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Ilustrada
12/08/2009 - 06h20

Obra traça roteiro da boa reportagem

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MÁRIO MAGALHÃES
da sucursal da Folha, no Rio

Dois enganos sobrevivem em alguns redutos das Redações jornalísticas e das faculdades de jornalismo.

Nas Redações, ainda se encontra quem imagine que boa parte dos pesquisadores acadêmicos seja inepta para noticiar até o aparecimento de um buraco de rua. Nas universidades, persiste, embora decadente, a ilusão de que parcela expressiva das Redações é intelectualmente desqualificada para produzir conhecimento sobre a sua atividade --saber informar, mas não analisar como a informação é elaborada.

Assim como tantos professores dominam as técnicas jornalísticas, e não por acaso sua origem são as Redações, os "jornalistas da ativa" estão habilitados a transmitir seus métodos de trabalho e a refletir a respeito deles. É o que se reafirma em novo livro, "Anatomia da Reportagem - Como Investigar Empresas, Governos e Tribunais", do repórter especial da Folha Frederico Vasconcelos.

O subtítulo não trai --trata-se mesmo, ou também, de um roteiro com lições a jornalistas, novatos ou não, e candidatos ao exercício do jornalismo.

Décadas de profissão

O repórter inventaria alguns dos seus mais relevantes "furos" em quatro décadas de profissão e instrui sobre a boa reportagem. Na seleção de 28 recomendações, ele ensina: "Se ficar comprovado o erro [de informação], o jornalista deve admitir o fato com naturalidade e honestidade e assumir sua responsabilidade".

Reprodução
Frederico Vasconcelos mostra como investigar empresas, governos e tribunais
Livro mostra como investigar empresas, governos e tribunais

O mais comum, contudo, é o jornalismo recusar o reconhecimento dos tropeços que lhe apetece identificar nos outros.

Conselho: "Antes de iniciar uma investigação, esteja certo de que a publicação para a qual trabalha tem interesse no tema e disposição para enfrentar resistências e coibir pressões. Esse cuidado aparentemente óbvio evita frustrações, desentendimentos posteriores com chefias e constrangimentos que poderão ser evitados".

Dois notáveis exemplos (ou contra-exemplos) constam do volume: as reconstituições dos bastidores de reportagens que esquadrinharam a administração Aécio Neves e descortinaram as suspeitas de enriquecimento ilícito de magistrados.

As coberturas, ambas de Vasconcelos, foram veiculadas na Folha.

O autor observa o comportamento submisso da imprensa de Minas Gerais diante do governo do Estado --lá portas se fechariam, ou páginas seriam vetadas, a um relato como o da lavra dele.

No segundo caso, as revelações sobre juízes mal-aprumados contrastam com a recusa histórica do jornalismo nacional em exercer o escrutínio do Poder Judiciário.

Não são apenas empresas de comunicação que resistem a monitorar a Justiça; os jornalistas também. Um motivo é o temor de retaliação nos tribunais, com processos dos magistrados contra os repórteres.

A disposição para adentrar nessa "área minada", como a define Janio de Freitas na orelha do livro, é característica dos repórteres corajosos.

Coragem é qualidade que distingue a trajetória de Frederico Vasconcelos, como se constata nos casos investigados por ele --de bancos como os falecidos Nacional e Econômico à empresa de um presidente da Fiesp; da importação superfaturada de equipamentos na administração Orestes Quércia, em São Paulo, à publicidade dirigida da Nossa Caixa no governo Geraldo Alckmin.

Em "Anatomia da Reportagem", o autor compartilha sua metodologia de apuração e edição e expõe as engrenagens do jornalismo. Assina uma reportagem sobre suas reportagens.

Com elas, Vasconcelos tornou públicas informações que o poder queria manter em sigilo. No livro, os leitores ganham novamente, ao conhecer os "segredos" do trabalho de um grande repórter.

*

"Anatomia da Reportagem"
Autor: Frederico Vasconcelos
Editora: Publifolha
Páginas: 152
Quanto: R$ 27,00
Onde comprar: nas principais livrarias, pelo telefone 0800-140090 e no site da Publifolha

 

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