um pólo cultural. Inspirado no formato de um chapéu chinês tradicional, o prédio não terá fachada: será uma espécie de grande tenda, que abre e fecha.
A idéia de revitalizar o entorno, muitas vezes inóspito, é outra marca dos projetos de Ban e do grupo Sanaa.
Ainda na França, o Louvre pediu a Nishizawa e Sejima um novo prédio, para onde decidiu levar 600 obras de seu acervo transbordante, até agora todo concentrado na sede, em Paris. O anexo será em Lens, cidade industrial decadente no norte do país, vítima de uma crise econômica nos anos 90 que deixou no encalço só minas de carvão desertas e um time de futebol capenga.
Da mesma forma, o New Museum, no Lower East Side, devolve a vocação de celeiro das artes plásticas a uma parte de Nova York que sofreu com a especulação imobiliária -com aluguéis em alta, butiques expulsaram dali artistas e ateliês. "Fizemos algo com a cara do New Museum, supercontemporâneo", resume Nishizawa.
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