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18/04/2008 - 08h51

Funk viaja e leva o rock na bagagem

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BRUNA BITTENCOURT
colaboração para a Folha de S.Paulo

Os samples de White Stripes, Justice, Eurythmics e até Yes poderiam confundir os desavisados na pista do clube de Tallinn (Estônia), onde o DJ Sany Pitbull tocou no fim de março. Mas a batida do tamborzão e as interferências que ele fazia com seu MPC (um sampler eletrônico) esclareciam: era um set de funk carioca, pontuado por referências estrangeiras ao gênero.

Sem a companhia nem os refrãos de MCs, recorrendo a ousadas colagens sonoras, dialogando com gêneros como o rock e o pop, Sany vem alargando os limites do funk carioca, ao lado de DJs como Edgar e Sandrinho, criando uma nova vertente para o gênero, batizada como pós-baile funk, que tem na Europa o seu público.

"Eles partiram da tradição instrumental do baile funk, a montagem, que é formatada pelo medley [o encadeamento de várias canções], sem um MC. Mas deram um passo adiante, usando uma colcha de retalhos de influências para criar sua versão abstrata do funk", diz à Folha o DJ e produtor alemão Daniel Haaksman, que lançou em 2004 a primeira coletânea de funk carioca fora do Brasil, "Rio Baile Funk - Favela Booty Beats", e deu nome ao gênero lá fora (baile funk).

"O funk que toca no baile e que faz sucesso são canções que têm melodia e refrão", diz o antropólogo Hermano Vianna, autor de "O Mundo Funk Carioca". "E existe essa outra vertente mais experimental [pós-baile funk]. São cenas complementares."
Para Haaksman, trata-se de um tipo de funk que não é feito para tocar nos bailes do Rio, mas para uma audiência global. O termo pós-baile funk, criado por ele, representa, portanto, um passo do funk carioca em direção ao que se faz lá fora.

"Eu pensei neste termo como uma analogia ao "pós-rock", no qual os músicos utilizam ritmos, melodias e samples que não pertencem à tradição do rock. É uma desconstrução do gênero", explica.

O jornalista Silvio Essinger, autor de "Batidão: Uma História do Funk", não vê um grande ineditismo no pós-baile funk, mas um "cross over" mais acentuado. "Para mim é funk. Não tem essa de "pós" nem "pré". As pessoas vão se apropriando do gênero, que está em permanente mutação", diz. "O que a gente conhecia como funk em 1995 é completamente diferente do que toca hoje nos bailes. Em 1994, você não tinha o tamborzão, as bases rítmicas eram importadas. Hoje há até híbridos com o trance, mas que não são absorvidos imediatamente pela favela."

Radical

"O Sany é a coisa mais importante que está acontecendo na arte eletrônica no Brasil hoje", enfatiza Hermano. "É um tratamento sonoro muito radical o que ele faz com os sons."

A partir da informação de que não tocaria em clubes voltados para a comunidade brasileira, em sua primeira turnê européia, em 2006, Sany achou que seria bom adaptar o funk aos ouvidos europeus.
"Se eu levar só a batida do funk e coisas da música brasileira, as pessoas não vão entender. Mas, quando pego uma guitarra do Dire Straits e começo a fazer as coisas na hora [programações com o MPC, nas quais o DJ interage com outras faixas], é diferente", diz o DJ à Folha.

Em março, Sany iniciou sua terceira turnê européia na pista da Fabric (importante clube londrino, que lança compilações mixadas por DJs como o chileno Ricardo Villalobos e a alemã Ellen Allien) e ainda passou pela França, Suíça, Holanda, Suécia, Dinamarca, Fin-lândia e Estônia. No mesmo mês, ganhou um perfil na importante revista de música americana "XLR8R". Na próxima semana volta à Europa. Toca em Portugal e na Holanda.

"A música do Sany é a que tem mais apelo lá fora. Ele tem uma cultura musical vasta e é provavelmente o melhor dessa geração, também pelo seu trabalho com o MPC", diz Essinger. Hermano chama a atenção para as interferências que os DJs de funk fazem ao vivo com o sampler, como uma característica única do gênero, além de constante no pós-baile funk.

"Mas tem uma galera vindo com força, como o Sandrinho e o Amazing Clay, que está fazendo híbridos de batidão com teclados de trance, que aos poucos estão sendo aceitos até no baile", diz Essinger.

Sandrinho faz uma aproximação do funk com o baltimore club [gênero para as pistas que mescla house e hip hop]. Começou a excursionar pela Europa em 2004, como DJ de Mr. Catra. No ano seguinte, já fazia apresentações solo -em 2007, chegou a tocar em Macau. Edgar embarca neste mês para a Europa em uma turnê que terminará em junho.

À parte as turnês européias, o trio se apresenta com regularidade no Rio, em comunidades ou em casas noturnas, tocando também a vertente mais tradicional do funk.

Vinil do funk

Depois do lançamento de "The Rio Baile Funk", que vendeu 25 mil cópias, Haaksman lançou a série "Funk Masters" para divulgar o trabalho dos produtores, "as pessoas por trás dos MCs". Seus volumes foram dedicados a Sandrinho, Sany, Edgar, Amazing Clay e Grandmaster Raphael. "Cada um deles tem seu próprio estilo, mas todos têm um largo horizonte. Eles têm viajado e entrado em contato com vário estilos de música eletrônica, o que se reflete em sua música."

 

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