Sagmeister diz que sua função é tornar as pessoas mais felizes
MARCELO PLIGER
Colaboração para a Folha
Em 2001, quando lançou o primeiro livro com os trabalhos do seu estúdio até então, o designer Stefan Sagmeister tinha apenas 40 anos. Já havia criado embalagens, livros e peças gráficas para Lou Reed, David Byrne e os Rolling Stones, entre outros, e receberia, no ano seguinte, um Grammy pela capa de uma coletânea da banda Talking Heads. No auge da carreira (aparentemente), tomou o rumo mais inesperado: fechou o estúdio para clientes por um ano a fim de dedicar-se apenas a experimentações.
Um dos projetos nascidos nesse período chega às livrarias americanas: "Things I Have Learned in My Life So Far" (Coisas que Aprendi na Minha Vida Até Agora, ed. Abrams, 248 págs., US$ 40, R$ 66). O projeto teve início com uma série de frases retiradas de seu diário pessoal como, por exemplo, "tentar parecer bem limita minha vida" ou "manter um diário apóia o desenvolvimento pessoal".
Sagmeister fez exercícios tipográficos reescrevendo cada frase de maneira inusitada. Há palavras escritas com pedaços de mobília quebrada, com a sombra da luz incidindo sobre pedaços de salsicha e até mesmo com espermatozóides manipulados em laboratório.
Em uma de suas peças mais conhecidas, um cartaz para palestra em que ele mesmo falaria, escreveu a chamada para o evento em seu próprio corpo, cortando levemente a pele com um estilete e fotografando o resultado. "Queria expressar a angústia e a dificuldade que enfrentamos para criar", explica.
Stefan Sagmeister recebeu a Folha na cobertura em que trabalha e vive, em Manhattan, em Nova York.
Folha - O sr. começou a fazer os trabalhos deste novo livro após o período em que tirou um ano sem atender clientes ou algo foi criado dentro desse período?
Stefan Sagmeister - Eu diria que o fundamental da coisa nasceu nesse ano, mas todos os projetos foram desenvolvidos depois. A idéia original era de que gostaria de publicar design gráfico sem que esse material contivesse mensagens de clientes. Essa idéia surgiu no ano sem clientes e o motivo pelo qual ela veio foi porque, por um segundo, eu queria tornar-me diretor de cinema e fiz um plano de dez anos para aprender tudo sobre isso.
Fiquei orgulhoso de mim mesmo por esse projeto, mas o pensamento que me ocorreu foi: e se eu passar por esse período de dez anos aprendendo essa nova linguagem, conseguir dominar o idioma e não souber o que falar? Então pensei que seria mais esperto usar uma linguagem que eu já conhecesse para falar coisas.
Toda a lista de coisas que aprendi na minha vida surgiu rapidamente nesse ano. Para mim foi uma grande contribuição dispor de um período fora, quando então há espaço para enfrentar perspectivas maiores. Não estou falando necessariamente de coisas mais imponentes, mas de rumos. Mas a combinação do estúdio funcionando exerceu uma eficiente pressão para que as coisas fossem concluídas.
Folha - Como foi o processo de criação? Como surgiram essas idéias?
Sagmeister - A primeira, logo após o período sem clientes, foi uma revista que seria dividida em seis partes, por seis imagens para separar cada seção. Eles nos procuraram e disseram: faça o que você quiser. A primeira frase usada foi "Everything I do always comes back to me" (tudo o que eu faço sempre volta para mim). E tivemos retorno de várias pessoas manifestando-se sobre esse trabalho. Se eu simplesmente publicasse o meu diário, quem daria a mínima? Uma empresa descobriu quem fez isso e nos pediu um segundo trabalho. Fizemos outra vez e outra vez tivemos retorno.
Folha - O sr. pretende publicar outro livro sobre seus outros trabalhos feitos desde 2001?
Sagmeister - Eventualmente. Nós publicamos "Handarbeit" [catálogo para exposição na Alemanha] e, após olhá-lo, decidimos que não temos material suficiente ainda. Não há pressa para a publicação. Para mim não importa que um livro como esse seja publicado agora ou em cinco anos. Considerando o livro "Made You Look" [primeira compilação em livro do conjunto de seus trabalhos], metade do apelo foi sua densidade. Você até paga um preço alto se puder obter realmente muita informação. Então, talvez em três ou cinco anos.
Folha - Muitos designers reclamam dos desejos de seus clientes. Como é fazer as coisas para o sr. mesmo? Como o sr. funciona sendo seu próprio cliente?
Sagmeister - Não. As frases no novo livro são todas projetos de clientes. Em todos eles há elementos que indicam que são "projetos de clientes". Os conteúdos vêm do meu diário, mas são todos projetos com orçamentos pagos pelos clientes. Existem painéis na França que foram pagos para isso. Há um filme em Singapura, pago. Todos os clientes quiseram seus próprios resultados, que são, muito claramente, peças de design gráfico opostas a peças de arte.
Folha - Quais são as diferenças entre arte e design?
Sagmeister - Minha explicação favorita é de que o design deve surgir da arte. É algo mais agradável do que qualquer outra coisa, pois tem de trabalhar em muitos níveis. Tem que funcionar no nível dos clientes. No caso do trabalho com os macacos, o governo da Escócia precisava de um visual simples para um festival de design. Eles queriam algo que criasse impacto, e foi feito. Havia uma função a ser cumprida. Houve grande cobertura da BBC e esteve em todos os jornais da Escócia. Eu queria ver o meu projeto acontecendo, expressar essas mensagens. Você sabe, todo mundo sempre acha que tem razão, mas esses trabalhos têm uma dupla função, e acho que ambas foram cumpridas. Poderiam ser peças sem qualquer função, que não precisassem tocar você, formas pretensiosamente puras. Penso que seria um trabalho muito mais fácil.
Folha - O sr. colabora com outros designers, artistas e músicos. Qual é a diferença em trabalhar com parceiros de fora do seu estúdio?
Sagmeister - Acho que depende do que as pessoas pensam. É lindo quando eles são mais espertos, significa que você vai aprender algo. É o caso de alguns dos artistas com quem estamos trabalhando agora. É a mesmo coisa quando trabalho com outros designers. Alguns músicos pensam que o nosso trabalho é fazermos o que quisermos. Outros querem realmente colaborar e serem nossos parceiros e, basicamente, preferimos isso. Outros, ainda, vêm e sabem exatamente o que querem. Na maioria dos casos, não pegamos esse tipo de projeto, pois eu sei que uma parte importante do nosso trabalho é executar as idéias das pessoas, e isso pode ser feito por muitos designers. Mas, você sabe, isso não é particularmente o nosso forte.
Folha - Mas então onde estão as fronteiras entre arte e design?
Sagmeister - Isso eu não poderia dizer, mas definitivamente considerei mais ser um designer do que um artista. Sem nenhuma dúvida. Cresci na Áustria e estudei design gráfico em um lugar onde há bons artistas. Eu nunca desconsiderei bons artistas, e eles nunca me desconsideraram. Foi uma disputa equilibrada. Funciono muito melhor como um designer por muitas razões. Porque considero a reação do público, acho parte fundamental do trabalho de um designer. Isso significa que se projetei a capa de um dos discos dos Rolling Stones e gostei dela foi na posição de fã dos Rolling Stones. Penso que é uma capa para os fãs dos Rolling Stones.
Folha - Mas, pensando no público, algumas peças, por terem um bom design, acabam tornando-se muito mais caras. O sr. acha que design interessa a quem não pode comprá-lo?
Sagmeister - Todo design interessa para todo mundo, porque a vida de todos é tocada pelo design. Você pode ter um copo de plástico, que alguém criou, que torna mais fácil tomar água. Não creio que haja um único ser humano vivo neste planeta que não seja tocado pelo design. Acabo de voltar da Índia, e mesmo os que vivem nas favelas mais pobres de Nova Déli são incrivelmente tocados pelo design. A vida é totalmente mediada pelo design. Há design em todo o mundo. Quero dizer, é algo diferente de uma pessoa rica que vive na Park Avenue, em Manhattan. É um desenho diferente, mas é design.
Evidentemente, tenho a certeza de que, quando você fala em design, vêm à mente culturas mais ricas que são mais afetadas por ele, mas diria que, antes de suas necessidades básicas serem realizadas, você não se importará com o design. Não é o que você vai pensar a princípio, mas, se olhar para as peças que fazemos, diria que elas estão envolvidas com todos esses níveis. Alguns dos nossos trabalhos têm seus efeitos focados para os mais pobres deste país.
Um dos nossos maiores clientes é uma campanha para que o orçamento militar americano seja gasto em educação. Se pudermos influenciar os candidatos do Partido Democrata a adotar essa estratégia, então poderemos obter bilhões de dólares para gastar em educação. E então posso dizer que design é para todos, inclusive para as pessoas mais pobres. Se somos pobres, a única maneira de melhorar de vida é por meio da escola. Mas as pessoas têm que procurar os militares para obter educação. É desastroso. É um círculo vicioso. Todo o dinheiro é gasto na força militar, não há dinheiro para a educação.
Folha - O sr. defende que o design pode fazer as pessoas felizes. Ele também pode tornar as pessoas tristes?
Sagmeister - Sim! Absolutamente! Existe uma grande quantidade de design que está por aí e que faz isso. Qualquer embalagem mal projetada faz isso. Outro dia, por exemplo. No meio da noite, eu estava em um hotel, com fome e não consegui abrir uma embalagem de comida. Uma coisa minúscula e desnecessária estragou aquele momento. Eu acho que é nossa responsabilidade eliminar essas muitas peças ruins da vida das pessoas e injetar pequenos pedaços de alegria.
Folha - Muitos dos seus trabalhos têm algum tipo de humor, mas e se o sr. tiver de projetar alguma coisa para que as pessoas fiquem tristes, como uma música triste?
Sagmeister - Você pode, naturalmente, fazer isso. Talvez possamos levantar uma boa discussão. É possível tocar o coração de alguém com design. A maioria, 90% dos alunos de meu curso, apresenta algo positivo em seus projetos. Alguns seguem uma direção chocante. Poucos seguem um sentido melancólico. Estou iniciando um novo curso, e esse é um bom tópico, devo discuti-lo mais. Um dos fundamentos que o design tem de atingir é o curto período de tempo em que se está engajado nele, os três segundos que alguém olha para uma foto. Tenho notado que vejo muito mais pessoas tocadas por meios que têm longa duração. É muito difícil para um filme sensibilizar você. A mente humana precisa de um longo período de compromisso para isso acontecer.
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